Investigadora utiliza a arte como ferramenta de conscientização sobre direitos animais


Twyla Francois
Foto: Jo-Anne McArthur / Unbound Project

Mais tarde, quando adoeceu e enfrentou a possibilidade de morrer, ela decidiu que queria lutar mais ativamente para defender os direitos animais. Twyla se tornou uma investigadora secreta em 2005 e atuou em reconhecidas organizações como a Mercy for Animals Canada,  a Animals’ Angels, a Canadians for Ethical Treatment of Farmed Animals e a the Canadian Horse Defense Coalition. Seu trabalho foi mostrado nos documentários “No Country for Animals”, “Bêtes à bord”, “Cruel Business”, entre outros. Em 2015, ela passou a utilizar cada vez mais a arte como um meio de conscientização sobre os direitos animais. Nesta entrevista exclusiva, Twyla fala mais sobre o papel e a atuação dos investigadores e reflete sobre o papel da arte dentro do ativismo.

ANDA: Você cresceu em uma comunidade agrícola e se tornou uma ativista pelos direitos animais. Como ocorreu essa conscientização?

Twyla Francois – Como a maioria das crianças rurais na América do Norte, participei de um programa chamado 4H, que se destina a conectar jovens com a agricultura. Como parte do seu curso de Pecuária, escolhi um bezerro, o criei e passei longas horas conhecendo-o. No dia da feira anual, fiquei orgulhosa em mostrá-lo. De alguma forma, eu acreditava que ele seria julgado por quão saudável e feliz estava. Foi só quando reconheci que o homem que fazia ofertas por ele era o açougueiro de uma cidade vizinha que percebi o que eu tinha feito.

Implorei para os instrutores me deixarem manter o bezerro, mas eles recusaram. Descobri mais tarde que minha reação era tão comum que 4H criou uma regra que proíbe explicitamente as crianças de manter seus animais. O objetivo não dito é esmagar a compaixão das crianças e forçá-las a ver os animais criados apenas como mercadorias a serem compradas e vendidas. A partir desse momento, parei de comer carne e desde então sou vegana. Fiz uma pintura sobre a experiência.

ANDA: Quando você decidiu atuar como uma investigadora e como foi esse processo?

Twyla Francois – Embora eu tivesse parado de consumir animais, eu realmente não estava fazendo nada proativo por eles. Tudo mudou quando de repente fiquei doente. Tive que passar por uma cirurgia de emergência, uma segunda cirurgia e seis meses de quimioterapia. Diante da perspectiva real da morte, fui forçada a reexaminar a minha vida e decidir se eu tinha feito alguma coisa para tornar o mundo um lugar melhor. Fundei uma pequena organização de direitos de animais sem fins lucrativos e imediatamente comecei a receber fotos do público. Uma foto mostrava um porco amarrado em um estacionamento no meio da cidade em que morava. Soube que era uma estação de coleta onde os produtores de porco levavam os animais para serem comercializados para a matança.

Em um esforço para descobrir o que estava acontecendo com os animais, voltei às instalações em segredo por mais de um ano, documentando abusos horríveis dentro e fora delas. Compilei um relatório com todas as minhas evidências e enviei-o a uma série de organizações de defesa animal em todo o mundo, procurando respostas para o que eu estava vendo. Uma organização sediada na Alemanha (Animals’ Angels) respondeu minhas perguntas e me ofereceu um emprego como investigadora. Demorou algum tempo, mas acabamos fechando essa instalação.

ANDA:  Quais são algumas das mais importantes conquistas do seu trabalho em reconhecidas organizações como a Mercy for Animals e a Animals’ Angels?

Twyla Francois – Algumas das investigações em que participei resultaram em acusações e condenações de crueldade animal; outras fecharam instalações como a estação de coleta mencionada anteriormente. Mas a realização mais importante para mim foi a exposição em massa de como são as condições para os animais criados em fazendas. Quando comecei a realizar investigações aqui, as fazendas industriais só atuavam desde a década de 1990, deixando muitos canadenses com a impressão de que as crueldades que viam na mídia norte-americana ou online simplesmente não podiam e não aconteceram aqui. Foi um desafio conseguir que a imprensa se interessasse o suficiente para mostrar minhas filmagens. Essas primeiras exposições realmente mudaram a compreensão dos canadenses. Eles não podiam mais afirmar que não estava acontecendo no seu próprio quintal.

