KALISLEI ROSINSKI

Jornalista brasileira denuncia exploração de vacas pela indústria de laticínios na Índia

A jornalista e professora de yoga brasileira Kalislei Rosinski entrou em choque quando se deparou com a relação entre os indianos e as vacas, consideradas sagradas no país. Embora a...

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22/05/2017 às 19:30
Por Redação

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Kalislei Rosinski

Arquivo Pessoal

A jornalista e professora de yoga brasileira Kalislei Rosinski entrou em choque quando se deparou com a relação entre os indianos e as vacas, consideradas sagradas no país. Embora a população da Índia seja conhecida por não consumir carne de vaca, os animais são intensamente explorados pela indústria de laticínios.

Esse cenário extremamente contraditório despertou o interesse de Kalislei, que juntamente com o indiano Shubhranshu Chandhary, decidiu produzir um documentário para denunciar os abusos enfrentados pelas vacas no país. Chamado “The Holy Cow” (A vaca sagrada), o filme está em fase de produção e pretende conscientizar as pessoas sobre essa árdua realidade. Nesta entrevista exclusiva à ANDA, Kalislei analisa os hábitos de consumo dos indianos e comenta um pouco mais sobre a filmagem.

ANDA: Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre a exploração das vacas e qual é o seu objetivo?

Kalislei Rosinski – Sou jornalista e documentários sempre me fascinaram, sempre quis fazer um projeto áudio visual que pudesse transformar, além de levar consciência para as pessoas. A ideia desse documentário surgiu em agosto de 2016 depois de eu tentar explicar exaustivamente o veganismo na Índia. Parecia um conceito absurdo para eles, algo que não condizia com a realidade da Índia, visto que aqui, de acordo com a crença popular, a vaca não é maltratada, ela faz parte da família por ser considerada sagrada por hindus, sikhs e jainistas. Porém, quando o meu amigo cineasta indiano Shubhranshu Chaudhary decidiu assistir a alguns documentários e fazer sua própria pesquisa ele se convenceu de um dia para o outro que ser vegano era o mais correto eticamente: pelos animais, pelo planeta, pela própria saúde física e espiritual. O cenário mudou. Decidimos unir forças para criar um conteúdo inédito na Índia. A ideia inicial era fazer um vídeo de cinco ou 10 minutos, mas conforme pesquisamos, descobrimos que não era suficiente. Começamos a aumentar o tamanho do projeto e a pensar que deveríamos mostrar outras partes da Índia.

ANDA: Por que você escolheu retratar a indústria de laticínios especificamente na Índia?

Kalislei Rosinski – Nós temos alguns conceitos muito errados sobre a Índia. Alguns acreditam que é um país muito espiritualizado, onde todos meditam e praticam yoga e outros pensam que é somente um país pobre, com várias vacas na rua. Essa é a visão de muitos brasileiros com quem conversei. Se existisse um paraíso para os animais na Terra, seria a Índia. Eu vim para cá acreditando nisso, principalmente pela questão da vaca. Como é considerada sagrada, deveria receber um bom tratamento. Quando comecei a falar sobre a questão do leite, os indianos falaram “Aqui não tem problema, aqui você pode consumir os derivados porque a vaca não é maltratada, é bem tratada. A vaca faz parte da família”. Fiquei confusa com essa história. No primeiro dia em que cheguei, vi uma vaca comendo lixo na rua e isso me tocou muito. Isso me instigou a pesquisar mais e entender mais essa questão na Índia para retratar a hipocrisia ou a cegueira das pessoas de não enxergar a realidade dessa indústria.

ANDA: O título do seu documentário é irônico, já que ele expõe as crueldades impostas às vacas abusadas pela indústria de laticínios na Índia. Em sua opinião, os indianos percebem essa relação contraditória ou pensam sobre ela?

Kalislei Rosinski – Acredito que a maioria não está consciente dos bastidores da indústria do leite. Primeiro porque antigamente a vaca era tratada um pouco melhor, ficava livre, não existia inseminação artificial e quando ela tinha um bezerro, teoricamente o bezerro tomava o leite e o que sobrava era usado para pessoas doentes ou rituais religiosos. O leite era tratado como uma medicina. Os indianos acreditam que a vaca vive em harmonia com as famílias, vive livre e solta e que não existe inseminação artificial e ingestão de hormônios. Quando você fala isso para eles, dizem que isso não ocorre na Índia. As vacas são vistas comendo lixo na rua e as pessoas também não se importam com isso, o que é uma contradição. O que escutei de muitas pessoas é que o indiano fica imune a esse tipo de coisa, é como uma cegueira. Acho que é uma mistura de um pouco de ignorância e um pouco de fechar os olhos para a realidade.

