EMPREENDEDORISMO ÉTICO

Ativismo no prato: mercado vegano cresce em Salvador (BA)

Por uma longa e tediosa era, os veganos que saíam para comer com os amigos em Salvador miravam os cardápios e constatavam que só tinham uma escolha: batata frita.

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13/01/2018 às 18:30
Por Redação

Luciana Rangel e Carol Reis criaram a Rango Vegan há 11 anos

Por uma longa e tediosa era, os veganos que saíam para comer com os amigos em Salvador miravam os cardápios e constatavam que só tinham uma escolha: batata frita. De uns anos para cá, essa história está mudando, num novo mundo de abundância para quem só convivia com restrições. Hoje, sentam-se e podem, de olhos fechados, pedir hambúrgueres, coxinhas, pizzas, churrascos ou almoçar descansadamente em restaurantes 100% livres de ingredientes de origem animal.

A desbravadora deste mercado foi a Rango Vegan, criada há 11 anos. Àquela época, a cidade já tinha restaurantes naturebas que ofereciam opções veganas, mas nenhum que seguisse a filosofia de forma estrita e exclusiva. As amigas Luciana Rangel e Carol Reis começaram vendendo empada, pastel e bolo de chocolate nos shows de hardcore que frequentavam, aderindo à ala do movimento punk que passou a pregar o veganismo como bandeira. Vendiam tudo. Depois, numa viagem à Europa, viram nas ruas barraquinhas de falafel e pensaram em montar uma parecida por cá. O carrinho ficava estacionado nas proximidades da Biblioteca Central e vendia falafel, claro, e cachorro-quente com salsicha vegetal à base de proteína de soja. “Foi um sucesso. Iam muitos veganos, mas a maioria nem sabia o que era isso”, Luciana ri.

Quando se deram conta, estavam fazendo eventos e entregando marmitas, além das pizzas sagradas aos sábados. O casarão onde trabalhavam, no Santo Antônio, foi ficando apertado, e aí elas resolveram apostar e abrir um restaurante. O lugar funciona há seis anos, no mesmo bairro, com uma vista deslumbrante para a Baía de Todos-os-Santos. Na parede, uma placa diz logo do que se trata: “Cozinhar é um ato revolucionário”. E há ainda uma outra, perto da cozinha, com uma vaca segurando um cartaz direto e claro: “Vá tomar o leite da sua mãe!”.

No princípio, iam os amigos, as pessoas ligadas a uma alimentação mais saudável, os turistas já acostumados à causa. “Hoje, qualquer pessoa vem aqui. Comem, gostam e voltam”. Para isso, foi fundamental desmistificarem duas ideias arraigadas: a de que a comida vegana não tem gosto e a de que é muito cara. O almoço no Rango Vegan – que pode ser um estrogonofe de palmito, um bife de berinjela, um filé de peixe de tofu, um nugget de milho com grão-de-bico ou um bobó de banana-da-terra, opções do cardápio de uma semana de dezembro – custa R$ 18, ou R$ 20 aos fins de semana – aí tem feijoada, lasanha, escondidinho, pizza.

Quem quiser lanchar paga R$ 10 no falafel e R$ 6 na coxinha. “Nossa ideia é popularizar o veganismo. A gente acredita que é algo que vai dominar o mundo. As pessoas estão mais conscientes e mais atentas ao que comem. Não só por uma questão de saúde, mas também por saberem cada vez mais como a indústria é cruel com os animais”, diz Luciana.

Entre 2015 e 2016, o restaurante dobrou de faturamento e neste ano, apesar da crise, conseguiu manter a média de público. Com a procura, resolveram estender o horário de funcionamento (antes, abria das 12h às 15h e agora também dá para lanchar ou jantar cedinho, das 16h às 20h) e passaram a abrir de domingo a domingo. Elas já estão pensando em montar uma filial em outro bairro ou talvez em São Paulo. Outro projeto, este encaminhado, é a consultoria que prestam a estabelecimentos que querem oferecer opções veganas aos clientes. “Esse movimento de crescimento do veganismo é positivo, porém tardio”, alfineta Carol, que está estudando nutrição. “Foi uma briga que nós compramos, uma ousadia. Acabou que nós constituímos um público vegano na cidade. É uma nutrição inclusiva, na verdade, porque temos aqui muitas opções para quem não pode consumir glúten ou lactose. E tem ainda a questão da digestibilidade. A pessoa se sente bem depois que come”.

