PHILIP WOLLEN

“Os direitos animais são agora a maior questão de justiça social desde a abolição da escravidão”

“Descobri que quando sofremos, sofremos como iguais. E em sua capacidade de sofrer, um cachorro é um porco, é um urso....é um menino”. Esta foi uma das diversas frases emblemáticas...

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17/04/2017 às 19:00
Por Redação

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Arquivo Pessoal

“Descobri que quando sofremos, sofremos como iguais. E em sua capacidade de sofrer, um cachorro é um porco, é um urso….é um menino”. Esta foi uma das diversas frases emblemáticas proferidas pelo australiano Philip Wollen em um discurso emocionante realizado em 2012, no St James Ethics Centre and the Wheeler Centre em Melbourne, na Austrália.

Ex-vice-presidente do Citibank, Philip é um filantropo que dedica sua vida aos direitos animais e a questões ambientais. Atualmente, ele apoia 500 projetos críticos para animais, crianças e o meio ambiente em mais de 40 países. Seu trabalho é reconhecido em todo o mundo e, em 2012, ele tornou-se um membro honorário do Centro de Ética Animal de Oxford, localizado no Reino Unido. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre sua conscientização e ativismo, além de analisar o cenário cultural e econômico na busca por um mundo de paz para todas as espécies.

ANDA: Como você se conscientizou sobre a exploração animal e como foi sua transição para o veganismo?

Philip Wollen – Eu cresci na Índia. Estávamos divididos entre o final de uma era colonial estável e as dores do parto de uma nova república vibrante. A caça na Índia era considerada um esporte viril. Quando era adolescente, fui levado para duas denominadas “viagens de tiro”. O objetivo era assustar qualquer animal selvagem que estivesse escondido do caminho mortal de uma bala de rifle. Pantera, pavão, javali, urso, galinha. . . não parecia importar. Eram várias oportunidades assassinas acompanhadas de uma cacofonia orquestrada por barulho e terror. A segunda viagem era um “tiro noturno” na selva e a expectativa era que eu atirasse em uma pantera. Nunca apertei o gatilho, minha incapacidade de executar o papel designado a mim estava completa. Não haveria assassinato de pantera naquela noite e, para mim, em nenhuma outra noite. As sementes que germinaram e de onde minhas raízes veganas cresceram foram plantadas na selva há meio século. Meio século depois, voltei à Índia, ao mesmo lugar. A selva ainda estava lá, apenas esparsa. Havia um machan, construído, indubitavelmente, por outro aspirante a assassino muitos anos depois. Hoje, tigres e panteras raramente são vistos. Minha mente foi levada de volta àqueles dias inocentes quando uma criança de uma espécie estendeu a mão para o filho de outra espécie e disse: “Isso é errado e eu não vou fazer parte disso”. Pensei em seu pequeno rosto e seu corpo frágil e lembrei as palavras do poeta grego Horácio. “Mude apenas o nome e minha história será também sobre você”. Naquela noite iluminada pela lua, há mais de 50 anos, naquele Natal, um rapaz encontrou algo: seu caráter e sou grato por isso.

Se alguma vez houve um evento damasceno, foi quando visitei um grande conglomerado industrial enquanto realizava meu trabalho corporativo profissional como um banqueiro. O Conselho levou-me a uma visita às suas filiais – que era um matadouro. Confesso que foi a experiência mais aterrorizante e nojenta da minha vida. Isso me afetou profundamente. Tomei a decisão mais importante da minha vida naquela manhã: tornar-me um vegetariano, abandonar minha carreira e me tornar um defensor da justiça social. Mas eu ainda não era vegano. Eu simplesmente não sabia o suficiente.Acreditava que a indústria de laticínios tinha uma imagem bucólica, pacífica de pastos verdes e riachos, colinas. Mal sabia que, por atrás dos muros da indústria, havia um cruel monstro destruidor industrial, um vil campo de desespero. Logo descobri que o leite era carne em forma líquida. Durante uma viagem de negócios à Índia, vi um fazendeiro arrastando e chicoteando uma vaca. Sua coluna ficou gravemente ferida em um acidente com um caminhão. Para fazê-la se mover, ele jogou pó de chili em seus olhos e empurrou objetos afiados em seu ânus. Ele colocou uma corrente ao redor do seu pescoço e forçou-a a caminhar com uma perna quebrada e ferimentos sérios na coluna. Ao lado dela, caminhava um faminto e aterrorizado bezerro, com costelas protuberantes e pernas magras que tremiam. No portão do matadouro, ele a soltou. Porém, antes de fazê-lo, a ordenhou. Se essa visão não mudar o coração de um homem, nada o fará.

