Fundo global investe contra extinções da fauna e flora no Brasil


A disputa era com girafas, leões e elefantes. Mas o pica-pau-amarelo, o cachorro-vinagre e a anta saíram-se vencedores e trouxeram para o Brasil os recursos do mais tradicional fundo verde internacional. Lançado hoje, o projeto Pró Espécies recebeu US$ 13,4 milhões (cerca de R$ 50 milhões) para combater a extinção da fauna e flora nacionais, uma rara boa notícia para o meio ambiente no país, que tem amargado perdas em unidades de conservação e investidas no Congresso contra o rigor no licenciamento ambiental e a segurança no controle de agrotóxicos.

‘Ambientalismo de raiz’: A jaguatirica está entre as 2.775 espécies ameaçadas beneficiadas pelo fundo criado por iniciativa do Banco Mundial (Foto: Marcelo Sayão)

O projeto é financiado pelo Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, na sigla em inglês) e resgata um ambientalismo “de raiz”. Já faz tempo que o GEF, criado por iniciativa do Banco Mundial, não patrocinava projetos com plantas e animais ameaçados no Brasil. A maior parte das iniciativas recentes tinha enfoque eminentemente social. A volta ao ambientalismo-raiz traz, na verdade, pragmatismo e modernidade. Ao proteger uma espécie, considera-se todo o ecossistema e os que dele dependem, o que inclui os seres humanos.

‘Visão integrada’

Não são apenas as andorinhas que sozinhas não fazem verão.

“Uma espécie não vive sem a paisagem. E esta não existe sem a espécie. É uma visão integrada, que usa espécies como símbolos”, explica Rosa Lemos de Sá, CEO do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), a agência implementadora dos recursos do GEF.

Ainda assim, não foi nada fácil convencer o GEF, que preferia colocar dinheiro na África para proteger a mais do que famosa fauna de leões, elefantes e companhia. Espécies totalmente brasileiras como o pica-pau-amarelo ganharam espaço porque estão na essência da biodiversidade, de que todo mundo já ouviu falar, mas que pouca gente conhece e o país desperdiça.

Filhote de anta: animal é um dos beneficiados (Foto: Roberto Moreyra)

“Ao protegê-las, conserva-se o território e tudo o que ele inclui, como a água, o clima e os insetos polinizadores da agricultura, por exemplo”, afirma Marília Marques Guimarães Marini, coordenadora geral de Conservação de Espécies do Ministério do Meio Ambiente, elaborador do projeto, que será executado pelo WWF-Brasil.

Das 141 culturas agrícolas do Brasil, 85 dependem da polinização por animais (em sua maioria, insetos). A nossa flora, da qual só uma pequena parte foi investigada em detalhe, presta serviços à indústria de medicamentos e cosméticos. Pelo menos 245 espécies estão na base de produtos, número com potencial de se multiplicar muitas vezes.

Pica-pau, cachorro e anta estão entre as 2.775 espécies ameaçadas beneficiadas, uma lista que inclui macacos, como os muriquis, e felinos como onças, jaguatiricas e a fofura máxima das selvas, o maracajá, que se parece uma onça pintada do tamanho de um gatinho. Há ainda tamanduás, tatus e veados, dentre outros. Todos eles têm a companhia de árvores e flores que fazem bonito, como o jequitibá-rosa e o jacarandá-da-Bahia.

Mas eles nem sequer são a meta principal do Pró Espécies. Este mergulha nas profundezas da biodiversidade e tem como alvo 290 espécies criticamente ameaçadas de extinção e não protegidas por qualquer medida de conservação. Elas vivem em 12 áreas da Amazônia, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Pampa, que somadas chegam a nove milhões de hectares, em 13 estados.

Cachorro-do-mato-vinagre (Speothos venaticus) é um dos canídeos brasileiros ameaçados de extinção (Foto: Marizilda Cruppe)

Dominada por plantas, peixes de água doce e invertebrados, a lista revela um Brasil ignorado, prestes a mostrar seu valor. É povoado, por exemplo, por peixes-das-nuvens que vivem em poças d’água. Caso do Austrolebias univentripinnis, menor que o próprio nome, descoberto em 2005 nas imediações da Lagoa Mirim, no Rio Grande do Sul. Entre as plantas, há sobreviventes como a Peixotoa bahiana, que só existe na fronteira da Bahia, junto à fronteira com Goiás e Tocantins, bem na linha de frente da expansão da soja no Cerrado. O último exemplar registrado do arbusto de flores amarelas estava na borda de uma rodovia, a BR-020.

Os invertebrados selecionados podem ter papel ecológico, mas nasceram sem qualquer atributo que remeta a charme e beleza. Um deles é o onicóforo Epiperipatus adenocryptus, nome que não ajuda ninguém. A grosso modo, uma criatura de poucos centímetros e semelhante a uma mistura de verme com lagarta chifruda, sem nome popular além de embuá-de-chifre. Pois o Sol, por vezes, brilha mesmo para todos, e hoje o animalzinho que espreita insetos em florestas de Minas Gerais faz sua entrada triunfal no mundo da conservação, na seleta lista dos 290 ilustres desconhecidos do Pró Espécies.

