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Animal: a dívida da escola

A educação escolar é devedora para com os animais. Uma dívida silenciosa, acumulada ao longo do tempo e nem sempre consciente. Com a naturalização da condição da escravidão animal, ensinamos...

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23/05/2017 às 09:30
Por Aleluia Heringer

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Talvez haja outros conhecimentos a adquirir, outras interrogações a fazer hoje, partindo não do que outros souberam, mas do que eles ignoraram.
S. Moscovici

A educação escolar é devedora para com os animais. Uma dívida silenciosa, acumulada ao longo do tempo e nem sempre consciente. Com a naturalização da condição da escravidão animal, ensinamos a indiferença. Mas quando acontece? Em quais tempos e lugares? Em nosso silêncio, em nossa indiferença, no nada fazer, no nada dizer, nada perguntar e no nada estranhar. Repartimos o animal para não vê-lo em sua singularidade. Reproduzimo-los aos milhões e, nos números, tiramos deles um nome. Passam a ser peças, arrobas, toneladas, carcaças ou cifras da economia.

Levamos 388 anos no Brasil para entender que os negros escravizados eram irmãos e não propriedade, ainda assim, até hoje não conseguimos retirar a nódoa do tecido social que insiste no preconceito e em sua exclusão. Se é assim na relação de Sapiens com Sapiens, o que dizer então de nossa lentidão em perceber que os animais não existem devido a nós e para nos servir?

Podemos continuar nossos afazeres e contentando-nos com a definição jurídica de que os animais são bens semoventes, infelizmente, a mesma definição que compartilhavam com os negros escravizados. Animais são propriedade, entretanto, o que os difere de um lote ou de uma casa é que ele “se move”. Podemos, quem sabe, concordar com a definição presente nos livros de geografia do Ensino Fundamental que ensinam para as crianças, normalmente do 4º ano, sem nenhum tipo de constrangimento, que os animais são recurso natural renovável. Flora e fauna “se reproduzem e voltam a ficar disponíveis”. Em outro lugar podemos ler que “são utilizados pelo homem com a finalidade de desenvolver as mais variadas atividades”. Será que se referem também aos cães e gatos? Não, criamos outra categoria: animais para abate.

Vamos ler de novo. Animais que nascem para serem abatidos. Se for assim, fica subentendido, que, tendo apenas valor econômico, podemos encurtar o tempo de sua vida, acelerar o número de abates por minuto, propor confinamentos, separar filhotes no período de amamentação de suas mães, fazer inseminações artificiais até o ponto da exaustão, entre outras ações que irão favorecer a engrenagem industrial.

Na perspectiva da economia ou do agronegócio isto se chama eficiência, produtividade, exportação, commodities. De fato, a afirmação contida no livro didático está correta! O coletivo humano decidiu que assim será e realizamos um grande pacto de não duvidar. Quais as implicações de aceitar esta afirmativa? É isso mesmo? Reafirmamos que o animal não tem valor por si mesmo? Estamos concordando que é moralmente aceito usos e violações flagrantes da dignidade animal?

Podemos, por fim, ensinar que animais são seres sencientes, sentem dor, medo, frio. Basta conviver, minimamente com qualquer um deles, para confirmar. Entretanto, para os relutantes podemos utilizar como embasamento científico o Manifesto de Cambridge. Assinado por 25 neurocientistas de todo o mundo, liderados pelo canadense Philip Low, pesquisador da Universidade Stanford e do MIT, que afirmam que as áreas do cérebro que nos distinguem de outros animais não são as que produzem a consciência¹ . Ou seja, ele mesmo disse, quando a pesquisa foi divulgada, que se trata de uma “verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência (…) Não é mais possível dizer que não sabíamos”.

Em nossas escolas precisamos estranhar a utilização de animais para entretenimento (quantas ainda possuem “viveiros” ou cativeiros), sua utilização em testes ou pesquisas. O próprio Philip Low afirma que:

“o mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles”²

Os educadores precisam se empenhar em conhecer o debate sobre a existência de zoológicos na perspectiva da ética e do direito animal. Também precisamos avançar e ensinar em nossas escolas que podemos encontrar nas fontes vegetais todos os nutrientes necessários para nossa saúde, sem que para isto tenhamos que depender da morte dos animais.

Infelizmente, ainda não entregamos esta opção em nossos programas ou nas abordagens pedagógicas, muito menos em nossas cantinas. O leitor pode pensar: este mundo não existe. Digo que aquilo que conhecemos “como mundo”, nós construímos. Este mundo não só é possível e necessário, como é realidade para muitos. Está implícito, quando falamos de Casa Comum, que nela há muitos e diferentes moradores. Somos apenas um deles.

¹ http://www.ihu.unisinos.br/noticias/511936-declaracao-de-cambridge-sobre-a-consciencia-em-animais-humanos-e-nao-humanos o assunto foi amplamente divulgado na mídia em julho de 2012.

² http://veja.abril.com.br/ciencia/nao-e-mais-possivel-dizer-que-nao-sabiamos-diz-philip-low/

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