Negócios veganos ganham mercado no Rio de Janeiro


Recado do documentário americano What the Health, lançado em março na Netflix, é claro. Em pouco mais de uma hora e meia, o filme mostra um cenário assustador a respeito dos males causados pelo consumo de carnes, ovos e laticínios. No estilo alarmista de Michael Moore (Fahrenheit 11 de Setembro e Tiros em Columbine), os diretores Kip Anderson e Keegan Kuhn, que já haviam realizado Cowspiracy em 2014, um libelo contra a indústria pecuária, associam a ingestão desses alimentos a doenças como diabetes, obesidade e câncer. Sempre ouvindo especialistas veganos, a dupla conduz o espectador a conclusões aterradoras, como “comer ovo é mais prejudicial à saúde do que fumar”. Ou à constatação de que a caseína, substância presente nos queijos, teria sobre os humanos o mesmo efeito da heroína. Não deu outra. Os argumentos do filme tornaram-se importante bandeira a favor do movimento vegano, que combate a exploração animal para qualquer fim.

(What The Health//Reprodução)

“As redes sociais têm ajudado a reverberar o respeito pelos animais e as notícias de maus-tratos na indústria alimentícia. E filmes como esses dão força ao movimento ao expor, de um lado, as barbáries da pecuária e, de outro, os benefícios à saúde da adoção de uma dieta estritamente vegetal”, afirma Ricardo Laurino, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira.

O fato é que uma parcela cada vez mais significativa da população tem se interessado por esse estilo de vida: estima-se que já existam 5 milhões de veganos no Brasil. Pesquisa realizada em janeiro deste ano constatou ainda que 63% dos brasileiros pensam em reduzir o consumo de carne — e 73% se sentem mal informados sobre como ela é produzida. Enquanto isso, o volume de buscas pelo termo “vegano” no Google cresceu 1 000% no país entre 2012 e 2016.

(Veja Rio//Negócios veganos ganham mercado no Rio/Divulgação)

Simpatizantes da causa ou apenas atentos à demanda crescente, pequenos e médios empresários vêm investindo alto nesse promissor nicho de mercado, que, calcula-se, cresce 40% ao ano. Segundo o SindRio, sindicato de bares, hotéis e restaurantes, dos mais de cinquenta estabelecimentos voltados para esse público em funcionamento no Rio, trinta foram inaugurados nos últimos três anos e prosperam mesmo em meio à crise. É o caso do ORG Bistrô, que, aberto em 2011, há três meses dobrou o tamanho do salão para acomodar a clientela. “As filas de espera chegavam a duas horas aos sábados”, comenta a chef e proprietária Tati Lund, formada pelo Natural Gourmet Institute, nos Estados Unidos, e convertida ao vegetarianismo desde 2000.

No segmento da alimentação, principalmente, não faltam bons exemplos de como o veganismo está em franca expansão no Rio. Pioneira no ramo de hambúrgueres sem carne, a rede carioca Hareburger está adaptando todo o seu cardápio ao conceito vegano, abolindo também queijo, leite e mel. “Ao longo dos anos, os itens sem nenhuma proteína de origem animal foram ganhando mais espaço. Foi uma evolução natural”, afirma o sócio-diretor Marcos Leite, ex-executivo da Mundo Verde, que começa a adotar o modelo nas casas cariocas nos próximos meses e calcula para a rede um faturamento de 11 milhões de reais em 2017. Seu plano é chegar ao fim de 2018 com trinta lojas.

O Açougue Vegano, há apenas sete meses no Shopping Uptown, na Barra, contabiliza 300% de crescimento e é recordista de vendas na House of Food, cozinha colaborativa da loja multimarcas Void. Em um único dia de participação no projeto, vendeu 16 000 reais em quitutes à base de vegetais, batendo até o picadinho de outro convidado prestigiado — Batista, fiel escudeiro do chef Claude Troisgros. “Nosso esforço é para manter os produtos com preço e sabor equivalentes aos de proteína animal”, conta Celso Fortes, sócio da empresa, que, aliás, marca presença no Rock in Rio com sua coxinha de jaca, um dos carros-chefes. Em outubro, a marca chega a São Paulo, em novembro ganha uma filial na Zona Sul e já se acumulam 140 pedidos de franquias pelo Brasil. “Eu acho que o veganismo vai se tornar a principal fonte de alimentação no mundo. O que faltava eram opções saborosas”, acredita Fortes.

(Foto: Ana Branco / divulgação)

Papo de comerciante? Nem tanto. A projeção da Lux Research, empresa americana de pesquisa, é que, em até 37 anos, um terço das proteínas consumidas no mundo seja de origem vegetal. A Nutrikéo, instituição francesa de consultoria em estratégias alimentares, calcula que o setor vai movimentar mais de 35 bilhões de reais em 2018.