ANDA: Se estendermos essa análise para os abusos de animais em geral, podemos questionar a preferência mundial por alguns animais em detrimento de outros que são vistos como mercadorias, alimentos etc. O que você acha desse paradoxo e de que forma o ativismo pode atuar para solucioná-lo?

Kalislei Rosinski – Acho que tudo é uma questão de cultura e, mais do que cultura, é uma questão de tradições de determinados lugares. Em alguns lugares, alguns animais são considerados como animais domésticos. Em outros, esse mesmo animal é considerado como alimento. Em outros lugares, esses animais são considerados sagrados. Cada lugar tem uma maneira diferente de lidar com os animais e muitas vezes há muita conexão com a religião. Por exemplo, não é só na China que as pessoas comem carne de cachorro. Até mesmo na Índia e em alguns lugares do norte, na Ásia, há também esse consumo. No Brasil, come-se carne de vaca e, na maioria dos lugares do ocidente, a vaca é um alimento. Na Índia, apesar de ter toda essa questão de exploração relacionada ao leite, ainda existe a visão de que a vaca é sagrada. Em somente dois ou três estados indianos há matadouros legalizados que permitem que a vaca seja morta quando não é mais usada para a produção de leite.

Há muitos casos de pessoas – que são os vigilantes de vacas- que param caminhões que transportam vacas para matadouros. Existem pessoas na Índia que matam outras que se alimentam de vacas, só que elas não veem os maus-tratos por trás do consumo de leite. A vaca sofre durante anos, dia após dia, hora após hora para a produção de leite. A fazenda leiteira é muito mais cruel do que os matadouros. Acredito que o ativismo deve e faz um papel muito importante para tentar abrir os olhos das pessoas. Mais do que criar apenas uma consciência temos que ter o objetivo de transformar. Temos que colocar a energia correta quando fizermos qualquer tipo de ativismo mesmo que seja online, por meio da alimentação vegana, de um filme, uma foto, uma música, de qualquer coisa que seja. Temos que colocar uma energia de transformação e a energia de quem receber essa música ou qualquer coisa será tocada e transformada. O ativismo abre os olhos para aquilo que não somos ensinados na escola e nas nossas casas.

ANDA: A Índia é considerada uma referência no que diz respeito ao vegetarianismo. Como você analisa essa cultura? 

Kalislei Rosinski – Sim, a Índia e uma referencia no que diz respeito ao vegetarianismo, 30% da população se diz vegetariana segundo o censo do país, porém, há pouca conexão com o respeito aos animais, mas sim por questões religiosas. Ser vegetariano aqui é ligado à religião e a maioria dos vegetarianos apenas segue tradições familiares sem se questionar.

ANDA: Como brasileira, qual é a comparação que você faz sobre a exploração de animais no Brasil e na Índia? Que paralelos ou diferenças poderia apontar?

Kalislei Rosinski – Acreditávamos que o Brasil era o maior exportador de carne do mundo, porém a Índia já ultrapassou o Brasil e se tornou a número um. A Índia também possui a maior população de bois e vacas do mundo. O Brasil está em segundo lugar. A Índia tem 512 milhões de bois e vacas e o Brasil tem 220 milhões segundo um levantamento de 2015. Lembrando que isso não inclui os animais abandonados na rua, o que significa que a Índia tem mais do que o dobro em comparação ao Brasil, e se compararmos a área do Brasil e da Índia, podemos observar que podemos colocar duas Índias e meia no Brasil.

ANDA: Você acompanha ou acompanhou outros documentários que abordem direitos animais? Poderia citar alguns trabalhos que te inspirem?

Kalislei Rosinski – Claro. Tenho quatro documentários favoritos. “What The Health”, “Cowspiracy”, o clássico “Earthlings” (Terráqueos) e o brasileiro “A Carne é Fraca”. Todos esses quatro são fontes de inspiração e uma maneira simples e direta de abrir os olhos para tudo aquilo que nos foi ensinado como correto ao longo das nossas vidas.

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