TÃO DO BICHO

Chefão do matadouro derruba presidente da república

Não se trata, porém, de um matadouro comum e sim da JBS, a maior processadora de proteína animal do mundo. Segundo o Meat Atlas [1], a empresa mata 85.000 bovinos,...

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29/05/2017 às 14:59
Por Paula Brügger

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Não se trata, porém, de um matadouro comum e sim da JBS, a maior processadora de proteína animal do mundo. Segundo o Meat Atlas [1], a empresa mata 85.000 bovinos, 70.00 porcos e 12 milhões de aves, todos os dias.

Desta feita, entretanto, não foi levado para o abate um animal indefeso. E, exatamente por não ser indefeso, o objeto de degola ainda resiste, apoiado por um verdadeiro império do mal cujos alicerces estão sobretudo em nosso parlamento corrupto e ultra conservador.

A brasileira JBS, cujo faturamento teve alta de 3.400% em uma década, foi a maior doadora para a última campanha presidencial e desvela agora uma faceta ainda mais sombria, maculada pela corrupção generalizada do parlamento, incluindo a compra de deputados [2].  Embora a Constituição Brasileira abrigue um princípio de não-retrocesso, o legislativo ignora tal preceito ao criar projetos de lei e até emendas à Constituição que destroem o meio ambiente e usurpam direitos humanos e animais que foram duramente conquistados ao longo de décadas [3]. O peso da bancada retrógrada (BoiBalaBíblia), e de empresas como a JBS, na aprovação desses lamentáveis episódios de legislatura em causa própria é evidente. E tal influência – que determina nos mais variados setores o destino do país – é obviamente sustentada pelos rios de dinheiro que singram pelos rios de sangue, suor, e lágrimas de animais desvalidos e trabalhadores com poucas possibilidades de escolha.

A JBS vem sendo denunciada, há tempo, por seus crimes contra trabalhadores de frigoríficos e por suas relações espúrias com o alto escalão da política nacional, além, é claro, das vantagens econômicas advindas de tais ligações políticas por parte do BNDES. Um trabalho pioneiro nesse sentido é o dossiê Moendo Gente [4].

Hoje, após investigações como a operação Carne Fraca, entre outras, e sobretudo após a delação premiada que deu origem ao título deste texto [5], venho me deparando com muitas mensagens incitando a um boicote à JBS.

Entendo perfeitamente as razões práticas e emocionais de tal boicote e, como vegana, não poderia deixar de concordar com a iniciativa. Entretanto, observo que muitas pessoas não estão dispostas a “cortar a/na carne”, literal e metaforicamente falando. Citam como alvo de boicote, por exemplo, as sandálias Havaianas – que, aliás, fazem parte de aquisições recentes do grupo – como se elas tivessem o mesmo peso de um ato de abolição da carne e de todos os outros produtos de origem animal, os quais foram e continuam sendo o principal sustentáculo da megaempresa. Entretanto, o mais patético é que a maioria das pessoas acena para um boicote das marcas ligadas à JBS, e não aos produtos de origem animal, em geral, como se o problema estivesse apenas em tais marcas e não nesse setor produtivo como um todo.

Outro fato estarrecedor, ligado a esse episódio de delação, é que muitas pessoas parecem estar mais preocupadas em punir o delator e não os delatados. Tenho presenciado muita insatisfação acerca do acordo celebrado entre a Procuradoria Geral da República e os irmãos Batista, principais executivos da JBS. Alega-se que a punição foi demasiadamente branda [6]. Essa é, porém, uma visão um tanto limitada do assunto. Primeiro, porque são desconhecidos os bastidores de tal acordo. É bem possível que essa tenha sido a única maneira de levar a cabo uma delação de tal importância. Por outro lado, penso ser excessivamente paternalista e ingênua a ideia de que o Estado é o único responsável pelo devir de um país. Aqui é impossível não lembrar da famosa frase proferida pelo presidente Kennedy (mas atribuída a outra pessoa; veja nota 7) “Não pergunte o que seu país pode fazer por você – pergunte o que você pode fazer pelo seu país”.

