LAUREN ORNELAS

“Quando as pessoas usam suas vozes para mudar políticas ou corporações, isso é poder”

A ativista norte-americana Lauren Ornelas se tornou vegetariana na década de 70, ainda criança porque não queria mais contribuir com o sofrimento animal.

Lauren Ornelas
Foto: In Her Image Photo
Lauren Ornelas
Foto: In Her Image Photography

Durante o Ensino Médio, Lauren foi apresentada a um grupo local de ativistas e conheceu o veganismo. Desde então, ela decidiu lutar pelos direitos animais e não parou mais. Lauren trabalhou para a organização In Defense of Animals, fundou o braço da ONG Viva! USA, na qual realizou investigações em fazendas industriais e hoje é diretora do Food Empowerment Project. Nesta entrevista exclusiva, ela conta sobre seu trabalho e explica como nossas escolhas alimentares podem mudar o mundo.

ANDA:  Em que momento você decidiu se tornar uma ativista e como tem sido sua luta pelos direitos animais?

Lauren Ornelas –  Não tenho certeza sobre ter decidido ser uma ativista. Acho que aconteceu assim. Havia tantas injustiças e eu não me satisfiz em mudar meu estilo de vida pessoal. Queria juntar minhas vozes com as dos outros – em termos de questões de direitos humanos, contra o apartheid na África do Sul, a pena de morte e a guerra. Eu também queria estar lá para informar os outros sobre o que estava acontecendo com os animais não humanos. O meu envolvimento no movimento dos direitos animais abrange mais de 30 anos e vi debates no movimento da década de 1990 surgirem novamente nos anos 2000. Foi uma evolução pessoal, mas meu compromisso nunca diminuiu. Participei da maioria das formas de ativismo, desde a desobediência civil até a aprovação de leis para os animais.

ANDA: Você fundou a organização Viva! USA na qual participou de investigações em fazendas industriais. Como foi essa experiência?

Lauren Ornelas – Quando vi “The Animals Film” na década de 1980, observei o que estava acontecendo com os animais com horror. Eu também assisti pensando que nunca poderia fazer investigações como essas. Porém, fiz porque tinha que fazer. A experiência me fez ter pesadelos regularmente. Alguns incluíam os animais que tinha acabado de documentar e alguns combinavam todos os animais, como patos com porcos. Foi emocionalmente difícil. Porém, nunca estive lá para me documentar libertando animais. Meu objetivo era capturar o que estava acontecendo com eles enquanto minha câmera estava sobre eles. Tinha que me concentrar neles e usar o que eu estava capturando para ajudar a criar mudanças, como fazer uma loja parar de vender penas.

ANDA: Qual foi a investigação que mais te marcou durante esse período? Por quê?

Lauren Ornelas –Todas as minhas investigações me impactaram de uma forma ou de outra. Cresci com um afeto incrível por patos devido ao fato de ter investigado tantas fazendas em torno dos EUA e libertado alguns pouco antes mesmo de terem suas penas. Havia as vacas mães na indústria de laticínios gritando para seus bebês e eu lembro de ter um colapso após as investigações relacionadas a galinhas, percebendo quantas são mortas. Porém, acredito que a mais difícil pode ter sido a investigação sobre porcas nas celas de gestação e de parto. Uma das razões pelas quais isso me impactou tanto foi ver as porcas nas celas de parto e saber que não podiam nem esticar as pernas – a realidade de que não conseguem dar um passo é muito mais real quando você olha como elas estão vivendo. Sem mencionar que estavam grávidas.  Saber que as porcos mães são mortas depois de cerca de quatro anos significou que,  mesmo anos depois de eu deixá-las e falar sobre elas, assistir ao vídeo que fiz delas, elas ainda estavam lá. Não conseguia lidar com isso. Elas batiam constantemente a cabeça contra as portas das celas, o que ecoava nos meus pesadelos. Mesmo quando as mães davam à luz, não havia nada para elas, exceto outra cela, na qual nem sequer podiam se virar – sem roupa de cama, nada. E, é claro, essa porca mãe teria seus bebês levados para longe dela.

