PROATIVIDADE

Cidadãos de Porto Rico criam soluções para enfrentar os riscos da mudança climática

Quer queiram quer não os céticos do clima,a última década foi marcada pelo reconhecimento da relação proporcional entre as emissões cumulativas de carbono e a mudança global de temperatura.

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15/04/2018 às 19:00
Por Amelia Gonzalez

Divulgação

Quer queiram quer não os céticos do clima,a última década foi marcada pelo reconhecimento da relação proporcional entre as emissões cumulativas de carbono e a mudança global de temperatura. E esta foi uma das percepções mais importantes da ciência do clima neste período. Exatamente por isso os líderes mundiais têm se reunido anualmente para debates que envolvem uma complexidade grande sobre o caminho a seguir para tentar deter o aquecimento do planeta que tem causado tantos problemas aos humanos e que, se não se começar a fazer algo para mudar isso, muitos transtornos mais vão trazer.

Segundo um estudo publicado na revista “Science Advances” em fevereiro deste ano, moradores de até 60% da América do Norte, Europa, Ásia Oriental e partes do sul da América do Sul provavelmente vão sofrer com um número três vezes maior de eventos extremos (secas, furacões, enchentes). Os pesquisadores concluíram que as promessas feitas pelos países que assinaram e ratificaram o Acordo de Paris na COP-21 (2015) não são suficientes para manter as temperaturas globais dentro do limite de 2ºC previsto pelo tratado.

Se não houver alguma mudança – e rápida – nos hábitos de produção e de consumo, apenas com as promessas feitas pelos líderes o planeta vai aquecer 3ºC até o fim do século.

“Registros de calor provavelmente estarão entre os mais sensíveis às futuras mudanças climáticas. As temperaturas noturnas recorde já aumentaram em 90% nas áreas estudadas, e esses registros podem aumentar em pelo menos cinco vezes em metade da Europa e um quarto do leste da Ásia. Eventos úmidos extremos e períodos mais frios também deverão aumentar em todo o mundo, e eventos extremos secos verão um aumento em certas regiões, principalmente nas latitudes médias”, informa reportagem sobre a pesquisa publicada na “Scientific American” .

“O Acordo de Paris das Nações Unidas cria uma necessidade de comparar as consequências das emissões cumulativas para compromissos nacionais prometidos e as metas ambiciosas de 1,5 a 2°C para o aquecimento global. Descobrimos que os seres humanos já aumentaram a probabilidade de eventos extremos quentes, úmidos e secos, historicamente sem precedentes, incluindo mais de 50 a 90% da América do Norte, Europa e Ásia Oriental”.

Sendo assim, já que não se pode evitar os desastres e já que fomos capazes de conseguir criar uma atmosfera no mundo que vai, aos poucos, inviabilizar a vida humana na Terra, é preciso acordar agora, dizem os cientistas. E mudar muita coisa nesse mundo. São mudanças que exigem atitudes mais pé no chão, dispensando as retóricas inúteis. Já não há mais tempo para discursos que não resultam em ações, mas parece que pouca gente percebeu a urgência do momento que se vive.

Nesse sentido, uma extensa e muito bem apurada reportagem feita por Naomi Klein, jornalista e ativista canadense, em Porto Rico para o site “The Intercept” tem um valor semelhante a qualquer estudo científico e pode ajudar a repensar o modelo de desenvolvimento insustentável. Como sabemos, no ano passado Porto Rico foi varrido pela tempestade Maria com ventos de mais de 250 km/h, ameaçando a vida dos 3,4 milhões de habitantes, poucos dias depois de outro furacão, o Irma, ter passado por lá causando também sérios transtornos.

