PL DOS BOIS

Deputado denuncia obstrução à votação de PL que proíbe exportação de animais em SP

O deputado estadual João Paulo Rillo (PSOL) denunciou a existência de uma farsa, que ele diz ser bem mal ensaiada, dentro da Casa Legislativa, "de deputados que fingem uma coisa e fazem outra".

(Foto: Divulgação / Fátima ChuEcco)

O deputado estadual João Paulo Rillo (PSOL), em um discurso realizado na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) na última quinta-feira (06), denunciou a obstrução realizada contra o projeto de lei 31/2018, que prevê a proibição da exportação de animais vivos nos portos do estado de São Paulo. A proposta ficou conhecida como PL dos Bois.

(Foto: Divulgação / Fátima ChuEcco)

Rillo começou o discurso afirmando que já viveu diversas situações na Alesp em que ficou decepcionado, mas que o fato atual, relacionado ao projeto de lei, “talvez seja o mais decepcionante de todos, o mais desagradável de todos”. O deputado denunciou a existência de uma farsa, que ele diz ser bem mal ensaiada, dentro da Casa Legislativa, “de deputados que fingem uma coisa e fazem outra”.

“Essa obstrução que está ocorrendo agora, que parece que é em relação a um projeto, que parece que é por causa de outro, na verdade tem um único objetivo”, disse o deputado que, em seguida, afirmou que o referido objetivo é impedir que o projeto de lei 31/2018 seja votado.

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“Diferentemente de ontem, que nós tínhamos um objetivo, que era aprovar a urgência, nós abrimos mão da fala, hoje não dá para fazer isso. Nós temos que politizar esse projeto, nós temos que nos contrapor a essa narrativa vergonhosa, subserviente, alienante que está sendo pregada aqui na bancada por alguns”, afirmou. Em sua fala, o deputado se refere à votação do regime de urgência do PL, aprovado por unanimidade pelo Plenário e que recebeu parecer favorável do Congresso das Comissões na última quarta-feira (04).

Rillo, ao dizer que era reincidente em desnudar a hipocrisia da assembleia e em traduzir uma língua que, segundo ele, é muito usada na Alesp, que é a língua da enrolação, disse que “tem deputado que fez de tudo e continua fazendo de tudo, feito um capacho, um representante legítimo dos piores interesses nacionais, dizendo que era a favor, chegou numa sessão passada dizendo que era até a favor do projeto, e ontem disse que era contra os maus-tratos. Ou seja, esse deputado, que acendeu uma vela para o toureiro e outra para o touro, [quero] dizer que esse deputado, que hoje, no reino da hipocrisia, na soberania da canalhice, no mundo dos lacaios, ele está soberano como caçador. Mas no dia 7 de outubro, vai ser o dia da caça. Esse vai ser o dia da caça e essa luta não termina”.

O deputado lembrou ainda que a alegação de que a proibição das exportações de animais vivos prejudicaria a economia é falsa. “Eu tive o prazer de ouvir alguns deputados. Deputado Gustavo Petta, do PCdoB, e o deputado Raul Marcelo, do PSOL, que brilhantemente se posicionou em relação ao projeto e fez as ponderações perfeitas em relação à economia, a mentira que é isso, a desagregação de valores”, disse.

O argumento de que proibir as operações de embarques de animais vivos nos portos brasileiros prejudicaria a economia do país, alegado pela União, foi rebatido, inclusive, pelo Ministério Público Federal (MPF), por meio do Procurador Regional da República Sérgio Monteiro Medeiros.

O procurador explicou que ao alegar dano à economia, “a União faz uma conta simples, mas data venia, simplória, pois o embargo dessas exportações não se converte, ou converterá, em simples perda, mas no mero embargo a um determinado tipo de comércio, que pode ser substituído, como dito e consabido, por outras modalidades, aliás nada diferentes do que já faz o Brasil” e afirma ainda que o Brasil não merece “a equivocada chancela, que lhe quer assegurar a representação judicial da União, de país inimigo da dignidade animal” e afirmou que a Advocacia-Geral da União (AGU) não atendeu “ao requisito básico de demonstração de dano ou de grave lesão à economia”.

“Eu pensei que a gente pudesse fazer um debate franco e o projeto ia à voto, mas eu estou percebendo que vai ser difícil de entrar na pauta, porque aqueles deputados que se elegem falando do voto, falando da educação, falando que vai defender a saúde, falando que vai defender o meio ambiente, falando que vai defender o bem-estar animal, quando eles chegam na casa, eles se revelam. Ele sai do armário e mostra quem ele é, representante dos interesses econômicos mais sórdidos do país, que é quem manda na Casa Legislativa, nessa e em outras do Brasil”, afirmou.

