Asas cortadas: pássaros da fauna piauiense sofrem com tráfico de animais


Os pássaros cantam de cabeça baixa. São animais que foram mutilados por seres humanos e traficados como objetos de valor, ou melhor, como animais sem valor. Papagaios, jandaias e cardeais vivem em uma espécie de hospital, onde passam por tratamento para se recuperarem dos maus tratos. Muitos deles, no entanto, jamais ficarão saudáveis. Entre os pássaros, há duas jandaias sol, a ave símbolo de Teresina (PI).

Pássaro engaiolado
Foto: Assis Fernandes/O DIA

Lacerda mostra o viveiro dos passados mutilados. “Eles fazem o corte da asa para que o animal não voe mais. Às vezes, cortam as penas com uma tesoura. Nesses casos, demoram de um a dois anos para se recuperarem”, explica o veterinário, apontando para o viveiro. Mas estes, eles seccionam a última articulação, a ponta da asa. Aí o animal está condenado pelo resto da vida a um cativeiro. Nunca mais vai voar”.

Comércio

A rua Firmino Pires, no centro de Teresina, é conhecida popularmente como a “Rua dos Pássaros”. A denominação remonta a um período anterior à lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, que proibiu o comércio dos animais. No entanto, a prática ainda continua através do mercado negro, escondido por trás de lojas de produtos como gaiolas e ração.

O canto de pássaros domésticos ainda cobre a rua: periquitos australianos, calopsitas e canários se amontoam em grandes gaiolas esperando compradores. São vendidos em casais.

A reportagem entrou em uma dessas lojas e conversou com um vendedor, fingindo interesse em um papagaio. O rapaz de aparentemente 18 anos hesitou por um instante, mas confirmou que a venda acontece no final de semana. Segundo ele, os animais não ficam expostos na rua, mas escondidos em locais próximos. São vendidos por até R$ 400, mas os vendedores são cautelosos.

Em outra loja, o vendedor é menos cuidadoso. “No domingo você encontra. Vem aqui e fala comigo, que eu te mostro quem é o cara”, fala.

A primeira delegacia especializada em meio ambiente do Piauí foi fundada há apenas dois meses. A delegada Bruna Verana afirma que os primeiros trabalhos são de conscientização e divulgação. “É um crime cultural, mas a gente orienta a população. Além do impacto ambiental, os animais silvestres transmitem doenças. É também uma questão de saúde pública”, comenta.

Tráfico

Tráfico de animais silvestres é crime e a pena varia de seis meses a um ano. A multa é de R$ 500 para cada animal encontrado, e de R$ 5 mil para cada animal presente na lista de ameaçados de extinção. “A gente também orienta a população que entregue os animais para o Ibama, de forma voluntária. Se devolver não é crime, mas se a gente fizer o resgate a partir de uma denúncia, é”, disse a delegada.

Este tipo de crime acontece desde o descobrimento do Brasil, como destaca o superintendente Rômulo Pedrosa, chefe da divisão técnica do Ibama. “O primeiro caso foi registrado em 1500. Quando os europeus chegaram aqui, se deslumbraram com os animais coloridos, diferentes, e levaram para seus países. Isso acabou se tornando, com o passar dos anos, uma falsa cultura de que é saudável ter um animal silvestre em casa”, contextualiza.

As principais vítimas desse crime são as aves, por serem mais fáceis de transportar e vender. Entre as espécies da fauna piauiense que são mais encontradas em poder traficantes estão as araras, os papagaios, as jandaias, o xexéu, o chico preto, o curió, o sabiá.

Além dos pássaros, jabutis, macacos e tatus também são sequestrados de seus habitats para serem comercializados. “Pelas nossas ações, existe uma preferência pelos pássaros de canto, como curió, e pelo papagaio, por que imita a voz humana. Mas o canto de um pássaro engaiolado não é um canto de alegria, é um canto de tristeza”, disse Rômulo.

