Hoje tem marmelada? Não tem, não, senhor

A gente quase nunca vence. Geralmente, vence o dinheiro. Vence a politicagem. Vence o tempo - porque, na maioria das vezes, eles morrem antes que a gente possa sequer tentar....

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23/05/2017 às 11:00
Por Carol Zerbato

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Divulgação

A gente quase nunca vence.

Geralmente, vence o dinheiro. Vence a politicagem. Vence o tempo – porque, na maioria das vezes, eles morrem antes que a gente possa sequer tentar.

Dê pão e circo ao povo, pregava o Império Romano. Mas e se o povo não quiser mais o circo?

Foi o que, mesmo no auge de seus 146 anos, o maior circo do mundo não teve maturidade para compreender.

O maior. O mais rico. O mais famoso. O mais poderoso. O mais tradicional. E o menos disposto a se reinventar.

Sob a alegação de que foi “obrigado” a retirar os elefantes de seus shows em 2015, somada ao aumento dos custos de produção, o Ringling Bros. Circus, que sobreviveu à Depressão e a duas Guerras Mundiais, sucumbiu à própria incapacidade de repensar seu modelo de negócio: fez sua derradeira apresentação no último domingo, 21 de maio, com direito a streaming e cobertura de mídias de todo o mundo, como The New York Times, BBC e The Guardian, que prepararam encartes especiais, em clima de despedida do “maior espetáculo da Terra” – conceito pelo qual o circo ficou mundialmente conhecido.

Entretanto, convenhamos: antes mesmo de o ativismo pelos animais explorados pela indústria do entretenimento ganhar força, o maior espetáculo da Terra nunca foi lá o espetáculo mais ético da Terra. Principalmente no início. O primeiro circo a usar energia elétrica em seus shows fez seu nome exibindo pessoas e animais como produtos exóticos: gigantes da Islândia, mulheres da Patagônia, anões e até uma “sereia de Fiji” – que, na verdade, era um torso de macaco com uma cauda de peixe costurada.

Com o tempo, a exploração humana cessou, mas a animal, não. Os maus tratos às estrelas do Ringling Bros. começaram a ser investigados nos anos 2000, quando um vídeo da PETA (People Ethical Treatment of Animals) denunciou o abuso físico e psicológico sofrido pelos elefantes durante os treinamentos nos bastidores obscuros do maior circo do mundo.

Surras, chicotadas e choques elétricos faziam parte da rotina de “disciplina” dos animais, além da ameaça constante do bullhook – instrumento desenhado especialmente para o controle de elefantes, que consiste em um cabo de madeira, fibra de vibro, plástico ou metal com um gancho de aço na ponta, usado pelos treinadores para machucar e intimidar os animais, como um lembrete de que deveriam “se comportar bem”.

Depois de inúmeras manobras políticas e até uma absolvição nos tribunais americanos, o Ringling Bros. não resistiu à pressão e aposentou seus 13 elefantes no final de 2014. Decisão que, obviamente, levantava a recorrente dúvida: era o fim ou eram os meios?

Os meios, claro. Aposentando os elefantes, a marca ganhava um respiro moral – assim como quando o Sea World anunciou que colocaria fim ao seu sistema de reprodução de orcas em cativeiro. Já que a resolução era restrita aos equinodermos, nos planos da Feld Entertainment, administradora e detentora dos direitos do circo, e até nos nossos, como ativistas, o fim da exploração e dos maus tratos aos demais animais ainda estava distante. Certo? Nem tanto. A consciência veio a cavalo. A tigre. A leão. E a camelo. E, com a queda no número de visitantes, o mais poderoso circo do mundo se viu obrigado a deixar o picadeiro.

Em 2016, Nicholas Kristof, jornalista do The New York Times, escreveu: “é espantoso o quanto o mundo dos negócios está ficando sensível à opinião do público sobre os animais”.

Sim, está. E não é todo dia – na verdade, é quase nunca – que a gente vê o progresso moral adestrando o capitalismo com a mesma falta de piedade que os mais de 200 animais dos irmãos Ringling eram treinados.
Respeitável público, finalmente, o show acabou.

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