Fast food

Não há números precisos de quantos veganos existem no Brasil. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) não pergunta na hora do censo se as pessoas que vivem naquela casa são ou não veganas. Em busca de pistas, o que o IBGE fez foi conduzir, por dois anos (2011 e 2012), uma pesquisa que mapeou o número de vegetarianos nas principais capitais do país. Encontrou um índice de 8%. Em Salvador, o dado foi um pouco menor: 7%. A partir do percentual de veganos entre os vegetarianos do Reino Unido e dos Estados Unidos, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) estima que haja cinco milhões de veganos no Brasil.

O que o chef Leonardo Torres percebeu logo foi que não precisaria se restringir a este número, qualquer que fosse ele. Em 2013, depois de voltar da Espanha, tomou a decisão de que não cozinharia mais carne. Passou a vender pães nas primeiras edições da Feira da Cidade até que alguém sugeriu que colocasse alguma coisa dentro daquele negócio. Resolveu surfar na onda do hambúrguer. “Fiz uma produção que deveria durar oito, nove horas, e em quatro horas acabou tudo. Veio um grupo de Camaçari para comer e, quando chegaram, já não tinha mais. Eles quase me mataram”, ri.

A maioria dos clientes da lanchonete B-Vegan, na Barra, não são veganos. Foto: Mila Cordeiro / Ag. A TARDE

Foi aí que teve certeza de que as pessoas estavam mais curiosas e dispostas a experimentar alimentos veganos. “O número de vegetarianos e veganos está crescendo, mas ainda é pequeno. A grande mudança é que hoje as pessoas perderam aquele preconceito de que a comida vegana é insossa. Elas perceberam que podem manter uma rotina de prazer comendo hambúrguer, sorvete e pizza veganos com a família, os amigos. Foi aí que o mercado se abriu. Imaginava a princípio que atenderia a um nicho pequeno, mas vi que poderia abraçar tudo”.

Há um ano e meio, Leonardo abriu a lanchonete vegana B-Vegan e comprovou que sua aposta foi acertada. “A maioria, 70% do nosso público, não é nem ovolactovegetariano, quem dirá vegano”. Ele imagina que as pessoas vão até lá num misto de curiosidade, desejo de comer menos carne, preocupação com a saúde e, cada vez mais, por razões ecológicas, que incluem, mas não se reduzem, à ética animal. “Muita gente entra aqui e já fala no impacto da produção de carne, nos desmatamentos da Amazônia para fazer pasto. Não sou de fazer catequese, mas quero contribuir para que as pessoas entendam que podem viver sem carne. Cada um no seu tempo”.

Os motivos e princípios, quaisquer que sejam, se fortalecem à primeira mordida no hambúrguer de feijão-fradinho (R$ 16), daqueles para comer com gosto até o final, ou na deliciosa trufa de chocolate com amendoim (R$ 5). Leonardo pensa em expandir o negócio por meio de uma franquia e conta que já há interessados.

Verdinho na fachada

A autointitulada “maior loja vegana da América Latina” fica em Salvador e é uma franquia. Há um ano, a Veganza Empório Vegano abriu as portas numa esquina da Avenida Paulo VI num misto de mercadinho e lanchonete. Há uma centena de produtos processados para quem cansou de ter trabalho em casa – e também para aqueles que nem chegaram a tentar –, entre biomassas, biscoitos, queijos e carnes vegetais de tudo que é tipo. Muita gente chega lá atraída pelo verdinho da fachada, achando logo que é uma casa de produtos naturais. A maioria dos consumidores, como a essa altura você já pode imaginar, é de não veganos. “Vêm muitos curiosos, pessoas que têm intolerância a glúten e lactose e pessoas com todos os tipos de alergia”, conta o empresário e fisiculturista Paulo Victor Pinheiro.

Para abrir a Veganza, ele deixou um emprego concursado na Petrobras. O tempo não vem abrigando arrependimentos. Há dias em que até se surpreende com o movimento, como aconteceu num sábado recente, quando costumam servir feijoada. Sua ideia é que a lanchonete “puxe” o negócio. Atualmente, entre 60% e 70% do faturamento concentra-se no mercadinho. Para isso, já está pesquisando um forno para servir pizzas e pensa em montar um boteco na rua em frente ao empório, além de passar a utilizar o mezanino.

Paulo Victor Pinheiro comanda a Veganza Empório Vegano, aberta há um ano em Salvador. Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

Hoje, dá para sentar numa das mesinhas e pedir um “not dog ogro” (R$ 24), um churrasco com fritas (R$ 26) ou uma porção de onion rings (R$ 20). Também há opções diárias de almoço, com comida baiana às sextas-feiras. “Ganhamos pelo estômago”, assegura Paulo, que foi um adolescente obeso e virou vegano há 16 anos. Nesse percurso, já foi estimulado por três nutricionistas a abandonar essa filosofia. Para resolver de vez o caso, foi ele mesmo estudar nutrição. “O veganismo mudou toda a minha vida”.

