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Entrevista com Juliana Gomes, do blog Comida Saudável pra Todos

Fazendo jus à minha fome sem fim, a maioria dos perfis que sigo nas redes sociais tem comida vegana envolvida.

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02/03/2018 às 11:00
Por Samira Menezes

Divulgação

Fazendo jus à minha fome sem fim, a maioria dos perfis que sigo nas redes sociais tem comida vegana envolvida. Tem perfil de restaurante, de chefs, de cozinheiros dominicais e, claro, de muito blogueiro espalhado pelo mundo que promove as maravilhas possíveis da cozinha vegana. Entre esse mundaréu de hashtag e de fotos apetitosas, até hoje só vi uma única blogueira dar atenção a um detalhe importante da alimentação vegana: o preço total de um prato.

Autora do blog Comida Saudável pra Todos, a catarinense Juliana Gomes, 30 anos, mostra com posts bem divertidos e sensatos que comida saudável vegana não é necessariamente cara. Dá pra fazer muita coisa gostosa e nutritiva sem ter que deixar o salário todo no mercado.

“No blog só entram receitas que custam até R$ 10. E eu como basicamente as coisas que estão no blog. Quando como fora, ao menos uma vez por semana, aí gasto até uns R$ 25. Mais que isso já acho caríssimo”, me disse Juliana pelo Whatsapp, já que ela mora em Florianópolis e eu estou em Milão (viva a tecnologia!).

O preço da comida, porém, é só uma das preocupações da moça, que divide seu tempo entre o blog, a vida de repórter de gastronomia, o marido e dois gatos. Nessa entrevista, ela me disse coisas muito interessantes pra gente pensar a respeito. Vai lendo…

Samira: É caro ser vegano?

Juliana: Pensei por anos que era caríssimo. Via as musas veganas do Instagram comerem risoto de arroz negro com creme de castanha e achava que esse era o veganismo. Não é só isso. Não precisa de óleo de coco, ricota de macadâmia, levedura nutricional. Comida vegana saudável é baseada em cereais, sementes, grãos, legumes, verduras e frutas. Exatamente como já é a tradicional comida brasileira.

Dá pra fazer um creme de batata para rechear tortas apenas com o tubérculo, água e temperos, por exemplo. O feijão fradinho pode virar patê, salada, bolinho, hambúrguer, acarajé… E custa R$ 6/kg.

No blog, eu já fiz um menu completo, com entrada, prato principal e sobremesa com R$ 10. Mas é claro que essa alimentação precisa ser o mais natural possível, com ingredientes locais. Se for depender dos industrializados veganos, vai sair muito caro.

S: E comer saudável no Brasil, é caro?

J: Não. O problema é que um pacote de miojo custa menos que um prato de feijão. Então muita gente simples, nas periferias e no interior do Brasil, está substituindo a base da nossa alimentação pelos industrializados. Isso é muito grave. E é uma luta que todos nós, vegetarianos, veganos e onívoros precisamos abraçar juntos.

A gente precisa defender a agricultura familiar, pois são esses pequenos produtores que cultivam alimentos saudáveis pro nosso corpo, pros trabalhadores, para o meu ambiente. Mas eles não ganham nenhum tipo de incentivo dos governos, muito pelo contrário, enquanto os grandes latifúndios elegem representantes no Congresso.

A nossa base alimentar, feijão, arroz, farinha de mandioca, frutas e verduras, é muito barata, mas poderia ser ainda mais. E poderia estar ao alcance de todos. É revoltante ver a quantidade de bairros e localidades que não têm nenhuma feira ou hortifrúti por perto. Mas os revendedores da Nestlé com saquinhos de leite em pó, misturado com um monte de coisa pra ficar mais barato, chega nesses lugares.

S: Comida saudável e comida vegana são sinônimos?

J: Não. Conheço muita gente que larga a carne, passa a se entupir de batata frita, fica doente e acaba voltando à vida de picanha. Veganismo não significa comida saudável. Mas o contrário sim. Depois de muita pesquisa, cheguei à conclusão de que uma alimentação precisa seguir 4 quesitos para ser considerada saudável.