Encerro, portanto, fazendo um apelo em prol do livre arbítrio e do altruísmo, lembrando que o boicote ensaiado apenas agora, por motivos cujo mérito não nego, já deveria ter começado muito antes, por diversas outras razões. Entre elas figuram os mais de duzentos milhões de hectares de natureza destruídos neste país para dar lugar a pastagens e grãos, expulsando animais selvagens e povos indefesos de territórios que os sustentaram durante séculos, unicamente para satisfazer o paladar insaciável dos que não conseguem viver sem carne, ovos e laticínios. Devemos pensar naqueles (humanos e não-humanos) que são recebidos à bala e a golpes de facão por fazendeiros truculentos; nos animais torturados em cativeiros imundos e mortos em nome de índices de produtividade; na contaminação e depleção de rios e aquíferos; na disseminação de pesticidas e antibióticos; na perda de biodiversidade; na mudança climática; na desertificação; nos risco generalizado de epidemias de zoonoses…Sim, todas essas são facetas inextricavelmente ligadas ao agronegócio, aqui e em diversas outras partes do mundo. Que essas sejam as razões principais para um possível boicote a essa e outras empresas que constroem seus impérios às custas de cadáveres e da destruição das condições de vida no planeta.

O filósofo Gary Francione cunhou o termo “esquizofrenia moral” para designar os comportamentos tão comuns em nossa cultura de atribuir direitos a algumas espécies animais e não a outras. É o caso clássico de “amar” cães e comer porcos, animais igualmente inteligentes e sencientes, segundo atestam diversos estudos científicos [8].

Mas essa esquizofrenia moral também se manifesta no contexto intraespecífico do Homo sapiens quando se analisam, a partir de uma perspectiva holística, todos os elos envolvidos na macabra cadeia da atividade pecuária. Da mesma forma que discriminamos os vira-latas, e não estendemos considerações morais aos animais destinados ao abate, fechamos os olhos para os massacres que acontecem contra seres humanos como nós, indígenas, quilombolas, etc, como mencionado antes [9].

O discurso da sustentabilidade é atualmente repetido ad nauseam, mas os que nascem hoje – como os filhos e netos de alguns amigos – já herdam um planeta depauperado, um meio planeta, uma biosfera adoecida. Falta uma dimensão ética no tripé da sustentabilidade. E o especismo é um traço cultural essencial a ser abordado nessa discussão sobre a ética.

Notas:

[1]: Veja https://www.foeeurope.org/sites/default/files/publications/foee_hbf_meatatlas_jan2014.pdf; página 12

[2]: http://super.abril.com.br/sociedade/faturamento-da-jbs-aumentou-3-400-nos-ultimos-dez-anos/; http://www.otempo.com.br/capa/economia/jbs-foi-maior-doadora-eleitoral-em-2014-1.1449028;  http://g1.globo.com/politica/operacao-lava-jato/noticia/joesley-diz-que-deu-r-30-milhoes-para-cunha-comprar-deputados-na-eleicao-da-camara.ghtml

[3]: Dois exemplos recentes são http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2017-05/camara-aprova-mp-que-reduz-area-de-floresta-nacional-no-para; http://revistagloborural.globo.com/Noticias/Cultura/noticia/2017/02/pec-da-vaquejada-e-aprovada-no-senado.html

[4]: http://reporterbrasil.org.br/wp-content/uploads/2015/02/16.-moendo_gente_final.pdf

[5]: http://www1.folha.uol.com.br/especial/2017/operacao-carne-fraca/;

http://epoca.globo.com/politica/noticia/2017/05/joesley-batista-o-mais-perigoso-delator.html

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/05/1885414-leia-na-integra-a-conversa-entre-o-presidente-temer-e-joesley-batista.shtml

[6]: http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2017/05/acordo-de-perdao-judicial-dos-irmaos-batista-causa-indignacao-na-oab.html

[7]: http://www.dailymail.co.uk/news/article-2056020/JFK-stole-ask-country-speech-old-headmaster.html

[8]: http://www.labea.ufpr.br/portal/wp-content/uploads/2014/05/Declara%C3%A7%C3%A3o-de-Cambridge-sobre-Consci%C3%AAncia-Animal.pdf

[9]: https://www.brasildefato.com.br/2017/04/18/conflitos-aumentam-e-violencia-no-campo-bate-recorde-diz-comissao-pastoral-da-terra/

 

 

 

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