ANDA: Quais foram os aspectos mais fáceis e mais difíceis quando se tornou vegano?

Philip Wollen – O horror da vida cotidiana me afetou profundamente. Comecei a ver cada peça mundana da experiência da vida diária pelo prisma da crueldade animal. Passando por um restaurante lotado e sabendo que ocultava um amontoado de oportunidades assassinas. Sabendo que cada carniceiro era um varejista de partes dos corpos de vítimas de assassinato; cada cadeia de fast food, na minha mente, tornou-se um estande gastronômico. Para mim, a carne tornou-se o novo tabaco. Pensava que eu desejaria leite em meu café. Porém, imediatamente substituí o leite de vaca roubado de um bezerro e por leite de soja derivado de uma planta. Não houve havia nenhuma dificuldade. A parte mais fácil de ser vegano é realmente a melhor parte de ser vegano.

Posso olhar para o espelho todas as manhãs com a consciência limpa. Ninguém sofreu e morreu para satisfazer meus desejos. A parte mais difícil é aguardar os ataques dos suspeitos habituais acusando-me de “odiar as pessoas” e estar mais preocupado com baleias, leões, vacas, rãs e vermes do que com os “agricultores e fazendeiros pobres que tentam ganhar a vida”. Esse é o tipo usual de bobagem que desejamos poder ignorar, mas nunca podemos fazer isso completamente. Viajo 20 mil quilômetros por ano em estradas rurais. Sei que todas as ovelhas, vacas e porcos que vejo ao passar por esses belos prados são outras vítimas inocentes aguardando um assassinato agonizante e humilhante no corredor da morte. Fico enojado quando ouço que os lobistas da carne e dos laticínios alegam que “amam seus animais”. Na realidade, é uma mentira hedionda, absurda e repugnante.

ANDA: Que impactos o veganismo e sua decisão em se tornar um filantropo provocaram na sua vida?

Philip Wollen – Todos se lembram de seu primeiro amor. Eu me lembro do meu primeiro ódio: a crueldade aos animais. Esse ódio tem crescido exponencialmente ao longo dos anos. Minha aversão pela crueldade aos animais foi onde tudo começou. Matar animais para o chamado “alimento” é terrível. Não existe tal coisa como assassinatos humanos. Qualquer um que disser o contrário é um mentiroso ou um tolo. Além disso, há outras boas razões para acabar com a matança. A pecuária está poluindo maciçamente a atmosfera, os rios, e criando venenosas Zonas Mortas hipóxias nos oceanos. É responsável pela destruição de florestas e é um desperdício desprezível de água preciosa, é destrutiva para a saúde humana, está falindo orçamentos para a saúde e economias nacionais e desencadeando doenças geradas nestas terríveis fazendas industriais que ameaçam uma pandemia que rivaliza com a Morte Negra que aniquilou metade da Europa.

Porém, mesmo que essas forças malignas não existissem, eu ainda rejeitaria a barbárie desse comércio moralmente falido. Os animais têm o direito de existir em paz, em liberdade e sem medo – por direito próprio. Os animais são mais do que uma biologia coletiva. Cada animal tem sua própria biografia individual. Somente os monstruosamente cruéis, os indescritivelmente ignorantes ou os deliberadamente obtusos que não compreendem esta verdade. Os seres humanos são capazes de ter uma vida saudável, feliz e ética sem infligir violência arbitrária aos impotentes. Não há razões válidas para matar animais. Apenas desculpas. Substituí animais mortos por uma variedade surpreendente de alimentos de planta coloridos, deliciosos e saudáveis e eu me sinto melhor por isso. Durmo em paz e profundamente. Tenho uma energia ilimitada, mais do que as pessoas com a metade da minha idade. Minha memória melhorou.