Rillo criticou ainda a solicitação de uma audiência pública para discussão do projeto. “Estou vendo deputado dizer que quer fazer audiência pública para conhecer melhor o projeto. Canalhas, hipócritas! Eu digo isso porque eu tive, eu tinha quase a certeza, mas como sou muito cuidadoso, fui checar. Qual foi a posição desse deputado que falou tanto em audiência pública? Que é preciso fazer uma audiência pública para entender melhor o projeto? Essa Casa, aprovou o PRA, Programa de Regularização Ambiental, que está sendo questionado na Justiça, que graças à bancada de oposição, especialmente a do PT à época, conseguiu fazer redução de danos. Está sendo questionado na Justiça, essa vergonha. Esse deputado não pediu audiência pública. Essa assembleia aprovou uma PEC do teto que congela investimentos na educação, na saúde, por dois anos no estado de São Paulo, salário do servidor, este deputado não pediu audiência pública. Essa assembleia aprovou autorização para a SABESP se vender ainda mais, gerar mais lucro para os seus acionistas, acabar com o meio ambiente, fazer transposições ilegais, fazer reserva de água, transformar água em produto e este deputado não pediu audiência pública. Eu poderia aqui elencar dezenas de dezenas de projetos, nocivos ao povo de são paulo, que este deputado não pediu audiência pública. Ou seja, é uma vergonha o que está acontecendo aqui, é uma hipocrisia reinante nesta casa”, reforçou.

O parlamentar disse ainda que a Alesp é uma “casa bagunçada, uma casa rebaixada” que o envergonha e elogiou os ativistas que estiveram na assembleia para lutar pelos direitos animais. “Eu estou com vergonha do que nós, deputados, estamos mostrando para vocês, que deram uma aula de civilidade, que deram uma aula de educação, de respeito, que durante três semanas aqui não teve um incidente, não vaiou ninguém, aplaudiu, se manifestou, mas foram absolutamente cidadãos conscientes, democráticos, fizeram uma luta, e mais, aqui ninguém é teleguiado, este lado aqui que está a minha esquerda, ninguém recebeu de ninguém para estar aqui, aqui estão aqueles que têm uma ideologia, estão aqui por uma causa, e quem tem uma causa não desiste, quem tem uma causa resiste”, disse Rillo.

O deputado expôs ainda a presença de uma pessoa, contrária ao projeto de lei, que, segundo Rillo, sequer sabia por qual razão estava na Alesp. “Encontrei terça-feira um amigo meu do interior, ele é ambulanceiro, é motorista de ambulância em uma cidade, perguntei pra ele: mas cidadão, o que você faz aqui?”, disse o deputado, que, em seguida, afirmou que o ambulanceiro respondeu que teria ido à Alesp a pedido de um amigo e, quando questionado se sabia o que estava apoiando, respondeu que não.

“Ele não é nem protetor animal, ele não é nem exportador de gado, nem criador de gado, é óbvio, na verdade, infelizmente, ele se comportou apenas como um gado, ao vir na assembleia e se posicionar a favor desta causa devastadora, atrasada, arcaica, feudal, de três seculos atrás”, reiterou. “E essa gente que deu o golpe, porque quando conseguimos na Justiça barrar [as exportações de animais vivos no Brasil], sabe quem entrou na Justiça para caçar a liminar? O governo do seu Michel Temer. Esse deputado que está fazendo a grande obstrução, ele é do partido do Michel Temer”, completou.

“O governo golpista, o governo de quem está vendendo, de quem está entregando o pré-sal, quem quer entregar a água, quem quer entregar o minério do país, quer entregar a Petrobras, é essa gente que nós estamos enfrentando. Nós vamos dar um recado para eles. Nós não desistiremos. Não vamos desistir da causa e vamos politizar o processo ao máximo, a semana que vem tem mais”, afirmou Rillo.

O parlamentar, novamente, reforçou que sabia que os ativistas tinham uma causa e disse confiar neles. “Até porque eu sei que o lado de cá tem uma causa, o lado de cá não recebeu nada para vir aqui, eles virão hoje, virão depois, eu sei disso. Isso eu sei. Dos outros eu não sei. Esse lado de cá eu confio”, comentou.

Rillo explicou ainda que não é vegano mas que isso não o impede de aprender com os ativistas sobre direitos animais. “Eu não gosto de hipocrisia, não sou daqueles que falo que sou vegano e depois como canja e pudim de leite, não. Não sou vegano. Agora o que não significa é que eu não possa, e estou, humildemente aprendendo mais sobre a causa de vocês e tenho a humildade para reconhecer que é necessário discutir, sim, uma mudança de cultura, mesmo que demore décadas, que demore séculos, mas tudo que mudou o mundo, um dia pareceu impossível também. E a nossa causa ela não é impossível, ela está muito próxima de ser resolvida, porque tem engajamento, tem fundamento, ela dialoga com o bem-estar social das pessoas, porque quando você defende um animal, defende a causa animal, você está defendendo o desenvolvimento sustentável, você está defendendo o meio ambiente, você está defendendo as pessoas, é isso que eu entendo”, disse.

Ao final do discurso, o deputado afirmou que sabe que a “a intolerância se inconforma com a razão, porque quando falta argumento, sobra grosseria” e defendeu a vitória dos direitos animais. “Nós não perderemos a razão, a consciência, o temperamento, porque nós temos argumentos e enfrentaremos no debate das ideias, sem perder a razão, sem perder o controle, tenho certeza que nós vamos triunfar. Pode não ser hoje, mas nos vamos triunfar. Porque a hipocrisia vai cair. A hipocrisia está caindo”, concluiu.

Confira o discurso no vídeo abaixo: