SAMITA NANDY

Crítica cultural estuda como celebridades ajudam a promover os direitos animais

A canadense Samita Nandy é uma autora e crítica acadêmica que estuda a relação entre celebridades e o ativismo em diversos setores, incluindo o movimento pelos direitos animais

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19/06/2017 às 20:00
Por Aline Khouri

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Samita Nandy

Arquivo Pessoal

Ela é diretora do Centro de Estudos de Mídia e Celebridades (CMCS) e autora da obra “Fama em Hollywood North: um guia teórico para culturas de celebridades no Canadá”, publicada em 2015. Nesta entrevista exclusiva à ANDA, Samita comenta como as celebridades podem ajudar na luta pelos direitos animais, além de discutir a relação entre sexismo e especismo em Hollywood.

ANDA: Como foi que você decidiu estudar a indústria de celebridades? O que te instigou a pesquisar esse assunto?

Samita Nandy – O meu interesse pela indústria das celebridades veio da minha amada mãe, Saswati Nandy, que tinha um mestrado e recebeu uma oferta para ser a atriz principal de um filme bengali. Porém, ela não conseguiu prosseguir com a carreira de atuação devido à repressão sexista em sua vida familiar precoce e perdeu a própria vida enquanto eu fazia meu mestrado. Eu queria dar uma voz à minha mãe e a questões culturais, como a representação cultural do corpo das mulheres no cinema. Em um esforço para mapear os processos de fama e implicações de práticas específicas baseadas na fama, recebi duas bolsas de tempo integral avaliadas em US$ 120 mil e completei minha pesquisa de doutorado em cultura de celebridades.

ANDA: Qual é a sua análise sobre a relação das celebridades com os direitos animais? De que forma elas podem  contribuir com o movimento?

Samita Nandy – Muitas celebridades são ativistas que apoiam os direitos animais entre outros movimentos de justiça social. Da mesma forma, muitos ativistas tornam-se famosos por seus esforços heroicos em libertar animais de atos sociais opressivos. Embora o ativismo de celebridades, como a fama, seja um conjunto de práticas da mídia, ele não se limita a personalidades da mídia que defendem uma causa. Na realidade, os ativistas podem se tornar muito reconhecidos devido ao apelo global de seu trabalho. Em todos os casos, a relação entre celebridades e direitos animais é em grande parte um efeito de alcance consistente e promoção nas relações com a mídia. A representação efetiva de sua personalidade enquanto defende a causa pode ser uma contribuição valiosa para o movimento.

ANDA: Em seu texto “Persona, Celebridade e Selfies na Justiça Social: Autenticidade no Ativismo de Celebridades”, você comenta sobre indicador de valores. Nesse sentido, uma pessoa engajada na luta por justiça ganha um determinado status associado a sua imagem. Como as pessoas verdadeiramente engajadas na causa animal devem lidar com as celebridades que simulam essa  preocupação apenas para ganhar esse status? O que pode ser feito?

Samita Nandy – As pessoas podem responder às celebridades ativistas de uma forma positiva para o movimento dos direitos  animais. Há uma ampla oportunidade para republicar os pontos de vista das celebridades e compartilhar questões que promovam a conscientização nas redes sociais. Na verdade, os usuários da vida cotidiana podem se tornar famosos heróis e celebridades. A participação cidadã tem sido vista como criticamente essencial nos processos democráticos de produção, distribuição e recepção de causas sociais. A mídia participativa online, como os blogs, oferece uma plataforma democrática para a expressão de ideias alternativas que muitas vezes são filtradas no jornalismo tradicional. Os jornalistas cidadãos, as celebridades ativistas e os fãs, no entanto, precisam de uma análise midiática crítica que muitas vezes é obscurecida pela necessidade de visibilidade na fama.

ANDA: E quanto às informações equivocadas sobre veganismo que são difundidas por famosos? Elas não contribuem muitas vezes para o bem-estarismo ao invés da luta abolicionista?

Samita Nandy – Acredito que as celebridades, como todas as outras pessoas, estão sujeitas a condições sociais e informações equivocadas. A causa e a luta ocorrem em condições muito desafiadoras. É possível que as celebridades contribuam para o especismo. Por exemplo, uma celebridade vegana pode endossar peles ou cosméticos que são testados em animais. No entanto, os fãs não devem confiar em celebridades e mudar suas responsabilidades éticas ao idolatrá-las. Aprender sobre os direitos animais é um processo contínuo e não se limita a celebridades. Em vez disso, precisamos nos concentrar no sistema educacional geral para divulgar informações apropriadas sobre veganismo.

ANDA: Qual é o papel das selfies em promover os direitos animais?

Samita Nandy – As selfies, entre outras práticas visuais, oferecem oportunidades valiosas para a autorreflexão, sendo um exemplo vivo de mudança e promoção dos direitos animais. O uso de hashtags relevantes e pontos de vista distintos são importantes para aumentar a conscientização sobre os animais. Os seres humanos podem ser efetivamente utilizados sem cair no risco do narcisismo que possa estar envolvido nisso.

ANDA: Em outro de seus textos, você discute sexismo, especismo e Hollywood. Que relação existe entre esses temas?

Samita Nandy –  Um relatório da University of Southern California argumenta que as mulheres tinham mais do que o triplo de probabilidades de serem mostradas parcialmente nuas ou em roupas sexualmente reveladoras do que os seus homólogos masculinos nos filmes de Hollywood. Apesar da pesquisa em curso, as práticas sexistas continuam na indústria cinematográfica de Hollywood. Precisamos implementar práticas éticas com a ajuda do pensamento crítico, que é a essência da pesquisa. Uso uma perspectiva intersetorial e aponto, com base na “Política Sexual de Carne” de Carol Adams, que o sexismo e o especismo têm as mesmas raízes da opressão patriarcal. A menos que usemos o feminismo interseccional e resistamos à violência contra todas as mulheres, as mulheres não estarão apenas sub-representadas, mas também serão animalizadas. Do mesmo modo, as partes e produtos reprodutivos femininos (por exemplo, ovos e leite) continuarão a ser glamourizados e consumidos como resultado de hábitos mal informados – não necessariamente para a saúde e a ética. Não podemos pretender defender a igualdade sexual enquanto pagamos por práticas mais complexas. Hollywood oferece espaços culturais dominantes onde a igualdade sexual pode ser explorada de forma interseccional.

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