ERIC SLYWITCH

“As indústrias agropecuária e farmacêutica disseminam erros nutricionais e apelam ao paladar das pessoas”

Durante 12 anos, o nutrólogo vegano Eric Slywitch atuou como diretor do Departamento de Medicina e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira. Porém, desde antes de adotar esse estilo de vida,...

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12/04/2017 às 20:40
Por Redação

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Arquivo Pessoal

Durante 12 anos, o nutrólogo vegano Eric Slywitch atuou como diretor do Departamento de Medicina e Nutrição da Sociedade Vegetariana Brasileira. Porém, desde antes de adotar esse estilo de vida, há 25 anos, ele já observava os mitos que são disseminados em relação à alimentação sem produtos animais.

O profissional aponta que esses estereótipos ocorrem desde os cursos da área até os veículos de comunicação. Eric também possui uma plataforma de cursos online destinada a profissionais de saúde e a qualquer pessoa que se interesse em aprender como se alimentar sem crueldade. Nesta entrevista exclusiva, ele comenta os estereótipos a respeito do veganismo, a alimentação infantil, a deficiência dos cursos de formação sobre o assunto e analisa o papel da indústria agropecuária em tornar a população dependente de produtos animais.

ANDA: Como foi especializar-se em nutrição vegetariana considerando a oposição de muitos profissionais a esse estilo de vida? Você percebeu alguma resistência ao seu trabalho ou não?

Eric Slywitch – Quando entrei na faculdade eu já era vegetariano. Como os meus pais são médicos eu já sabia o que encontraria ali, que ia ter uma oposição. Assim, fui à faculdade aprender o que deveria. Eu corria na época, competia cinco mil metros, 1500 metros rasos e sempre tinha bons resultados. Por isso, era difícil para as pessoas falarem que esse tipo de alimentação seria ruim ou carente. Isso ajudou bastante a não ter muitos problemas, pelo menos frente a quem me conhecia e quem observou meu rendimento. Na faculdade, naquela época não se falava muito em dieta vegetariana então não havia muitos profissionais se opondo porque não era um tema muito abordado. Porém, a ideia de que a carne e o leite são importantes sempre existiu. Quando eu me formei, optei por fazer um trabalho por um olhar muito científico. Fiz uma revisão de estudos científicos e tenho uma biblioteca com mais de 2500 artigos científicos sobre alimentação vegetariana, todos estão impressos e catalogados por ano de publicação e por data. Embasei todo o meu trabalho na área médica e nutricional com esses estudos, então a resistência ao meu trabalho nessa área não foi grande porque falei a linguagem que os profissionais estão acostumados a ouvir. Em algum momento ou outro, houve questionamentos, mas, como há um lado científico muito forte para embasar a alimentação vegetariana, não foi difícil apresentar a verdade sobre o assunto.

ANDA: Que cuidados as pessoas devem ter ao adotar uma alimentação vegetariana estrita?

Eric Slywitch – Quando retiramos a carne e os laticínios do cardápio, costumo dizer que os nutrientes mais importantes em que temos que pensar são a vitamina B12 e o cálcio. Eu diria que o cálcio é até mais específico e importante porque a população elegeu os laticínios como uma fonte de cálcio na alimentação. Quando tiramos essa fonte, devemos substituir por outras ricas em cálcio também. É possível adotar uma dieta vegetariana estrita sem os laticínios e obter o cálcio de que a gente precisa. Com relação à vitamina B12, esse é um ponto muito comentado porque sabemos que os alimentos de origem vegetal não contêm vitamina B12. Porém, apesar disso, das pessoas que comem carne na América Latina, 40% tem carência de B12. Mesmo que esta seja uma vitamina em que devemos prestar atenção na dieta vegetariana, na dieta onívora ela é muito carente também. Costumo dizer que em uma avaliação metabólica, feita por um profissional de saúde, a vitamina B12 tem que ser avaliada em todos, em quem come ou não come carne. Tecnicamente falando, o vegetarianismo estrito precisa tomar mais cuidado com a ingestão de cálcio e de vitamina B12 na forma de suplemento.

ANDA: Quais são os principais mitos e preconceitos em relação à alimentação livre de exploração animal?