O caçula da cidade dentre os empreendimentos 100% veganos é o Vega.lize, inaugurado em dezembro no Canela com a missão de ser “saudável para a gente, os animais e o meio ambiente”. O lugar, amplo e descolado, oferece almoço no esquema buffet livre: custa R$ 17 para quem escolhe uma opção, que pode ser uma salada; R$ 20 para duas opções, que podem incluir o prato do dia (um estrogonofe de cogumelo ou um bobó de abóbora estão no cardápio); R$ 23 para três opções (para quem quiser incluir os assados, como croquete de coco ou quibe recheado com berinjela); e R$ 26 para quem estiver com muita fome ou não dispensar a sobremesa (em alguns dias tem madeleine de especiarias e o brownie de chocolate com gengibre). Tudo produzido numa cozinha 100% feminina.

O restaurante Vega.lize é o caçula entre os empreendimentos 100% veganos da cidade. Foto: Joá Souza / Ag. A TARDE

À frente do empreendimento está Ana Carolina Lima, vegetariana há cinco anos. Ela se surpreendeu com o movimento na inauguração, quando mais de 50 pessoas foram conhecer o restaurante. Quer, em breve, abrir para o café da tarde, promover eventos culturais no local aos fins de semana e manter uma biblioteca com livros feministas. “O Vega.lize, para mim, não é só uma fonte de renda. É também ativismo das causas que acredito”.

O peso do mercado

Outra prova do crescimento desse mercado livre de crueldade animal é que os restaurantes carnívoros de todo o país passaram a oferecer opções para veganos. Para qualificar essa oferta, a SVB oferece, desde outubro do ano passado, consultoria gratuita para os estabelecimentos que quiserem abocanhar uma fatiazinha deste público. “O mercado está pronto para isso, e nós quisemos dar um empurrãozinho. Nossa intenção é que restaurantes e lanchonetes ofereçam boas opções, que sejam atraentes para qualquer um, não só veganos”, conta Gabriel Carvalho, secretário-executivo da SVB.

Mais de 270 lojas no Brasil já aderiram à campanha, batizada justamente de Opção Vegana. “A procura é imensa. Todo dia nos procuram para consultas”. E para estes Guilherme esclarece que a intenção é facilitar a vida de todo mundo. Os empresários não precisam comprar novos equipamentos para a cozinha ou ingredientes “esquisitos”. “Uma hamburgueria, por exemplo, não precisa comprar outra chapa. É só usar um espaço separado para os veganos, para que ninguém coma carne sem querer”.

Guilherme também lembra da importância de fazer escolhas inteligentes, lembrando que a opção vegana atende também os vegetarianos – mas o contrário não é verdadeiro. “Teve uma rede de fast-food, a Burger King, que lançou um hambúrguer vegetariano que é recheado de queijo. Ou seja, é antivegano. Deixou, assim, de atender milhões de consumidores”.

Com a popularização, não custa ficar atento, especialmente se você for vegano, vegano mesmo. Outro dia, Leonardo, da B-Vegan, ficou todo feliz por ter encontrado um pastel vegano numa famosa rede baiana de pastelaria. Chegou dizendo que era intolerante a lactose, para garantir que não ia comprar gato por lebre (nem por bicho nenhum, a bem da verdade). A vendedora confirmou que não usavam nada de ovo, nem leite. Mas da outra vez que foi ao local, outra funcionária que estava por lá falou que não era bem assim, que eles usavam manteiga para abrir a massa.

É mais fácil se esquivar do problema com os produtos industrializados. Há quatro anos, a SVB criou um selo, o Certificado SVB Vegano, para dar garantias aos consumidores de que “o desenvolvimento e fabricação de um determinado produto não teve qualquer uso de animais ou suas partes”. Já são mais de 400 itens certificados no Brasil. “Nosso objetivo é difundir o conceito vegano e educar a cadeia produtiva”, conta Guilherme.

O processo envolve taxas que variam de acordo com o tamanho da empresa e pode durar semanas ou meses, a depender das dificuldades para conseguir declarações dos fornecedores de que não há qualquer produto de origem animal nos processos de produção. Na Bahia, os únicos produtos certificados são as barras da Chocolates Dom Premium. Geraldo Farias, proprietário da marca, diz que buscou o selo para dar “tranquilidade” ao consumidor. “Nós temos uma filosofia de que o cacau já é perfeito. Então quanto menos interferirmos, melhor. Além disso, o consumidor hoje está mais consciente e responsável, não pensa só no valor econômico, mas no que o produto representa”.

