SOPHIA NGUYEN

O crescimento da cultura vegana

Distantes são os dias de Anne Hall, quando Woody Allen recusou um prato de brotos de alfafa e fermento. Com o decorrer dos anos, os alimentos veganos passaram de comidas insossas para o mainstream

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24/06/2017 às 15:30
Por Redação

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Um sinal dos tempos: em 2016, a Tyson Foods, a maior processadora de carnes dos Estados Unidos, comprou uma participação de 5% da empresa de proteínas vegetais, Beyond Meat.

Ilustração mostra diversas facetas do veganismo

Ilustração Jungyeon Roh

Não mais retratado com associações a cozinheiros hippies ou políticos radicais, o veganismo ascendeu a um plano de ambições de vida. Hoje famosos como Tom Brady e Beyoncé possuem uma alimentação vegana.

A estudante de graduação em sociologia, Nina Gheihman, está pesquisando os aspectos sociais da propagação do veganismo. O veganismo, primeiramente, era associado intimamente à ideologia do movimento dos direitos animais. Ela explica que antes o movimento visava uma variedade de alvos, como a indústria da pele e testes em animais.

Quando os ativistas mudaram o foco para condições de fazendas e a alimentação, o veganismo assumiu o que os estudantes chamam de “movimento de estilo de vida”.

Ao longo do tempo, se tornou ainda mais associado com as preocupações gerais com o meio ambiente e com a saúde. O surgimento de números confiáveis de quantas pessoas se identificam como veganas é difícil, diz Gheihman, mas um número crescente de pessoas adota o veganismo.

Cientistas sociais estudaram o veganismo e suas relações com o ativismo pelos direitos animais, mas há menos pesquisas sobre os mecanismos e estrutura do estilo de vida atual. Gheihman tem interesse especialmente em analisar as figuras de destaque que ela, provisoriamente, chamou de “advogados do estilo de vida”, argumentando que eles mudaram a natureza do ativismo.

Eles normalmente são de áreas normalmente não associadas ao ativismo, ela diz, e são especialmente empreendedores. O “trabalho cultural” que fazem não é estritamente definido pelas suas ocupações oficiais. Esse trabalho expandiu o veganismo além do seu núcleo ideológico, permitindo que uma grande variedade de pessoas participe mesmo que não sigam todos os aspectos e princípios do veganismo.

Gheihman classifica essas pessoas em três categorias. algumas defensoras do estilo de vida criam oportunidades para o consumo – por exemplo, começando um serviço de alimentos veganos, abrindo um restaurante ou armazenando proteínas vegetais nas suas mercearias.

Outro grupo trabalha no que ela chama de “produção de conhecimento”, produzindo pesquisas educacionais – filmes, livros e postagens em blogs – que as pessoas usam para compartilhar dicas e conselhos culinários ou para persuadir outras a mudarem suas dietas.

O terceiro, e o mais abstrato, é o tipo de advocacia que ela chama de “produção significativa”, ou “trabalho interpretativo”. Essas pessoas mudam a associação cultural atrelada ao veganismo: “a essência simbólica do que o veganismo significa”, como Gheihman coloca.

Gheihman planeja realizar uma pesquisa de campo com entrevistas para examinar a evolução do veganismo em dois outros contextos nacionais. O primeiro é a França, “o lugar óbvio para estudar um movimento alimentício porque isso é muito central para as noções que possuímos do que faz um alimento ser bom ou adequado”.

A culinária  do país pode parecer inimiga do queijo de caju ou à aquafaba como um substituto do ovo, mas a estrutura hierárquica da sua cultura alimentar poderia pavimentar o caminho para uma mudança dramática. Nos últimos anos, os chefes de culinária gourmet, atendendo a uma clientela internacional de ponta, tiveram que experimentar menus veganos.

Sua influência foi ampliada por uma rede de blogs de comidas veganas e autores de livros culinários – mesmo que outras instituições resistam à propagação desse estilo de vida. Segundo Gheihman, o Ministério da Saúde da França diz que o vegetarianismo resultara em deficiências nutricionais e riscos de saúde em longo prazo e os padrões nutricionais do governo para as cafeterias escolares exigem um laticínio em cada refeição.

O segundo caso é Israel, onde estimativas apontam que em torno de 5% da população é vegana.  Tel Aviv ganhou a reputação de ser uma das capitais veganas do mundo. A Força de Defesa Israelense fornece cardápios livres de produtos animais e botas e capacetes sem couro para soldados veganos. Além dos números, Israel representa um interessante exemplo contrastante, explica Gheihman.

Isso ocorre em parte porque o veganismo permanece firmemente enraizado nas preocupações com os direitos animais e é praticado no espectro político e religioso. Ela também está interessada em como o estilo de vida vegano evoluiu dentro do contexto cultural de Israel, apoiado pelo simbolismo nacional sobre o uso da terra e da água, e com as tradições agrícolas do país e a dieta Mediterrânea.

O estilo de vida vegano de Gheihman, entretanto, vai muito além do seu prato individual. Ela está envolvida com o Conselho de Sustentabilidade, a Sociedade Vegana de Harvard, a Conferência Vegana da Ivy League e o Boston Plant-Based Millennials, que realiza reuniões mensalmente.

* Texto publicado na Harvard Magazine e traduzido por Andressa Aricieri

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