“A mídia, os políticos e grandes empresários fazem da exploração animal algo aceitável e impedem o incentivo da filosofia ética”


Adriana Pierin
Arquivo Pessoal

Fundada em 2010 pela designer Adriana Pierin, a ONG busca conscientizar o público sobre uma série de questões como o comércio de animais, maus-tratos, abandono, confinamento e exploração.

Uma de suas campanhas é a “Esperando Adoção”, cujo intuito é sensibilizar as pessoas para que ofereçam um novo lar para um animal ao invés de financiarem a crueldade do comércio. Como diz a iniciativa, “Amigo não se compra, se adota”. Nesta entrevista exclusiva, Adriana Pierin comenta o trabalho da Move Institute e seu engajamento para tentar mobilizar as pessoas a construir um mundo de paz para todas as espécies.

 

ANDA: Como foi seu processo de conscientização sobre a exploração animal?

Adriana Pierin – Eu me tornei ativista no instante em que me deparei com imagens de focas sendo mortas para a extração das peles. Foi uma imagem que determinou que eu seria uma ativista e não mais poderia ficar calada. Faço parte de uma geração pré-computadores e celulares, na qual acesso à informação não era tão imediato e democrático. O veganismo surgiu na minha vida há muitos anos, já não lembro quantos, como uma resposta a minha inconformidade com relação ao sofrimento animal.

ANDA: Quando e como surgiu a Move Institute e qual é seu objetivo?

Adriana Pierin – Surgiu em 2010, antes disso trabalhei de forma voluntária em alguns grupos e ONGs sem conseguir me encontrar verdadeiramente dentro delas. Minha vontade era encontrar uma nova forma de abordar o tema que tivesse ligação com minhas habilidades. Na época, o movimento vegano era bastante estigmatizado e ligado ao estilo de vida “bicho grilo” e isso me incomodava muito. Ao iniciar a Move, a intenção foi comunicar os problemas da causa a um novo público de uma maneira polêmica, com apelo estético e criativo.

Campanha de adoção com o artista Guto Lacaz no Conjunto Nacional em São Paulo (SP)/ Foto: Move Institute

ANDA: Por você decidiu promover os direitos animais por meio da arte e da moda? Como elas podem ser instrumentos de transformação social?

Adriana Pierin – Trabalhei durante toda a vida como designer a serviço de artistas plásticos, produzindo publicações independentes, fotografando e sempre me senti muito à vontade transitando nestes meios. O design, a gastronomia, a música e a moda são poderosas formas de expressão e importantes ferramentas de mobilização, engajamento e reflexão capazes de atingir um público extremamente amplo e variado – que outras linguagens não seriam capazes de atingir. Fazemos uso dessas ferramentas como forma de criar tendências e inovações, mudar comportamentos e padrões de consumo. A contemporaneidade é marcada fundamentalmente pelas relações entre indivíduo, sociedade, signos e mercadorias. É inegável que a moda participa do cotidiano de todos os indivíduos de forma contundente ela está na nossa alimentação, cultura, saúde, entre outros. Transformar a causa animal de forma que ela possa atingir pessoas que geram tendências e consumo nos pareceu uma excelente estratégia para popularizar temas pouco abordados e torná-los “consumíveis”.

ANDA: Como avalia a atuação do Move Institute desde o seu surgimento? Qual tem sido a reação do público?

Adriana Pierin – Despretensiosa, intuitiva e determinada. O Move não tem intenção de ser a maior ou a melhor ONG, mas de desenvolver campanhas e projetos criativos, autorais e legítimos. Atingimos um público jovem, que em geral se torna porta-voz de nossas campanhas, na última delas chamada “Amigo não se compra, se adota!” conseguimos somar mais de três milhões de pessoas impactadas o que é uma grande vitória para uma organização tão pequena.

ANDA: Poderia comentar algumas campanhas/projetos em que estão trabalhando hoje?

Adriana Pierin – Temos alguns projetos que estão em fase de captação de recursos, outros sendo redigidos, estes seguem em sigilo, mas citaria de imediato o que deve ser colocado em prática mais rapidamente que é de gastronomia vegana. Em 2015, com patrocínio do Banco Itaú, lançamos um projeto de criação do primeiro espaço público vegano, com mobiliário assinado por um grupo de arquitetos. Nossa ideia era legitimar um espaço da cidade como vegano. A princípio, acreditamos que a Praça dos Arcos, localizada na Avenida Paulista seria o lugar ideal. Porém, após o mês teste de evento e alguns problemas ligados à segurança, decidimos repensar o espaço escolhido e saímos em busca novamente do lugar ideal para receber esse projeto. Atualmente estamos em um processo avançado de liberação de outro espaço em parceria com a Associação Paulista Viva. Pretendemos ainda esse ano realizar a segunda edição do evento e fazer com que o veganismo ocupe um lugar dentro do roteiro turístico da cidade. Também podemos mencionar o projeto “Salve Uma Vida, Adote” que em parceria com o Recanto Bicho Feliz e  digital influencers tem encontrado adotantes para cães e gatos.

Campanha de adoção que atingiu 3 milhões de pessoas
Campanha de adoção que atingiu 3 milhões de pessoas

ANDA: Qual foi a campanha mais desafiadora e por quê?

Adriana Pierin – Acreditamos que o veganismo seja o tema mais desafiador dos que trabalhamos, mas é também o mais efetivo já que ele abarca todos os outros. É desafiador, pois existe uma mídia, políticos, grandes empresários que impedem que a informação seja espalhada com mais rapidez, que confundem a população, que fazem da exploração animal algo aceitável e impedem o incentivo do mercado e da filosofia ética.

ANDA: De que maneira você analisa o movimento vegano no Brasil atualmente?

Adriana Pierin –
Não vejo um movimento vegano pronto para assumir a responsabilidade de um mercado extremamente sedento de qualidade e variedade de produtos, mas estamos caminhando. É o que apontam os poucos dados sobre o tema. O movimento ativista permanece fragmentado e com muitas nuances ideológicas que muitas vezes impedem o fortalecimento e união de esforços que seriam importantes para vitórias maiores e mais definitivas.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.

Você viu?

MAUS-TRATOS

DEBILITADO

DECISÃO JUDICIAL

INSPIRAÇÃO

DENÚNCIA

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

RETROCESSO

RESPONSABILIDADE


LEIA EM PRIMEIRA MÃO AS NOTÍCIAS MAIS ANIMAIS DO MUNDO

>