Até conseguir o selo, foram oito meses, por conta da dificuldade de conseguir a declaração de conformidade de uma empresa francesa de quem recebe edulcorantes naturais. Geraldo não é vegano, mas conta que está reduzindo o consumo de alimentos de origem animal. “Os alimentos naturais são saborosos. Isso de dizer que são sem gosto, ruins e caros é marketing da grande indústria”.

Dia de feira

Os produtos veganos já vinham ganhando alas segmentadas nas feiras de rua de Salvador, mas a coisa foi ficando tão pujante que no final do ano passado, em novembro, tiveram uma edição inteirinha para chamar de sua, a Feira Vegan, que reuniu mais de 15 empreendedores num shopping no Itaigara.

A designer Ana Paula Paixão, uma das organizadoras, conta que a história começou num grupo do Facebook, o Ser Vegano em Salvador, que tem mais de quatro mil membros. Uma das integrantes, Rachel Costa, lançou a ideia da feira e reuniu interessados num “grupão” do WhatsApp. Ana Paula colaborou criando a marca do evento.

Ela diz que cerca de 400 pessoas passaram pela feira. “Foi muito bacana. Em nenhum momento parou o movimento. Quando deu quatro da tarde, todo mundo já tinha vendido tudo”. Eles já estão pensando numa próxima edição, que vai acontecer no dia 27 deste mês, na Casa Guió, no Rio Vermelho. Vegetariana há sete anos, e há alguns meses em “transição” para o veganismo, Ana Paula também participou da feira como expositora. Numa mesa, exibiu os sushis veganos que entrega sob encomenda às sextas.

A grande maioria dos clientes da Amana, marca que criou há um ano, são veganos, mas tem também aqueles que experimentam por não gostarem de peixe cru. “Tem muitos curiosos que provam e acabam se impressionando pelo sabor. Para mim, é um trabalho bem espiritual”.

Beleza sem sofrimento

Esfoliante de café, tintura de alecrim, desodorante de pedra hume. Para além das comidinhas, o mercado vegano também ganha força na área da beleza. A Baunilha Haus, que comercializa os itens descritos no começo deste parágrafo, traz no seu site um manifesto: “Todos os nossos produtos são livres de crueldade, não são testados em animais e nem possuem matéria-prima de origem animal. Acreditamos que a vaidade não vale uma vida”.

A analista de marketing Lorena Passos criou a marca em maio do ano passado, depois de fazer cursos de produção de cosméticos em São Paulo. Vegana há três anos, começou atuando em causa própria: sempre teve alergia aos xampus e hidratantes que encontrava no mercado e, além do mais, não fazia nenhum sentido deixar de consumir alimentos de origem animal e continuar usando produtos que utilizam os animais para testes.

A analista de marketing Lorena Passos produz cosméticos veganos com a mãe, Maria Auxiliadora. Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

As amigas foram se interessando pelos cremes que ela carregava e insistindo para que os fizesse para vender. Lorena começou timidamente, sentindo se teriam aceitação. Para dar vida pulsante a seu ativismo, fez questão de que os preços fossem acessíveis (custam entre R$ 12 e R$ 38). “Eu via marcas de cosméticos veganos com preços absurdos, que não se encaixavam no meu orçamento”.

A Baunilha Haus, que também estava na Feira Vegan, oferece hoje 35 produtos para cabelo, corpo e rosto, que, além de não serem testados em animais, também não possuem aditivos químicos. Os cosméticos são feitos em casa por Lorena e pela mãe, Maria Auxiliadora, a Dorinha, num quarto que já está para lá de bagunçado. Animada com a procura, tanto de veganos quanto de curiosos, Lorena pretende melhorar a infraestrutura de produção e investir num ponto fixo, atenta ao lema de ganhar dinheiro “sem fazer mal a ser vivo algum”.

Vá lá

Rango Vegan R. do Passo, nº 62, Pelourinho. Tel. (71) 3488-2756. @rangovegan | B-Vegan R. Dias D’Ávila, 101, Barra. Tel. (71) 3022-2450 @b.vegan.gastronomia | Veganza Empório Vegano R. das Hortênsias, 988-A, Pituba. Tel. (71) 98184-1551 @Veganzaemporiosalvador | Vega.lize R. Basílio da Gama, nº 65, Canela. @vega.lize | Dom Chocolates Premium Tel. (71) 99974-2806 @dom.chocolates | Amana Tel. (71) 99126-3707 @sonhoamana | Baunilha Haus baunilhahaus.com.br @baunilhahausc | Feira Vegan – Dia 27 de janeiro na Casa Guió (Rio Vermelho)

Fonte: A Tarde