O primeiro critério é ser o mais natural possível, sem excessos de óleos, gorduras e açúcar. O segundo, é que essa comida precisa ser saudável também pro meu ambiente. Não faz sentido se gerar muito lixo, precisar de muita água pra ser preparada, causar um grande desequilíbrio na natureza. Esse é o principal ponto que faz os ingredientes de origem animal serem excluídos. Comida sustentável, em grande escala, só é possível se for vegana. 

Outra questão é a saúde dos trabalhadores. Os abatedouros de frangos e porcos são denunciados, há anos, por submeter seus profissionais a condições de trabalho análogas à escravidão. Essas empresas estão cheias de haitianos, que foram trazidos do Acre para trabalhar na indústria da carne, justamente porque os brasileiros não aguentam mais.

E, por último, a comida precisa ser saudável pro nosso bolso. Não pode ser exclusividade de um pequeno grupo de pessoas. Ela tem que ser acessível, fácil de encontrar, barata. Ou não faz sentido. E a comida vegana é tudo isso.

S: Quais são as dicas fundamentais pra se alimentar bem sem gastar muito?

J: É preciso planejar as compras. Esse é o principal. Eleja uma feira para chamar de sua, uma loja de produtos naturais (tem várias na internet, inclusive) e compre óleos e azeite nos supermercados atacadistas.

Uma prateleira com temperos é fundamental pra comida não ter gosto de hospital. Açafrão, orégano, pimentas, cominho em pó, louro, páprica, são super baratos e combinam com quase todos os vegetais. Quem tiver uma janela que bate sol ou um jardim em casa, pode plantar vasos com ervas, como cebolinha, salsinha, manjericão, hortelã. Já é um gasto a menos e muito mais sabor na comida.

Aí é só adaptar os ingredientes preferidos de cada um e a forma de preparo que mais combina com o seu dia a dia. Na dúvida, vá no básico. Refogados com alho e cebola, arroz com legumes, feijões e lentilhas cozidos com louro, pães integrais caseiros, panqueca de aveia. De lanche, o amendoim torrado, sem conservantes, é uma ótima opção barata e saudável que pode ser levada na bolsa e suporta bem qualquer temperatura. No blog tem várias dicas mais específicas.

S: Conta alguma coisa (qualquer coisa) importante que você descobriu a respeito da alimentação saudável depois de ter começado o blog.

J: Nossa! Muita coisa. O que mais tenho descoberto é que a importância de se ter uma relação saudável com o ato de comer e que precisamos sair da mesa sem culpa.

Por muitos anos eu mesma só pensava em nutrientes. Sempre fui a louca das dietas e vivia demonizando os carboidratos, preocupada demais com a proteína, percentual de zinco. Não conseguia olhar para um prato e enxergar apenas comida.

Desde que comecei o blog, tenho pesquisado mais sobre o que está por trás de cada ingrediente, a lógica de cada receita tradicional. A mandioca, por exemplo, é muito mais do que uma ótima fonte de carboidrato e energia. Ela é o nosso ingrediente mais democrático, mais versátil. Ela é consumida o ano todo do Norte ao Sul do Brasil. Aqui em Floripa as pessoas misturavam café passado com farinha de mandioca e comiam isso de manhã quando não tinham dinheiro pra comprar pão. É importante voltarmos a enxergar a comida como cultura, como parte da nossa história.

S: Na sua opinião, por que as pessoas não comem de maneira saudável?

J: Comer bem e cozinhar são sinônimos. É impossível ser saudável se alimentando em buffets a quilo, delivery e com pacotes de coisas. Mas o nosso estilo de vida caótico tirou as pessoas da cozinha. E os industrializados, de alguma forma, libertaram muitas mulheres que eram escravas do fogão.

Imagine uma senhora que trabalhou 8h, depois passou 4h do dia dela no transporte público. Como vou dizer pra ela chegar em casa e preparar uma torta de legumes, coisa que demora uns 40 minutos, se ela pode jogar um miojo na água e comer em menos de 5 minutos? Muita coisa precisa mudar no nosso estilo de vida. Os homens precisam dividir as tarefas domésticas, repartir a responsabilidade das compras, do preparo das receitas e da limpeza da casa.