Maria rompeu quase todo o sistema de eletricidade de Porto Rico, segundo a reportagem, e ainda está muito difícil viver por lá. Ocorre que a ilha obtém 98% de sua eletricidade dos combustíveis fósseis importados, já que não tem oferta interna. O petróleo é transportado para as usinas por caminhões e oleodutos e a eletricidade gerada aí é transmitida por enormes distâncias através de fios acima do solo e um cabo submarino que conecta a ilha de Vieques à ilha principal. É tudo muito caro, o que resulta em preços de eletricidade que são quase o dobro do que nos Estados Unidos.

“O Porto de San Juan, que recebe grande parte do combustível importado, entrou em crise, com cerca de dez mil contêineres cheios de suprimentos empilhados nas docas, esperando para serem entregues. Muitos motoristas de caminhão não conseguiram chegar ao porto, seja por causa de estradas obstruídas, ou porque estavam lutando para tirar suas próprias famílias do perigo. Com o diesel em falta na ilha, muita gente não conseguia encontrar o combustível para dirigir. As filas nos postos de gasolina se estendiam. E a montanha de suprimentos presa no porto ficou ainda maior. Enquanto isso, o cabo que ligava Vieques estava tão danificado que, ainda hoje, precisa de reparos. Literalmente nada no sistema funcionou”, descreveu Klein na reportagem.

Esse amplo colapso fez com que os ambientalistas porto-riquenhos passassem a defender energicamente uma mudança rápida para a energia renovável.

“Num futuro que certamente incluirá mais choques climáticos, obter energia de fontes que não exigem redes de transporte espalhadas é apenas senso comum. E Porto Rico, embora pobre em combustíveis fósseis, está encharcada de sol, açoitada pelo vento e cercada por ondas”, diz Klein.

Mas é preciso pensar num negócio pequeno, como sugeria o economista alemão E. F. Schumacher, que escreveu “O negócio é ser pequeno” nos anos 70. Porque em algumas fazendas eólicas porto-riquenhas, a força dos ventos destruiu as enormes pás da turbina, assim como alguns painéis solares mal protegidos acabaram levantando voo.

“Em vez de depender de algumas grandes fazendas solares e eólicas, com energia transportada por longas e vulneráveis linhas de transmissão, sistemas menores baseados na comunidade gerariam energia onde ela fosse consumida. Se a grade maior sofrer danos, essas comunidades podem simplesmente se desconectar dela e continuar a tirar suas micro-redes”, ensina a jornalista.

Naomi Klein concluiu, depois de ter conversado bastante com porto-riquenhos de diversas partes do país, que a força dos ventos de Maria e Irma os fez pensar em soluções alternativas para viver num espaço tão dramaticamente impactado pelas mudanças do clima.

“Em Adjuntas, era energia solar. Em outros lugares, eram pequenas fazendas orgânicas que usavam métodos agrícolas tradicionais que eram mais capazes de resistir às enchentes e ao vento. E em todos os casos, os relacionamentos profundos com a comunidade, bem como os fortes laços com a diáspora porto-riquenha, resultaram em ajuda humanitária quando o governo fracassou e fracassou novamente”.

A reportagem prossegue e aponta os problemas econômicos da ilha, as dificuldades que o país tem para se livrar da fantasia de que podem ser ajudados por um governo que não tem projetos para o bem comum. A Casa Pueblo, visitada por ela, uma organização que se dedica a estudar e pôr em ação alternativas saudáveis, é um exemplo de como o povo tem se mostrado ativo, depois do furacão passar, no sentido de buscar soluções por si mesmo.

“Com quase nenhum recurso, as comunidades montaram enormes cozinhas comunitárias, levantaram grandes somas de dinheiro, coordenaram e distribuíram suprimentos, limparam as ruas e reconstruíram escolas. Em algumas comunidades, eles até conseguiram reconectar a eletricidade com a ajuda de trabalhadores aposentados”, descreve ela.

Não deveria ser assim. Cidadãos que pagam impostos devem exigir direitos. Mas, quando a vontade dos políticos é nenhuma, não tem outro jeito senão botar a mão na massa para trazer à tona assuntos verdadeiramente urgentes sobre a vivência no planeta.

Fonte: G1