Eu me importo mais profundamente com minha família, meus amigos, meus colegas. Com estranhos que eu nunca conheci, com causas sobre as quais só ouvi falar, com ideias, artes, música, poesia, teatro, literatura, pintura, balé. Tudo que contém beleza parece ganhar vida – mais vividamente, mais sutil e mais completamente. Eu não sabia o que eu estava perdendo. Meu maior arrependimento na vida é não ter feito isso antes. Que loucura poderia nos infectar tão profundamente que justificamos o assassinato de animais inocentes e impotentes a um custo tão grande para as vítimas, assim como para nós? Restaurantes que dissimulam um prato com animais mortos não me enganam por um segundo. As críticas de restaurantes na imprensa hoje são uma pornografia gastronômica. Os veganos já ganharam o debate ético, ambiental e de saúde. Eles não precisam da aprovação do lobby da carne.

ANDA: Você criou uma organização chamada Kindness Trust, que oferece apoio financeiro a 500 projetos em todo o mundo. Poderia falar mais sobre este trabalho? Que tipo de iniciativas recebe ajuda da organização?

Philip Wollen – Tenho cinco recursos, admitidamente em porções limitadas: informação, capital, experiência, network e influência. Ao longo dos últimos 25 anos, enviei esses recursos a animais, crianças,  ao meio ambiente, doentes terminais e jovens aspirantes. Fundamentalmente eu tento viver uma vida compassiva. Nesse processo, espero consagrar, na medida do possível, esse atributo na cultura de pessoas, instituições e mercados onde eu possa ter alguma influência modesta.

Usando meu “chapéu de banqueiro de investimento”, eu invisto tempo, dinheiro e energia com o objetivo de obter um “retorno sobre o capital empregado”. Mas as métricas são baseadas em vidas salvas, ambientes protegidos e sofrimento aliviado. Eu uso o princípio de “alavancagem” para efetuar mudanças de paradigma nos padrões de consumo de pessoas que não fazem parte atualmente da comunidade vegana. Basicamente, eu me vejo como um defensor da justiça social e um “capitalista de risco para boas causas”. Apoiei cerca de 500 projetos de missão crítica em mais de 40 países. Os projetos incluem proteção animal, escolas, orfanatos, abrigos, clínicas, medicamentos, plantas de biogás, ambulâncias, alimentação, assistência em desastres, bolsas de estudo, artes, saúde, florestas e oceanos, operações secretas de combate à caça, restaurantes móveis gratuitos para desabrigados. Tento apoiar grupos ou projetos que promovem o veganismo. Por exemplo, um programa Kindness Kids educará as crianças e iluminará suas famílias sobre o imperativo de viver uma vida ética, saudável e compassiva sem consumir animais. A Kindness House, incubadora de ONGs dinâmicas, ajudou centenas de ativistas energéticos a proteger as florestas, os oceanos, o ambiente, os refugiados, as pessoas com deficiências, doentes terminais. Há 25 anos, nós fornecemos divulgação e ajuda nas instalações de escritórios desde que eles também promovam os benefícios de ter uma vida livre de crueldade.

Hoje falo também com audiências do mundo corporativo sobre temas diversos como ética, negócios, meio ambiente e paz – enfatizando que, sem o veganismo, todas essas atividades são um exercício de futilidade. Sem um mundo vegano, os múltiplos de preços e ganhos no mercado de empresas listadas nas bolsas de valores globais despencarão e o valor do capital e do acionista serão destruídos. Orçamentos fiscais de saúde serão dizimados. Os fundos de pensão com prazos de vencimento longos além de 20 anos serão subfinanciados nos próximos anos. Os gastos com a defesa aumentariam à medida que os estragos da mudança climática atingissem até mesmo os países ricos, as ameaças à segurança alimentar e de água se tornassem realidade, as doenças transmitidas por vetores se espalhassem, a infraestrutura fosse destruída e a crise de refugiados explodisse. Somente um CEO profundamente estúpido ou míope ou um ministro do governo ignorará esta mensagem. Sou um ativista. Não é simplesmente o que eu faço. É quem eu sou. Não estou aqui para simplesmente dizer “o imperador não tem roupas”. Estou aqui para levá-lo às compras.

