CATIVEIRO

Mais tigres vivem em quintais de americanos do que na natureza

Em alguns estados é mais fácil comprar um tigre do que adotar um cão resgatado.

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Em alguns estados é mais fácil comprar um tigre do que adotar um cão resgatado | Foto: Alamy
Tigres são criados em quintais como animais domésticos | Foto: Alamy

Willian Blake em seu poema O Tigre, de 1794, descreve a beleza desafiadora de um felino desses correndo livre pela natureza a noite, enquanto questiona qual seria a mão que ousaria tocar seu fogo. Aparentemente a resposta chegou quase 50 anos depois.

Estimativas denunciam que a população de tigres nos quintais de casas nos Estados Unidos supera aqueles que vivem na natureza. Sete mil desses felinos vivem em cativeiro, enquanto há apenas 3.889 tigres selvagens no mundo todo.

A maioria dos animais criados em cativeiro é mantida em condições péssimas, sendo que 6% deles estão alojados em jardins zoológicos. O resto vive em instalações privadas criadas apenas para reprodução, em quintais residenciais, até mesmo apartamentos urbanos. Em alguns estados, é mais fácil comprar um tigre do que adotar um cão resgatado.

Leigh Henry, especialista em políticas voltadas para conservação das espécies, diz que a situação ameaça o trabalho que tem sido feito para conservar populações selvagens na Ásia. “Uma colcha de retalhos de regulamentos paira sobre esses tigres, o que significa que nenhuma agência pode dizer quantos há, quando nascem, quando morrem e o que acontece com suas partes valiosas para o mercado negro, quando isso acontece. O comércio de pertences de tigres continua sendo a principal ameaça a esses animais na natureza, e a última coisa que queremos são pertences de tigres que vivem em cativeiro ajudando a sustentar ou até mesmo a abastecer esse mercado negro”.

Este hábito cruel é péssimo para os animais. Em 2011, um tutor de animais domésticos exóticos em Zanesville, Ohio (EUA), soltou seu zoológico particular na comunidade, 18 tigres e diversos outros animais foram baleados para proteger as pessoas.

A ideia absurda de criar e manter “megafaunas carismáticas” particulares como símbolos de status está perigosamente próxima a mentalidade de matar animais selvagens por “esporte”. A distinção entre o selvagem e o domesticado foi borrada, limites se perderam no processo.

A maioria do público vê animais selvagens apenas em documentários na TV, isso cria a falsa ideia de que eles são mercadorias ou experiências.

Um tigre em um quintal está longe da criatura misteriosa e majestosa descrita por William Blake. Mas até mesmo Blake escreveu sobre a “beleza do tigre livre nas florestas à noite” em uma época em que a Exeter Exchange, em Londres (Inglaterra), exibia tigres, leões e elefantes em uma “loja de departamentos” no primeiro andar.

O lugar dos animais selvagens é no habitat e o bom senso dispensaria quaisquer leis ou necessidades de criminalizar algo que já é uma realidade da natureza.