Seres sencientes: a crueldade de cozinhar e cortar crustáceos vivos

São facilmente esquecidos e não costumam ser alvo de empatia.

Lagostas são cruelmente mortas (Foto: Tatiana VdP/Flickr)

Caranguejos e lagostas, na maioria dos países, não estão sob proteção de legislações que regem os direitos animais. Então nada do que é feito com eles pode ser considerado ilegal. O resultado é que são tratados de formas que seriam claramente consideradas cruéis se as mesmas práticas fossem realizadas em um animal vertebrado.

Talvez seja assim por serem animais desconhecidos para a maioria das pessoas. Eles têm dez pernas, nenhum rosto definido e sistema nervoso distribuído pelo corpo todo. Além disso, não são considerados tão inteligentes quanto os polvos, tendo apenas 100 mil neurônios, enquanto que polvos tem 500 milhões. São facilmente esquecidos e não costumam ser alvo de empatia.

Entretanto, se você se importa com os animais, deveria se importar com o que acontece com eles. Jogados em água fervente vivos, demoram vários minutos para morrer enquanto se debatem e seus membros se separam do corpo. Crustáceos podem ser mortos em segundos com facas, mas a maioria das pessoas não conhece as técnicas apropriadas. Existe também um aparelho que os eletrocuta e mata em 10 segundos, mas nunca é prioridade na lista de equipamentos de cozinha. Então eles geralmente são “processados vivos”, como diz um estudo recente citado pelo The Wire, o que é um eufemismo para “cortados vivos”.

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Para muitos, a questão principal é se eles são capazes de sentirem algo, se são sencientes. Se a resposta for sim, passam por práticas extremamente cruéis ao serem mortos. Cientistas que exploram esse assunto definem dor como “sensações e sentimentos aversivos associados a danos reais ou potenciais do tecido”. Quando falam sobre dor, falam sobre o conceito mais elementar no sentido da evolução, um sentimento que pode não conter todos os aspectos da dor humana. Mas não há uma obrigatoriedade de ter consciência de si para sentir dor.

Nos últimos anos, análises evidenciaram comportamentos surpreendentemente sofisticados em caranguejos. São capazes de analisar em quais situações vale a pena correr um risco físico em troca de um benefício maior. A conclusão é que eles agem pela experiência já adquirida no passado. Sendo a dor uma ótima guia para fazermos escolhas, há fortes indícios de que são capazes de senti-la.

Jonathan Birch, professor de Filosofia na Escola de Economia e Ciências Políticas de Londres, propõe que seja usado o princípio da precaução nestes casos. Ele é comumente colocado em prática para determinar políticas ambientais. O princípio diz que, quando você não tem certeza da ligação entre ações humanas e um resultado potencialmente ruim, não deixe que a incerteza te impeça de tomar precauções eficazes.

Exemplos em que o princípio tem sido utilizado são em ameaças ambientais diversas que vão de mudanças climáticas ao uso de neonicotinóides, os pesticidas ligados ao colapso de colônias de abelhas. Também deveria ser aplicado à questão da senciência em animais.

Em resumo, quando a evidência é sugestiva, mas não conclusiva, dê ao animal o benefício da dúvida. Principalmente em casos onde há pelo menos um indicador de senciência de confiança em pelo menos uma espécie da ordem dos animais em questão. Os crustáceos decápodos se encaixam nesse requisito. E referências ainda mais fortes são os de polvos, lulas e moluscos, que já recebem algum tipo de proteção na União Européia.

Para Jonathan, as leis precisam ser adaptadas para garantir as necessidades dos animais e devem ser banidas práticas cruéis como as que cortam e cozinham eles vivos. “Nós poderíamos aguardar por mais indicadores de senciência e dor em mais espécies, enquanto eles continuam sendo ‘processados’ vivos no mundo todo. Mas há uma grande chance de que iríamos nos arrepender da nossa inércia”.