Uma menina cochila ao lado de um porco
Quadro de Twyla Francois

ANDA:  Existem uma variedade de técnicas investigativas disponíveis. Você poderia descrevê-las para nós? Que tipo de preparação é necessária para realizá-las?

Twyla Francois – Quando as pessoas pensam nas investigações, elas tendem a pensar em um trabalho secreto, mas existem várias maneiras de trabalhar e que são alternadas pelos investigadores, dependendo da indústria ou da prática que é documentada. A maioria das pessoas com um iPhone pode obter imagens de forma aberta ou secreta. O trabalho noturno pode reunir provas importantes para documentar um padrão de negligência, que é tão comum na pecuária. Há a documentação do transporte dos animais que os segue para seu destino – que podem ficar alguns dias aqui no Canadá, pois há leis que permitem o transporte de alguns animais que ficam até 52 horas sem comida, água ou uma pausa. As câmeras deixadas para trás podem reunir provas sem o risco de que os trabalhadores alterem seu comportamento com a consciência de que estão sendo gravados.

Qualquer pessoa pode participar de um leilão público e, de forma aberta ou secreta, documentar o manuseio e a condição dos animais. Enquanto estão lá, também podem fornecer água aos animais e tentar negociar a libertação de animais doentes ou feridos. Esses animais geralmente podem ser libertos quando o leilão é lembrado de que eles não deveriam ter sido aceitos em primeiro lugar. A maioria das jurisdições tem regras que proíbem animais doentes em locais públicos. Sugiro que todos os ativistas interessados em iniciar as investigações, aprendam e compreendam as leis que abrangem os animais criados em fazendas industriais no país em que estão trabalhando. Todos esses diferentes métodos são fundamentais para ajudar a expor a crueldade inerente à pecuária e ajudar diretamente os animais presos nesse sistema.

ANDA: É interessante que uma investigadora use a arte também para denunciar a exploração animal. Como foi que você se descobriu como artista? A arte é também uma forma de escape das descobertas em fazendas, matadouros e outros locais?

Twyla Francois – Eu não teria a confiança para me denominar como “artista” sem a insistência de meu parceiro Olivier. A arte sempre foi um ato extremamente privado para mim e escondia as pinturas resultantes em armários. Quando as investigações começaram a se tornar muito difíceis emocionalmente, instintivamente eu me voltei para a arte como uma maneira de lidar com o que eu estava vendo. As imagens não deixavam meu cérebro até eu literalmente pintá-las em quadros. Olivier me convenceu de que essas pinturas poderiam ser outro meio de atingir as pessoas, então tentei; criando um site e enviando minha arte para festivais. Fiquei surpresa quando meu trabalho parecia ressoar nas pessoas.

ANDA: Há alguma diferença na maneira como as pessoas respondem aos vídeos capturados em investigações e aos seus quadros? Acredita que essas ferramentas se complementam ou atinjam diferentes tipos de público?

Twyla Francois – Acredito que estou alcançando um grupo completamente diferente de pessoas com arte do que com evidências investigativas. Como investigadora, sei que minha filmagem é difícil para as pessoas observarem e que não está chegando a uma grande parte do público, especificamente mulheres mais velhas, pessoas muito sensíveis e amantes de cães e gatos que ainda não fizeram a conexão de que os animais criados em fazendas são igualmente tão sensíveis quanto os seus queridos gatos e cães. Esta é exatamente a população que a arte atinge. Fotos e vídeos gráficos podem fazer com que as pessoas se afastem antes de absorver a mensagem. A arte faz o contrário. Ela as atrai e as obriga a refletir sobre o que estão vendo e o que isso significa para elas. Como a interpretação depende, em grande parte, do observador e eles veem o que dialoga com eles em uma pintura, isso torna a mensagem muito mais pessoal do que as imagens podem ser. É um meio surpreendentemente poderoso para transmitir a mensagem dos direitos animais.


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