Eric Slywitch – Observamos que as escolas de Medicina e Nutrição propagam isso em relação às proteínas e ao cálcio principalmente. As pessoas possuem uma ideia errônea de que só carne e ovos basicamente são boas fontes proteicas. Porém, as leguminosas, como os feijões, a ervilha, a lentilha e o grão de bico são ótimas fontes, os cereais integrais têm uma quantidade nada desprezível de proteínas. Se conseguirmos atingir as calorias de que precisamos com alimentos naturais, mais integrais e se a base da dieta for composta de cereais e leguminosas é muito fácil atingir e ultrapassar a carga proteica. Todos os aminoácidos estão presentes no reino vegetal. Existe uma ideia errada disseminada em algumas faculdades de que falta algum aminoácido essencial no reino vegetal. No Brasil, não temos tabelas que mostram o teor de aminoácido dos alimentos, o que deixa o profissional de saúde desprovido de elementos para contestar isso. Quando avaliamos aminoácidos, temos que usar as tabelas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos que contêm todos os aminoácidos e é possível conferir como o reino vegetal possui todos, sem nenhum desbalanceamento.

Esse é um mito que limita as pessoas a acharem que não podem obter proteínas e aminoácidos com a dieta vegetariana. Com relação ao cálcio, as pessoas foram levadas a acreditar que leite é sinônimo de cálcio, mas conseguimos isso de outras fontes também. É importante manter um bom nível de vitamina D, que ajuda a absorver o cálcio ingerido, e buscar fontes de cálcio que são mais pobres em ácido oxálico. Esse ácido dificulta a absorção do cálcio. Deve-se evitar, nas refeições ricas em cálcio, o consumo de espinafre, de acelga e de folhas de beterraba, que são os elementos mais ricos nesse ácido. Couve, rúcula, brócolis, agrião, escarola e folhas de mostarda devem ser mais usados e o gergelim que é uma fonte riquíssima. Seis colheres de sopa de gergelim equivalem a 100 gramas do grão, isso contém 825 miligramas de cálcio. Quando alguém procura um profissional de saúde para fazer uma avaliação, é fácil avaliar o cálcio. Os exames laboratoriais conseguem mostrar isso e a pessoa consegue saber o que precisa otimizar ou não.

ANDA: Existem pais e mães que temem em introduzir o vegetarianismo na vida de crianças pequenas, pois acreditam que há falta de nutrientes. Existe alguma recomendação específica no caso da alimentação infantil? De que forma você orienta esses pais?

Eric Slywitch – O que acontece é algo muito claro no meio científico para quem estuda os artigos sobre problemas de crescimento em crianças vegetarianas. Na década de 70, começaram as primeiras publicações e grande parte delas mostravam problemas de crescimento e desenvolvimento em crianças vegetarianas. Quando você olha o título desses artigos parece que, de fato, existe um problema. Porém, quando se avalia o artigo na íntegra é possível ver que não eram dietas vegetarianas, eram alguns absurdos nutricionais relatados em artigos científicos. Por exemplo, existe uma comunidade religiosa chamada Black Hebreus e o chefe deles dava as ordens nutricionais. Ele determinou que todas as crianças que nascessem na comunidade, que era vegetariana estrita, deveriam ser desmamadas com três meses, sendo que o recomendado é manter a alimentação materna exclusiva até os seis meses. No lugar do leite materno, eles utilizavam suco de maçã com couve e um pouco de soja meio rala, na forma de um líquido. Com isso, várias crianças começaram a ter problemas de crescimento e desenvolvimento e eram internadas com um grau de desnutrição importante em hospitais da região.

Assim, várias publicações surgiram sobre a comunidade, dizendo que crianças vegetarianas têm problemas de crescimento quando, na verdade, isso não é uma dieta vegetariana, mas um erro nutricional muito grave. Se essa mesma dieta tivesse um caldo de carne no meio, ninguém diria que era vegetariana, mas causaria os mesmos problemas. Isso é uma forma de preconceito com a dieta vegetariana. Existem vários outros estudos semelhantes que mostram absurdos na dieta em várias publicações. Os estudos que revelam crescimento e desenvolvimento adequado das crianças são aqueles em que a dieta vegetariana foi feita de forma adequada, com variedade nutricional. Existem alguns fatores com os quais temos que ter cuidado quando o vegetarianismo é mal executado. O primeiro deles é garantir o leite materno exclusivo até os seis meses de vida, assim como com crianças onívoras. Se por algum motivo a mãe não pode amamentar, em hipótese alguma devem ser utilizados leites vegetais porque eles não são iguais ao leite materno. Quando não se pode usar o leite materno, trocamos por fórmulas infantis desenhadas para criança, com uma quantidade de nutrientes muito similares ao leite materno. Alguns estudos mostram também que alguns pais, preocupados em oferecer o melhor para as crianças, utilizaram a amamentação exclusiva por mais de um ano.