Numa reserva particular em Ibitipoca vivem dois exemplares de macaco muriqui, o maior primata das Américas, que sofreram perseguição nos últimos anos devido à falsa associação com os recentes surtos de febre amarela no país (Foto: Guito Moreto)

O projeto vai investir, por exemplo, em educação ambiental, treinamento e incentivo de proprietários de áreas consideradas estratégicas. Também vai colaborar com governos estaduais e financiará a instalação de sistemas de inteligência para o combate à caça e ao tráfico de animais silvestres, além da extração ilegal de plantas. Outra frente, destaca Fabio Leite, coordenador da agência GEF do Funbio, é o controle de espécies invasoras.

A voz do pica-pau-amarelo

Ameaçado por desmatamento, caça, tráfico e competição com invasores, tenta sobreviver o pica-pau-amarelo (Celeus flavus), uma das vozes mais características das primeiras florestas que os portugueses da expedição de Pedro Álvares Cabral encontraram ao chegar ao Brasil, na Bahia. É um genuíno representante da Mata Atlântica de luxo e glória original. Hoje, ele praticamente desapareceu, assim como a floresta, frisa Luis Fabio Silveira, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, estudioso da espécie. Está praticamente restrito a ilhotas de mata concentradas no Espírito Santo. “Uma área essencial para milhares de espécies”, diz Bianca Chaim Mattos, analista ambiental do MMA. Dentre essas espécies estão algumas das quais o pica-pau come os frutos, como a goiaba-azeda, o jambolão-do-mato e o guamirim — todas em risco.

Pica-pau-amarelo: ave povoava florestas da Bahia que receberam os portugueses no descobrimento e agora está quase desaparecido, junto com a Mata Atlântica que habita (Foto: Marcos Tristão)

No WikiAves, que reúne os observadores de aves no Brasil, a gravação disponível da voz do pica-pau-amarelo foi feita em 2012, no município de Belmonte, na Bahia. Não muito longe de onde Cabral desembarcou e cujo nome homenageia a cidade natal do navegador português. A ave de plumagem exuberante já não é mais ouvida por lá. O Pró Espécies promete tentar que não se cale de vez.

Faveiro-de-wilson é símbolo de extinção das plantas nacionais

Raro entre os raros, símbolo dos símbolos de extinção das plantas brasileiras, o faveiro-de-wilson (Dimorphandra wilsonii), nativo de Minas Gerais, espera uma chance para crescer na área que lhe coube no Jardim Botânico do Rio, um dos três lugares do Brasil onde é cultivada. Os outros são os jardins botânicos de Belo Horizonte e de Paulínia (São Paulo). Restam pouco mais de 200 exemplares na natureza, espalhados pelo Cerrado e pela Mata Atlântica de Minas Gerais. Por isso, o faveiro está entre as espécies que o novo programa de financiamento pretende beneficiar.

Plantada perto da entrada principal do parque, a árvore ainda está na infância. Não chega nem a dois metros de altura, e seus galhos não passam de gravetos — adulta, alcançará mais de 15 metros. Ainda assim, é uma das esperanças para salvar a espécie, considerada criticamente em perigo de extinção.

A árvore está ameaçada a ponto de merecer a criação do Plano de Ação Nacional para a Conservação do Faveiro-de-wilson, de uma lei estadual em Minas Gerais e de duas leis municipais — em Paraopeba e Caetanópolis — específicas para sua proteção. Ela não está na lista das 290 justamente porque tem um plano nacional.

O crescimento urbano e a destruição de matas pela agropecuária levaram o faveiro-de-wilson, espécie naturalmente rara, ao limite. A árvore leva o nome de seu descobridor, Wilson Nascimento, que trabalhava como mateiro em Paraopeba, quando a descobriu na década de 1960.

Nota da Redação: entre as ações do projeto Pró Espécies, está o controle de espécies consideradas invasoras. Por não ter sido especificada a forma como será realizado esse controle, a ANDA acredita ser importante reforçar que essa ação não pode, em hipótese alguma, seguir a proposta do deputado federal Valdir Colatto (PSDB) – que permite a caça de animais considerados invasores e que ameacem a agropecuária -, já que retirar a vida de animais sencientes não deve ser vista como uma atitude correta a se tomar. Espécies consideradas invasoras são aquelas introduzidas em um ambiente que não pertence a elas ou com superpopulação devido a um desequilíbrio causado por humanos. O controle populacional não pode, portanto, atentar contra a vida de animais que estão em ambiente inadequado devido à ação humana. Ele deve ser feito através de posturas éticas de respeito ao meio ambiente, que incentivem o fim da caça, do tráfico, do desmatamento e de qualquer outra postura que faça com que a humanidade interfira no meio ambiente.

Fonte: O Globo


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