CONTEÚDO ANDA

Sofrimento até a morte: navio com 27 mil bois vivos parte de Santos para Turquia

Durante aproximadamente quinze dias, os bois serão transportados pela embarcação. Amontados, eles não têm espaço sequer para descansar.

Olhar desesperado de um dos bois revela o terror vivido por eles (Foto: Divulgação / YouTube)

Há cinco dias o Porto de Santos, no estado de São Paulo, tem sido palco de um terrível episódio de exploração animal. No local, mais de 27 mil bois foram embarcados em um navio de doze andares, com capacidade máxima para 30 mil bovinos, que saiu do cais as 18 horas desta segunda-feira (4). A embarcação, batizada de “Nada”, é considerada a maior voltada para o transporte de animais vivos.

Olhar desesperado de um dos bois revela o terror vivido por eles (Foto: Divulgação / YouTube)

Os bois, distribuídos em 300 caminhões, percorreram aproximadamente 600 km de Altinópolis e Sabino, cidades localizadas no interior de São Paulo, até o cais santista. Antes disso, entretanto, segundo informações de um caminhoneiro que não quis se identificar, os bois foram transportados do sul do país ao interior paulista, quando ficaram, então, em quarentena para que a próxima viagem de caminhão pudesse ser iniciada.

Até chegarem no destino final, no Porto de Iskenderun, na Turquia, eles enfrentarão quase 6 mil milhas náuticas, que representam cerca de 11 mil km. A megaoperação é de responsabilidade da Minerva Foods, terceira maior empresa de carne bovina do Brasil e maior exportadora de boi vivo do país.

O sofrimento imposto aos bois começou no início do transporte, feito pelas carretas. Isso porque o “Manual Boas Práticas de Manejo – Transporte”, elaborado pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, recomenda que os animais sejam desembarcados e tenham direito à descanso, alimento e água à vontade apenas em viagens com duração maior que 12 horas. A recomendação do órgão expõe a crueldade envolvida no transporte de animais vivos, especialmente em casos como o dos bois levados a Santos, em que o trajeto não alcançou a quantidade de horas definidas como necessárias para que os animais recebam o que deveria ser disponibilizado para eles em tempo integral: alimentação, água e local para descansarem.

Amontoados, bois não tem espaço que os permita deitar e descansar durante a longa viagem (Foto: Divulgação / YouTube)

Em caminhões superlotados que, devido à falta de espaço, os impedem de descansar, eles sentem fome, sede, calor e, ainda segundo informações do Ministério, “mesmo sob boas condições e em viagens curtas, os bovinos mostram sinais de estresse”. O documento do órgão afirma ainda que “animais estressados sofrem” e que o estresse gerado leva ao risco de ferimentos e morte.

Ao chegarem no cais, o terror se intensifica. No local, os caminhões são posicionados de forma a encurralar os bois em um corredor que os direciona à plataforma de embarque. Desesperados, eles percorrem o único caminho possível, que os leva ao navio e, posteriormente, à morte.

A previsão de duração da viagem é de aproximadamente 15 dias. Amontados, os bois não terão sequer espaço para deitar no navio e descansar, fazendo jus a cruel forma de transporte conhecida como “boi em pé”. Sujos, eles já chegaram à embarcação cobertos por fezes. Em imagens feitas (veja o vídeo abaixo) pelos ativistas George Guimarães, presidente da ONG VEDDAS, e Taisa Leonardo, é possível observar a situação deplorável vivida pelos animais. Um deles, inclusive, é registrado caído ao chão, sem forças para se levantar, após provavelmente ter se machucado durante o trajeto que o levou ao navio.

Navio que transportará mais de 27 mil bois é o maior do mundo para transporte de animais vivos (Foto: Renan Fiuza/G1)

Se a cruel operação de embarque de animais vivos no Porto de Santos obtiver bom resultado do ponto de vista da pecuária – visto que não há como existir resultado positivo da perspectiva animal -, um novo embarque deve ocorrer em janeiro de 2018.

Acidentes expõe animais à morte cruel

Além do terror vivido pelos animais durante o transporte, tanto em caminhões quanto em navios, acidentes fazem com que mortes cruéis e dolorosas aconteçam.

No Mato Grosso do Sul, mais de 30 bois morreram após a carreta que os transportava tombar na BR-262, entre as cidades de Terenos e Aquidauana. Outros dois bois também morreram após o caminhão em que estavam colidir com outro veículo, no Maranhão. Na Bahia, oitenta bois perderam a vida após o tombamento da carreta que realizava o transporte deles.

