“Porco é agro, porco é tech, porco é tudo”…Todos já viram esta propaganda algum dia. O que muda é o tema: café, algodão, leite, soja etc. Quando o comercial termina o cidadão brasileiro se enche de orgulho da grandeza de nossa economia e se convence de que este caminho nos levará ao progresso e riqueza do país.

Todas as imagens seguem o padrão global, em alguns momentos chegam a ser românticas. Tanta eficiência nos distrai e oculta uma bizarrice. Por mera conveniência, mudamos a forma de nomear o porco, o cavalo, o boi, ovelha, cabra ou o frango, que passam a ser agro, tech, tudo. De fato, eles são tudo, menos porco, cavalo, boi, ovelha, cabra e frango.

Este comercial é a versão mais bem-acabada da coisificação do animal. Anularam seus instintos. Já não sabem (e nem precisam saber) quando o sol nasce ou se põe, não precisam ciscar, não conseguem deitar na grama. Aboliram as hierarquias que eles estabelecem, os ninhos comunitários, anularam a ordem social estável que, se livres, estabeleceriam. Não podem percorrer longas distâncias; em muitos casos, nunca verão a luz do sol. Alguns animais convivem, no seu curto tempo de vida, com o cheiro das próprias fezes e urinas e outros permanecem em pé ad infinitum.

O animal foi esvaziado completamente da sua natureza, denúncia já feita por Peter Singer, em 1975, no seu clássico Libertação Animal. De lá para cá, o negócio melhorou e a situação do animal piorou. As “fazendas industriais” são mecanizadas, “modernas”. Os tempos dos processos foram encurtados, inclusive o tempo de vida. Chega-se ao “ponto de abate” cada vez mais rápido. A engorda é acelerada com rações e os animais ruminantes, por vezes, nem sabem mais o que é uma grama. O que importa é o aumento de produção, o preço da arroba, da carcaça e do quilo e para isto vale o confinamento e o uso, em grande escala, de antibióticos ou outros remédios utilizados como forma de aplacar as bactérias, vírus e as mais diferentes doenças causadas por este meio que é tudo, menos lugar de vida.

O tech, agro, tudo que antes era um porco, agora nada fazem senão comer, dormir, levantar-se e deitar. Não podem, conforme Singer, fazer escolhas ou alterar seu ambiente. A figura de fundo dessa história toda é que rompemos completamente o vínculo com a natureza. Como homo deus, criamos outra Criação. É o máximo que conseguimos fazer. Criamos falsas necessidades. Hoje, no Brasil, há mais bois que habitantes, mais animais domésticos que crianças. Com nossas bizarrices estamos desfigurando e dizimando os animais, adoecendo o planeta e matando a nós mesmos.