O vegetarianismo de Sadegh Hedayat, expoente da literatura moderna persa

“Até quando vamos fechar os olhos diante de tanta barbárie?”

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13/09/2017 às 11:00
Por David Arioch

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Hedayat: “Mesmo que matar pareça ‘útil’ para os seres humanos, que alegria poderia haver em torturá-los?” Foto: The Sadegh Hedayat Foundation

Em 1924, o escritor iraniano Sadegh Hedayat, expoente da literatura moderna persa, publicou o livro Ensān o ḥaywān (Homens e Animais), em que faz críticas ao comportamento especista humano. Três anos depois, lançou o livro Fawāyed-e giāh-ḵᵛāri (Os Benefícios do Vegetarianismo).

A obra que discute os direitos animais teve grande repercussão, inclusive na Europa, logo depois de sair em versão alemã e inglesa. O que levou o escritor iraniano a tornar-se vegetariano e a abordar o tema em sua literatura foi o fato dele ter testemunhado o brutal abate de um camelo.

Em 1936, Hedayat publicou Boof-e koor (A Coruja Cega), considerada sua grande obra-prima. No livro, lançado originalmente em Bombaim, na Índia, ele faz referências ao budismo e ao hinduísmo, o que gerou muitas controvérsias no Irã. No entanto, o aspecto mais intrigante do livro é a morte enquanto tema. Na história, o protagonista faz confissões às sombras que imitam as formas de uma coruja em uma parede.

“A presença da morte aniquila tudo que é imaginário. Somos a prole da morte e a morte nos livra das atrações tentadoras e fraudulentas da vida. É a morte que nos acena das profundezas da vida. Se às vezes chegamos a uma parada, o fazemos para ouvir o chamado da morte. Ao longo de nossas vidas, o dedo da morte aponta para nós”, escreveu em A Coruja Cega.

No conto persa Sag-e Velgard (O Cão de Rua), publicado em 1942, Hedayat, considerado o pai do vegetarianismo moderno no Irã, apresenta uma versão ficcional do livro ensaístico Homens e Animais. Na obra, faz críticas contundentes à crueldade humana e a naturalização da violência:

“No Irã, o burro nasce para trabalhar e ser torturado. O cachorro é assassinado em nome de Deus. O gato é lançado dentro de um poço e o rato é enterrado vivo nas vias públicas. Mesmo que matar pareça ‘útil’ para os seres humanos, que alegria poderia haver em torturá-los? Até quando vamos fechar os olhos diante de tanta barbárie?

Em frente à padaria, o assistente de padeiro batia no cachorro. Em frente aos açougueiros, o jovem ajudante arremessava tijolos. Tentando se esconder debaixo de um automóvel, o animal foi saudado pelas pesadas botas do motorista.

E quando todos os outros se cansaram de machucá-lo, foi a vez do garoto que vendia pudim de arroz feri-lo com especial satisfação. Ele continuava lançando tijolos em suas costas e, conforme o cãozinho gemia, ele ria em voz alta e gritava: ‘Seu pequeno bastardo!’ Todos eles espancaram o cachorro em nome de Deus.”

Referências

Encyclopaedia Iranica. Hedayat, Sadeq i. Life and Work (2003).

Hedayat, Sadeq. The Blind Owl. l-Aleph (2011).

Hedayat, Sadeq. Sag-e Vilgard. Negah; 2nd edition (2004).

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