Os animais retirados da natureza são transportados de forma cruel e até 90% dos pássaros morrem antes de alcançar o destino. Quando sobrevivem, são vendidos de forma ilegal e escondida. Muitos são transportados entre estados do Brasil e até mesmo para o exterior, onde um papagaio pode ser vendido por valores altos, que atingem a casa dos milhares de reais.

Na rua Firmino Pires, a venda de animais ameaçados de extinção acontece aos finais de semana
Na rua Firmino Pires, a venda de animais ameaçados de extinção acontece aos finais de semana. (Foto: Assis Fernandes/O Dia)

Há casos até de animais usados como moeda de troca para a compra de drogas em bocas de fumo. O comércio de animais, em escala global, é a terceira atividade ilícita que mais movimenta dinheiro, atrás apenas do tráfico de drogas e do tráfico de armas.

Além do sofrimento imposto para os animais, o tráfico também gera impactos para o meio ambiente. Uma espécie retirada de uma região deixa de praticar seu papel na natureza. Ao espalhar sementes por onde passam, os pássaros fazem a arborização natural das florestas.

A extinção de uma espécie de pássaros pode, por exemplo, gerar o fim de uma espécie de árvore. “Impacto não é só o pássaro ou o animal que está engaiolado, enjaulado, ou indo para a panela. São impactos em cadeia, que passam despercebidos”, comenta Rômulo Pedrosa.

Sofrimento

Ao comentar a crueldade que os pássaros traficados sofrem, Lacerda relembra a letra de “Assum Preto”, do compositor pernambucano Luís Gonzaga: “Talvez por ignorância / Ou maldade das piores / Furaram os olhos do Assum Preto / Pra ele assim, ai, cantar melhor”.

Alguns pássaros, segundo Lacerda, têm os olhos expostos à luz forte e direta, até ficarem cegos, para que sejam incapazes de fugir. Outros são feridos para que sejam transportados sem fazer barulho. Lacerda lembra um caso em que muitas aves foram enroladas em jornais molhados de éter para que ficassem anestesiadas. Todas chegaram mortas.

Recuperação

Quando são resgatadas, o primeiro destino é o Cetas, que possui corredores de voo. São viveiros compridos, onde alguns animais ficam para recuperar a capacidade de voar e de se relacionar com outros pássaros. Animais que são engaiolados ficam com as asas atrofiadas e precisam de até dois anos em tratamento para conseguir recuperar os movimentos. “Eles recuperam também a questão social, já que são animais que vivem em grupo. Já tivemos até um acasalamento, o que é muito raro”, conta Lacerda.

Quando estão aptos a serem soltos, os pássaros são enviados para locais específicos, onde exista uma espécie determinada. Se forem soltas em um local onde ele não são capazes de se adaptarem, as aves podem ser mortas ou mesmo matar outras espécies, causando desequilíbrio no ambiente.

Por conta desse critério, muitos animais salvos no Piauí, mas que são de outras regiões, têm de ser “repatriados” para seus estados de origem e vice-versa. Recentemente, papagaios encontrados em estados do Sul do país foram enviados pelo Ibama local de volta para o Piauí e estão em tratamento.

Apesar do cenário de sofrimento, é nos corredores de voo que mora a esperança dentro do Cetas. Na última semana, cerca de 10 papagaios concluíram seus tratamentos e foram soltos pelos fiscais do Ibama. Há casos, ainda, em que os animais são encontrados em bom estado de saúde e podem ser soltos logo.

Lacerda relembra um caso recente, em que cerca de 2600 pássaros foram salvos pela Polícia Rodoviária Federal na cidade de Floriano. “Haviam sido pegos há uns quatro dias, todos ainda em estado saudável. Observei os animais, uns ainda estavam trocando penas. Havia caixotes com 50 animais. Só soltamos eles e saíram todos voando”, comemora.

Fonte: Portal O Dia

 

 

 

 


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