ANDA: Quais são os papéis da cultura e da economia nesse processo?

Philip Wollen – A cultura e as tradições desempenham papéis significativos, mas não imutáveis. As culturas mudam. Se o século XX nos ensinou algo é que a mídia, a publicidade e a globalização afetam os padrões de consumo de maneira profunda e imprevista. Culturas que nunca consumiram carne agora fazem isso. As tradições que proibiam o consumo de toda a carne (exceto peixe) nas sextas-feiras agora têm pouca consideração pela prática. A economia desempenha um papel significativo – mas faz isso de forma inesperada. No Ocidente, a educação tornou os consumidores mais conscientes sobre a crueldade, a destruição ambiental e o desperdício de água causados pela indústria pecuária. Como consequência, o consumo desses “produtos” está sob ameaça. Porém, na Índia e na China, onde a renda per capita está aumentando, a tarifa local vegetariana tradicional tem sido substituída pela tarifa tradicional à base de carne dos ocidentais. Esses países estão ficando mais ricos (e mais doentes) e estão consumindo mais animais do que nunca.

É quase banal afirmar o óbvio, mas a educação é claramente uma das soluções. Porém, realmente é preciso coragem política e liderança para permitir que a verdade seja trazida à tona. Infelizmente, governos de todas as bandeiras políticas são facilmente manipulados por poderosos grupos. A partir daí, surgem as draconianas leis destinadas a silenciar e aprisionar informantes que expõem a crueldade animal na indústria de carne e laticínios. Nossas culturas e tradições precisam mudar e não se deixarem seduzir pela moda, caprichos e pela loucura que a grande historiadora Barbara Tuchman descreveu como “agir contra seus melhores interesses”. Paradoxalmente, os fazendeiros são os que têm mais a ganhar. Esse trabalho não vai acabar, mas terá um boom. Apenas a linha de produtos mudaria. Os fazendeiros ganhariam tanto dinheiro que nem sequer se dariam conta disso. Os governos nos amariam. Novas indústrias surgirão e florescerão. Os prêmios de seguros de saúde iriam despencar. As listas de espera dos hospitais desapareceriam. Eles são empresários, já possuem a terra, água e canais de distribuição. Os fazendeiros têm um papel importante na criação de uma economia alimentar baseada em vegetais. Devem começar a transformar terras de pastagem em maciças florestas alimentares e os consumidores devem apoiá-los na caixa registradora do supermercado.

ANDA: E quanto à conscientização das novas gerações? Acredita que elas são nossa melhor esperança para transformar o mundo?

Philip Wollen – Não vamos colocar todas as nossas esperanças nos ombros frágeis da geração jovem. Nossa geração e aqueles que nos precederam envenenaram este frágil rio da vida. Podemos esperar, em boa consciência, que a próxima geração assuma as consequências disso? Não é hora de assumir nossas graves e sombrias responsabilidades honestamente e fazer tudo o que pudermos para saná-las? O veganismo não é apenas o atalho para a rampa de saída, é a única saída desta estrada para o inferno. Isso diz que você tem a coragem de se opor à violência onde quer que ela ocorra. Não se trata apenas de direitos animais, é realmente sobre os equívocos humanos. Os direitos animais são agora a maior questão de justiça social desde a abolição da escravidão. O veganismo é um evento revolucionário mais poderoso do que a Revolução Industrial, a Reforma, o telescópio Hubble ou qualquer coisa concebida por Galileu, Copérnico, Einstein, Darwin ou Freud. Ele protege o bem mais precioso de todos: a vida.

ANDA: Qual é o seu maior sonho?

Philip Wollen – Mal posso esperar pela chegada do dia em que o menor pensamento de matar seres sencientes de outra espécie será tão abominável quanto o genocídio é para nós hoje.

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