Isso também é um problema porque o leite materno é ótimo para a criança até os seis meses como alimento exclusivo. A partir daí, as mamadas são reduzidas e começa a introdução de outros alimentos de que a criança necessita. Estender o leite materno exclusivo para um ano, um ano e meio de vida da criança causa problemas de crescimento também. Outro ponto importante é o ajuste calórico da dieta. Como a criança é pequena e possui uma necessidade calórica maior do que o adulto, proporcionalmente ao peso dela, é fundamental que os alimentos que ela ingere tenham uma densidade calórica maior. Se colocarmos muitas verduras e legumes no prato da criança, são alimentos de muito volume com pouca caloria. Isso enche o estômago com alimentos de pouca caloria e pouca proteína e com isso sobra menos espaço para os alimentos mais densos. As bases da alimentação infantil devem ser os cereais, as leguminosas e óleos. Não há restrição de óleo para criança até os dois anos, evidentemente que deve ser usada a gordura de boa qualidade. Isso é fundamental para que ela tenha uma densidade calórica que garanta o crescimento. Seguindo esses pontos e garantindo uma fonte segura de vitamina B12, que pode ser obtida por alimentos fortificados ou suplementos, o crescimento e desenvolvimento costumam ser perfeitos. É bom que médicos e nutricionistas ofereçam aos pais o embasamento utilizado e informem que conseguimos avaliar se o crescimento está adequado. Tem curvas de crescimento, exames laboratoriais, não ficamos com um vegetariano à nossa frente no escuro.

ANDA: Embora cada vez mais pesquisas comprovem benefícios do vegetarianismo para o planeta e para a saúde humana, ainda existem médicos e nutricionistas que defendem o uso de produtos de origem animal. Por quê? Qual é a sua percepção sobre isso? Isso sinaliza uma deficiência nos cursos de formação de novos profissionais da área?

Eric Slywitch – Em minha opinião, sim. Existe um aspecto que é a falta de conhecimento técnico e científico porque os estudos com relação à saúde são fantásticos, muito aprofundados e que mostram claramente como uma dieta sem produtos de origem animal é muito mais eficaz no combate e na prevenção de doenças crônicas como diabetes, câncer, doença cardiovascular. Os profissionais que ainda defendem o consumo de carne fazem ou por esse fator, que é a falta de conhecimento, ou pelo desejo de comer carne talvez. Essa questão social de desejos alimentares até mascara um pouco a possibilidade de não consumir. Acredito que isso ocorre mais pelo desconhecimento técnico, os cursos de formação nas áreas básicas ainda possuem muitos erros nutricionais com relação à dieta vegetariana.

ANDA: Vivemos em um mundo que incentiva o consumo de produtos animais a todo o momento. Desde crianças, somos ensinados que teremos problemas de saúde caso optemos por uma alimentação vegetal e isso é alimentado principalmente pela própria indústria agropecuária assim como pela indústria farmacêutica. Que análise você faz quanto aos interesses dessas indústrias em promover o consumo de animais?

Eric Slywitch – Se considerarmos que nosso país se move pelo agronegócio e como a política está inserida nisso é esperado que indivíduos com alto poder de divulgação e propaganda coloquem essa necessidade de consumo da carne como algo realmente importante. A indústria agropecuária é muito forte nisso e sabemos que, na produção de alimentos, a indústria farmacêutica também possui uma fatia grande nessa divisão societária. Basta ligarmos a TV em horário nobre para vermos como a indústria da carne patrocina o veículo. Eles pagam altos preços para promover seus produtos e ter seu espaço garantido. Nesse cenário dominado por quem tem interesse no consumo de carne e laticínios, não há espaço para falar sobre o lado real e negativo desse hábito. e ainda possuem um aspecto forte, que é o apelo ao paladar das pessoas que estão acostumadas com esses alimentos.

ANDA: Os meios de comunicação também contribuem com a disseminação de informações incorretas. Qual a sua percepção sobre a atuação da imprensa quanto ao tema?

Eric Slywitch – Para quem está na área há bastante tempo (sou vegano há praticamente 25 anos), é possível perceber que isso tem mudado um pouco. No passado, muitas entrevistas mudavam o que falávamos para manter o estereótipo do vegetarianismo como algo que pode trazer problemas. Hoje, há repórteres e pessoas mais informadas, inclusive alguns profissionais de jornalismo que são vegetarianos e que se preocupam em transmitir uma visão correta sobre o assunto. É frequente que uma reportagem ou outra ainda mostra um estereótipo e, o que é um pouco mais grave, com entrevistas de alguns profissionais de saúde falando mal da dieta vegetariana sem embasamento científico correto. Nesses casos, a culpa não é do repórter, mas sim do profissional contatado, que fornece uma informação incorreta. A imprensa possui um grande papel nisso e, felizmente, tenho visto um pouco mais de critério e senso crítico para abordar o vegetarianismo como ele deve ser divulgado.

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