Outro ponto que justifica o quanto comemos mal é a falta de informação sobre a indústria da carne, laticínios e os industrializados no geral. Quanta gente compra um pacote de biscoito sem glúten achando que é a coisa mais saudável do mundo? O poder da indústria é muito grande. As grandes marcas de laticínios patrocinam congressos de Nutrição e Pediatria. Isso faz com que haja pouca informação científica sobre os malefícios do leite de vaca.

E tem as questões culturais, né? No interior, principalmente, o consumo de carne vermelha é associado à virilidade, força. Homem que viver a base de berinjela vai ser muito zoado. É difícil. E, é claro, também tem muita gente que precisa deixar a preguiça de lado e sair da sua zona de conforto. Mas eu sou super otimista e acho que estamos avançando muito.

S: Quando exatamente o blog teve início?

J: Quando minha renda era maior e eu trabalhava com carteira assinada, até torrava uma parte do meu dinheiro com óleo de coco e castanhas. Mas fiquei desempregada em 2016 e hoje trabalho como autônoma, freelance. Com isso, precisei cortar radicalmente meus gastos. Saíram as amêndoas e ficaram só o amendoim e a semente de girassol na minha lista de compras.

E, de qualquer forma, a questão social sempre foi muito importante pra mim. Eu questiono muito os meus privilégios como mulher branca de classe média. Soube de um evento que estavam organizando em Floripa para o Dia Internacional da Mulher em março de 2017. A ideia era oferecer serviços para mulheres de uma favela da cidade, como massagens, aula de dança, corte de cabelo. Eu queria oferecer alguma coisa, mas não sei fazer muita coisa. Resolvi me inscrever oferecendo uma oficina de comida vegetariana saudável só com receitas que custassem até R$ 5. E foi um enorme sucesso. Todo mundo cozinhou comigo, as senhoras ficaram empolgadíssimas ao provar tofu pela primeira vez, hambúrguer de berinjela, brigadeiro de aveia, guacamole. E elas pediram muito para que eu criasse um blog com mais receitas desse tipo, porque nunca tinha ouvido falar em algo parecido.

Mas eu sou completamente amadora. Preciso testar, ler bastante, tirar dúvidas com a minha mãe. Cozinhar não é algo super natural pra mim tô indo bem aos poucos.

S: Como é ser repórter de gastronomia sendo vegetariana quase vegana?

J: É estranho pras pessoas e pra mim. Escrevo sobre cortes de carnes nobres, peixes da estação, doces franceses cheios de manteiga. Faço muita matéria pelo telefone, mas algumas exigem que vá até um restaurante, bar ou confeitaria E, em geral, os entrevistados oferecem suas iguarias para eu provar.

No começo, eu já avisava logo de cara que era vegetariana, mas ouvi demais que não podia seguir nesse trabalho tendo essa restrição. Então eu alterno. Às vezes digo que é uma questão religiosa ou alergia (risos). E esses dois quesitos ninguém questiona. O problema é que quero largar os laticínios, mas é o que sobra pra comer nessas entrevistas.

Quando recuso a picanha ou o camarão, os chefs trazem pratos elaboradíssimos a base de queijo e creme de leite e eu acabo comendo por educação. A parte boa é que aprendo muito e vou tentando adaptar na minha cozinha. O que eles contam que fazem com carne seca, eu tento replicar em casa com abobrinha (risos).

S: E quais são os projetos para o futuro?

J: Quero tornar o Comida Saudável pra Todos um projeto, mas vou fazer cada coisa de uma vez, sem afobamento. Quero começar a dar workshops ainda em 2018 sobre como cozinhar sem receitas, da forma mais simples, barata, prática e saudável possível. A ideia é incentivar as pessoas a criar pratos próprios, que façam sentido no seu dia a dia. Pensar em como organizar a compra de itens básicos, entender a função de cada ingrediente numa receita.

Também penso em fazer parcerias com instituições, escolas e associações de moradores e desafiar chefs locais a prepararam pratos acessíveis, com o uso integral dos alimentos. Escrever um livro também está nos meus planos. Mas ainda não tem nada certo. A repercussão do blog está mais rápida do que eu imaginava. Teve um dia que contei 213 mensagens no Instagram pra responder. Fiquei super assustada. Então a ideia é ir com bastante calma pra fazer bem feito.