Enquanto os negócios crescem, um mundo se abre aos que desejam experimentar esse estilo de vida. Além de estabelecimentos de comida, começam a se multiplicar as feiras de arte, moda e gastronomia de temática vegana. A Veg Borá desde julho de 2016 faz edições mensais que atraem até os mais ferrenhos carnívoros. Na próxima Feira Vida Liberta, no sábado (23) e no domingo (24), o Downtown, na Barra, vai abrigar quarenta expositores de comida, roupas, acessórios e cosméticos. Vem aí ainda o iFood dos veganos: criado em Curitiba, o aplicativo Be Veg deve entrar em operação no Rio no ano que vem.

(Foto: Veja Rio//Negócios veganos ganham mercado no Rio/Divulgação)

Segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira, o número de pedidos de certificação de produtos veganos no Rio saltou de dez, em 2014, para 145 no ano passado e deve aumentar ainda mais em 2017. Fundada em março, a Face It, especializada em batons, é a novidade desta temporada. “Eu e minha mãe começamos a pensar numa marca de cosméticos naturais sem chumbo nem mercúrio. Pesquisando, ficamos apavoradas com os testes em animais”, conta Julia Barroso, 36 anos. Foi quando conheceram o laboratório Labphyto, na Itália, que utiliza extratos vegetais e minerais. Elas vendem, em média, 200 unidades por mês da maquiagem cruelty free (livre de crueldade, em português), sem componentes como mel e colágeno. Com faturamento de 55 000 reais, a dupla tem na clientela nomes ilustres como o maquiador Fernando Torquatto e as apresentadoras Julia Petit e Astrid Fontenelle.

Esse estilo de vida está se popularizando tanto pela cidade que já existe até uma região recém-batizada de “quadrilátero vegano”. O point está em Ipanema, nos arredores da Rua Aníbal de Mendonça, onde se instalou a loja de roupas Svetlana, da estilista Mariana Iacia. Depois de quase largar a moda, incomodada com o uso de couro por grifes como Jean Paul Gaultier e Moschino, ela foi parar no ateliê da estilista Stella McCartney, nome forte da moda vegana. Seu endereço fica pertinho de dois estabelecimentos que adotam a filosofia a favor dos animais, o bar Teva e a matriz carioca da rede Empório Veganza, com 500 itens, de produtos de limpeza e higiene pessoal a petiscos, queijos e sorvetes. Há um ano no bairro, a marca, depois de ter sido convidada, abriu, na última semana, uma loja maior no BarraShopping.

(Foto: Ana Fischer//Divulgação)

A história do veganismo remonta ao tempo do filósofo e matemático grego Pitágoras e do líder espiritual Siddhartha Gautama, o Buda, em torno de 500 a.C., ambos adeptos da alimentação sem carnes. De acordo com a The Vegan Society, a primeira instituição do gênero, criada por Donald Watson em Londres, em 1944, o tema começou a ganhar o mundo quando médicos e especialistas passaram a se opor publicamente ao consumo de ovos e laticínios. O movimento organizado teria começado quando o fundador da instituição se uniu a outros vegetarianos que desejavam retirar os alimentos lácteos da dieta com o propósito de tornar a relação do homem com os animais mais digna, sem exploração. Na ocasião, foi criado o termo vegan, que tem como premissa não fazer mal aos bichos, domésticos ou não, seja matar bois para produzir bifes, desmamar um bezerro para tirar o leite da mãe ou estressar abelhas na retirada do mel. E isso vale não só para a alimentação. “O veganismo é uma decisão filosófica que se estende para qualquer profissão”, diz Pablo Henrique, do Inglórios Tattoo, em Ipanema. Todo o material usado pelo artista também é cruelty free. Sim, as tintas para tatuagem podem conter ossos torrados de animais (para dar o pigmento preto), glicerina (gordura animal) e gelatina de besouros. E as loções para cuidado posterior costumam levar lanolina (extraída da lã de ovelhas), cera de abelha e até óleo de fígado de bacalhau.

O estereótipo associado aos hippies da década de 60 não faz mais sentido. De roqueiros a atletas, de adolescentes a senhores de idade, variadas tribos adotam esse estilo de vida. Aos 19 anos, Giulia Gayoso, que fez sucesso em Malhação e grava a nova novela das 6, na Globo, Tempo de Amar, é vegana convicta. “Sempre fui muito ligada a essas questões, mas a ficha caiu quando assisti a um filme sobre o impacto da indústria pecuária e leiteira no meio ambiente”, lembra a atriz, que não usa roupas de lã, couro ou seda, nem produtos testados em animais.

Até atletas de alta performance, indivíduos com a maior exigência nutricional do mundo, têm se destacado em suas áreas e provado que veganismo e saúde podem andar juntos. Levantador de peso americano que quebrou o recorde em sua modalidade na Rio 2016, Kendrick Ferris gabou-se, logo após a prova, de seu preparo físico. “Apenas escolho muito bem a minha comida”, disse.

Médicos, mesmo os consumidores de carne, concordam que, com acompanhamento, é possível, sim, levar uma vida 100% vegana e sadia. “Por meio de ingestão calórica adequada, as necessidades são supridas com proteínas vegetais”, diz Rosana Radominski, vice-presidente do Departamento de Obesidade da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia. Equilíbrio e bom-senso, portanto, ainda parecem ser as melhores maneiras de manter-se saudável.

Fonte: Veja Rio


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