ANDA: Você também é fundadora do Food Empowement Project. Qual é o objetivo da iniciativa e como é sua atuação?

Lauren Ornelas – O Food Empowement Project  é uma organização de justiça alimentar vegana. Somos uma organização vegana ética que se esforça para conectar várias injustiças que ocorrem na indústria de alimentos. O objetivo da nossa organização é lutar por um sistema alimentar mais justo para animais humanos e não humanos. Muitos dos mesmos segmentos de opressão estão conectados e não queremos separar e trabalhar para acabar com apenas um deles – queremos eliminar aqueles que podemos, mostrando às pessoas o poder de suas escolhas alimentares.

ANDA: Como nossas escolhas alimentares podem ser um meio de empoderamento e de transformação do mundo?

Lauren Ornelas – Para muitos de nós, as crueldades e injustiças do mundo são incrivelmente dolorosas e sobreviveremos principalmente trabalhando para criar mudanças. Pelo trabalho que fazemos na F.E.P., tive que restringir isso apenas à alimentação. Caso contrário, o escopo teria sido muito amplo. Uma das razões pelas quais temos a palavra “empoderamento” como parte de nosso nome é porque quando as pessoas são capazes de alimentar suas famílias e cultivar seus próprios alimentos, isso é poderoso. Quando as pessoas podem alimentar suas famílias com o trabalho que fazem e manter todos saudáveis, isso é empoderador. Que as pessoas fiquem horrorizadas com o que acontece com os animais humanos e não humanos no sistema alimentar e têm ferramentas para ajudá-las a não contribuir com isso é empoderador. Quando as pessoas não apenas usam suas escolhas alimentares individuais, mas também utilizam suas vozes coletivas para mudar políticas ou corporações, isso é poder.

ANDA: O Food Empowerment Project trata não apenas da exploração animal, como também da exploração humana. De que maneira a opressão de animais não humanos pode ser relacionada a opressões de outros grupos?

Lauren Ornelas – Acredito que a opressão foi criada pelo conceito de dominância. Outros seres são de alguma forma vistos como “menos do que” ou mesmo “diferentes”. Isso permite que outros sejam explorados. Usamos nomes diferentes e palavras diferentes para os produtos que criamos a partir de animais e para animais humanos isso seria um insulto. Quer se trate de animais utilizados em experimentos e vistos como incapazes de sentir o mesmo tipo de dor que nós ou dos imigrantes do México que chegam aos Estados Unidos para escolher produtos serem vistos como “inferiores” e, portanto, não precisam ou merecem condições de trabalho justas. Isto é a opressão. Os trabalhadores agrícolas fazem o trabalho que muitos outros não querem fazer. E eles fazem isso por causa das vidas que querem que seus filhos levem. Sem eles, não teríamos comida para colocar nos nossos pratos.

ANDA: Quais as transformações que você notou no ativismo desde que começou a defender os animais e qual sua análise do cenário atual?

Lauren Ornelas – A principal transformação que notei no ativismo é que há menos campanhas para a libertação de animais e questões importantes, como testes em animais para produtos cosméticos e domésticos, são relegadas ao segundo plano – pelo menos nos EUA. Isso é incrivelmente perturbador, considerando que nos EUA esse teste não é exigido por lei, por isso deve ser fácil mudar as diretrizes e procedimentos da empresa. Infelizmente, sempre notei os egos neste movimento e com as mídias sociais isso parece ter aumentado. O foco parece ser menos nos animais e mais nos humanos na frente da câmera. A transformação mais encorajadora que observei é que o número de veganos, especialmente as mulheres negras veganas que reconhecem as conexões de vários problemas de justiça social, está apenas começando a crescer. Grupos como F.E.P., Black Vegans Rock, VINE e o trabalho de Breeze Harper e Brenda Sanders e podcasts como  o Vegan Warrior Princesses Attack! Estão, felizmente, começando a ganhar mais exposição.