Comuns, os acidentes acontecem também no mar. Em 2015, um navio que transportava bois afundou no porto do Pará antes mesmo da viagem ser iniciada. Milhares de animais morreram afogados e degolados no local. Três anos antes, cerca de 3 mil bois morreram em alto mar após o sistema de ventilação da embarcação que os transportava parar de funcionar.

Facilmente evitáveis, casos como esses não aconteceriam se os animais fossem considerados sujeitos de direito e, dessa forma, não fossem explorados, torturados e submetidos a transportes em péssimas condições para a produção de carne e outros produtos cruéis de origem animal.
A ausência desses acidentes atualmente, entretanto, não garante um bom futuro aos animais. Já que os suportam as péssimas condições das viagens terminam nos matadouros, onde são covardemente mortos.

“Carne é assassinato de vidas inocentes”, dizem ativistas

Com cartazes e megafones nas mãos, ativistas foram ontem (3) protestar na Praça da Independência, em Santos. Segurando papéis com dizeres como “carne é assassinato de vidas inocentes” e “27 mil bovinos embarcam para a morte no Porto de Santos”, eles se manifestaram em defesa da vida dos bois.

Ativistas protestam contra embarque de 27 mil bois vivos em navio (Foto: Facebook / Paulla Maniezi)

A bióloga e presidente da ONG Bendita Adoção, Beatriz Silva, esteve no cais santista e, segundo informações divulgadas pelo portal Viva Vegan, foi impedida de se aproximar do navio pelos funcionários do local. “Esses animais estão em sofrimento profundo, eles gritam e, mesmo a uma distância significativa, nós conseguimos os ouvir. A agonia é latente, não podemos permitir que tenhamos um retrocesso desses, cai contra todas as leis de crimes ambientais”, afirma a ativista que, ao dizer que o caso se trata de um retrocesso faz referência ao fato do porto ter voltado a transportar animais vivos depois de ter permanecido sem realizar tal operação durante 17 anos.

Um abaixo-assinado online foi feito para solicitar o fim do transporte de animais vivos nos portos brasileiros.

Ativista tenta impedir saída de navio do Porto de Santos

O ativista pelos direitos animais e presidente da ONG VEDDAS, George Guimarães, tentou impedir que o navio no qual estão os 27 mil bois partisse do cais santista. A embarcação, entretanto, seguiu viagem.

Em publicação feita nas redes sociais, Guimarães afirma ter visitado os prédios do Ministério Público Federal e Estadual, Justiça Federal e Estadual e Polícia Federal “levando documentos com pedidos de investigação e impedimento da saída do navio”. Segundo informações do porto, a saída da embarcação estava programada para às 14h e foi adiada para esta madrugada. O navio, no entanto, partiu mais cedo, saindo de Santos as 18h.

Guimarães foi recebido pelo gabinete do Procurador da República, para o qual afirma ter enfatizado “a urgência do pedido pois uma vez que o navio tenha saído, perde-se toda a possibilidade de coleta de provas sobre as irregularidades no transporte, regras sanitárias e maus-tratos”.

Ativista tenta impedir saída de navio e proibir transporte marítimo de animais vivos (Foto: Reprodução / Facebook / George Guimarães)

E apesar de, segundo informações divulgadas pelo ativista, o gabinete do procurador ter afirmado que se empenharia no caso, “já tendo contatado alguns dos órgãos competentes para cobrar deles as ações e esclarecimentos que constam do nosso pedido”, o navio partiu do cais santista.

Guimarães esclarece ainda que sua ação foi motivada pelo interesse em conseguir proibir a prática cruel de transporte de animais vivos. “O objetivo obviamente não é pedir por melhores condições para o transporte, mas sim a proibição da atividade, causando assim prejuízo às empresas importadoras e exportadores e desse modo tornando não lucrativa a prática. Com isso também poupando os animais do martírio da viagem marítima. No entanto, infelizmente, o destino desses 27.000 indivíduos sencientes é certo, seja no Brasil ou no exterior. O que podemos fazer é, pelas vias legais, impedir essa etapa adicional de tortura e tornar a atividade menos lucrativa ou inviável para os que poderiam vir depois”, escreve.

Em vídeo, George lamenta a saída do navio, mas afirma que “os esforços não foram em vão porque a ação que foi aceita no Ministério Público Federal, por exemplo, pedia o levantamento de todas as guias de transporte, das condições que esses animais chegaram, e a gente vai poder usar isso para impedir o próximo carregamento”.

Ao final da publicação feita pelo ativista nas redes sociais, ele lembra que a única forma de impedir que os animais sofram é deixando de consumi-los. “A solução, a verdadeira solução, é uma só: o não consumo dos produtos de origem animal. Se não há quem compre, não há quem mate”, conclui Guimarães.

Confira o vídeo: