NANA LACERDA

“Não são nossos caprichos e gostos que estão em questão, mas a vida de seres que tiveram seus direitos sequestrados”

Nana Lacerda conta histórias, atua, escreve, pinta, ilustra, dança e canta pelos animais. Ela nasceu artista e sua vocação é também uma ferramenta na defesa da libertação de outros seres...

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01/03/2017 às 19:40
Por Redação

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Arquivo Pessoal

Nana Lacerda conta histórias, atua, escreve, pinta, ilustra, dança e canta pelos animais. Ela nasceu artista e sua vocação é também uma ferramenta na defesa da libertação de outros seres sencientes. Agora, a artista lança o CD “Animal Sente”, com 13 músicas sobre conscientização animal. Em sua casa, localizada em Itatiba (interior de São Paulo), Nana mantém um micro santuário com 30 animais resgatados. Ela também possui uma página no Facebook chamada “Vegana É A Mãe”, um espaço para sensibilizar todas as pessoas que desejam adotar o veganismo. Aos 11 anos, seu filho Diego Naropa decidiu criar o canal do Youtube “Mini Vegano” em 2015. Hoje, o canal possui quase sete mil inscritos. Nesta entrevista exclusiva, Nana tece comentários sobre a relação da arte com o ativismo, maternidade vegana e seu empenho também na orientação de crianças e adolescentes.

ANDA: Seu ativismo está relacionado às suas atividades artistas. Você é atriz, compõe músicas, escreve e ilustra livros. Gostaria que você falasse mais sobre suas atuações dentro desse campo no que se refere ao veganismo.

Nana Lacerda – Sim, minha militância na causa vegana abolicionista em defesa dos direitos animais é expressa através da arte e eu defino duas razões básicas para essa escolha. Eu costumo dizer que eu não tive a chance de escolher se seria artista ou não, a arte veio grudada em cada uma das minhas células. Ela não é o que que eu faço, é o que eu sou, então a escolha que pude fazer foi como e a serviço do quê usar essa arte e eu quis dar o melhor destino que consegui encontrar, que é o de expressar, difundir, espalhar e defender os direitos de seres que tem todas as suas expressões ignoradas. Uivos, gemidos, lágrimas, movimentos, gestos, como se não fossem essas expressões suficientes para clamar por seus direitos. O ARTivismo surgiu para mim, pois quando eu desenho, componho ou danço pela libertação dos animais, eu não apenas transfiro meus direitos para eles, eu os amplio e torno mais pleno e significativo esse direito de liberdade. A arte nos liberta e acho imprescindível estar livre para libertar.

ANDA: Como a arte pode ajudar a conscientizar outras pessoas sobre o sofrimento dos animais?

Nana Lacerda – Nós humanos damos muita importância à forma e a tudo o que conseguimos captar, codifica e decodificar através dos nossos sentidos. O que vemos, ouvimos etc, parece ainda despertar algum interesse num mundo superlotado de gente e abarrotado de informações. Eu sou uma contempladora de furacões, a filosofia é a base da arte que produzo, sempre desejo despertar reflexões e pensamentos novos com toda arte que faço, independente de ser um texto, uma ilustração ou uma dança… A libertação animal sem uma revolução é algo impensável e acho necessário que aconteçam infinitas revoluções de pensamentos e ações para que essa revolucionária ideia de libertar os animais possa acontecer. Aonde quer que haja uma mente de escravidão, deve haver outra de libertação e só a arte consegue penetrar nesses escombros escuros de uma maneira delicada e firme ao mesmo tempo. Nem um único rabisco é inócuo na arte, ela é sagrada e eu sou muito grata por poder ser parte da arte e que ela seja parte de mim nessa jornada.

ANDA: No primeiro vídeo do canal Mini Vegano, o Diego diz: “Eu sou vegano porque a minha mãe me mostrou a verdade”. Quando e de que forma você mostrou a verdade a ele e como foi esse processo de conscientização?

Nana Lacerda – Aqui em casa temos um trato desde sempre: falar a verdade sempre. Isso parece óbvio, num mundo cada vez mais pautado nas aparências, até mesmo a aparência da verdade pode ser uma mentira, então nós temos esse pacto. Meus filhos nasceram imersos até os ossos na filosofia sagrada do Budismo tibetano, então a ideia de não matar nenhum mosquito e cuidar de todos os seres já era uma prática corriqueira em nossas vidas, mas quando me informei e descobri o movimento vegano eu me tornei ativista da noite para o dia e conversei com eles sobre colocar em prática no cotidiano tudo aquilo que era já tão familiar na teoria. Desse modo, eu assisti aos documentários e toda sorte de textos informativos sobre o que acontece nos matadouros, fazendas e outras horrendas formas de explorar os animais. Como já era de praxe, contei para eles. Primeiro, o meu filho Diego quis assistir, eu disse que era muito impactante e que se ele já tinha consciência e disposição e não quisesse ver, não era necessário. Porém, ele insistiu, pegou o iPad e foi para o quarto. Horas depois, voltou de lá ativista, chegou na cozinha chorando muito, me deu um abraço e disse que as crianças não deviam mais ser enganadas, que elas tinham o direito de saber a verdade sobre a dor dos animais. Com minha filha foi um pouco mais complexo, pois ela era amazona e sofreu muito para se desvencilhar dos equívocos sobre a exploração dos cavalos. Depois de poucos meses de conversas e de convivência com o ativismo, ela naturalmente compreendeu e, no dia das mães de 2016, estávamos todos na rua, num ato no qual eu estava de carne humana na bandeja, meu filho no megafone, minha filha na panfletagem e meu marido registrando. O compromisso do ativista é imenso, pois não se pode ensinar o que não se sabe.

ANDA: Como surgiu a ideia de criação do canal? Você orienta o Diego de alguma forma na seleção e abordagem dos conteúdos?

Nana Lacerda – O canal surgiu porque um dia meu filho conversava com uma amiguinha que o questionou sobre ele não comer carne, então ele disse que animais não são comida e ela não entendeu. Depois de um tempo. ele me disse: “Mãe, as crianças não sabem de onde vem a carne, alguém tem que contar, tem que falar a verdade pra elas!” Eu disse que sim e perguntei quem poderia fazer isso, então ele disse: “Eu! Você pode gravar um vídeo pra eu postar no seu Facebook?”. Fomos para o quintal e gravamos o primeiro vídeo, aquele em que ele está no jardim, eu postei no Facebook e em menos de duas horas o vídeo tinha viralizado, aí as pessoas pediam para compartilhar e pediam novos vídeos, foi quando abrimos o canal e eles foram criando mais vídeos. Eu oriento quanto à responsabilidade de se informar, estudar e criar conteúdos sérios para não dizer bobagens ou propagar falácias, no mais, eles mesmos se viram. O canal é muito simples, não temos técnica, muito menos patrocinadores e tudo é muito nossa realidade.

Foto: Arquivo Pessoal

ANDA: Hoje o canal, que surgiu em dezembro de 2015, possui quase sete mil inscritos. Como tem sido a recepção do público?

Nana Lacerda – O canal Mini Vegano é feito com muita simplicidade, nossa técnica é a mais tosca (risos) e não visamos nada comercial, nem fama ou reputação, apenas a mesma intenção do primeiro vídeo: falar a verdade para as crianças e, se possível, de forma divertida e sem rodeios. Eles criaram umas esquetes de paródia de uma mãe especistas falando com o filho e ficou bem engraçado. Ele gosta de fazer receitas de comidas e eu até participei do mais recente vídeo do canal. O público é extremamente simpático a uma criança vegana, apesar de uma excelente repercussão, são raros os haters e as crianças nos procuram com frequência pedindo orientações, dicas e parceria.

ANDA: O veganismo ainda desperta muito preconceito e, no caso de crianças, isso é ainda mais agravado. Muitas vezes, os pais são considerados irresponsáveis por uma série de estereótipos e pela ignorância. Qual é a sua experiência como uma mãe vegana com um filho que optou por esse estilo de vida quanto a isso?

Nana Lacerda – O mundo virou uma bomba relógio, eu chamo de “Zumbizário” ou “The Walking Dead Reality” (risos) e é claro que militar por uma causa tão recente, e que defende seres que todo mundo quer explorar de um jeito ou de outro, intensifica a crítica e a rejeição, que já viraram uma constante na sociedade. São quase oito bilhões de pessoas se acotovelando no planeta por um lugar ao sol, todo mundo on-line falando o que bem entende e esse acesso sem limites sobre todas as informações nos coloca no lugar de tutores, como meros administradores dessas informações que vão chegar até nossos filhos, indiscriminadamente. Acontece que primamos por criar uma pauta de valores muito fortes e de contornos bem definidos e. por incrível que pareça, essa postura parece ter formado uma boa blindagem. Sabemos que não é impenetrável às más (péssimas) línguas ou talvez porque nossa capacidade de renúncia seja suficiente para não disputarmos nada que envolva dinheiro, mas o fato é que somos pouco incomodados pelo preconceito. Outra questão muito forte é nosso compromisso com a ética e a busca por evolução nos faz aceitar certas coisas que, para outras pessoas menos convictas, poderiam ser um grande problema. Por exemplo, o fato de todos os nossos parentes terem nos afastado da vida deles por esse preconceito citado, incluindo meus pais, irmãos e os do meu atual marido também, mas nós achamos engraçado, a gente não se abalou a mínima com isso, pois o que não faltou foi gente pra nos pedir acolhida como se fossem uma imensa família. Somos artistas, fazemos música, shows, performances, vlogs, quem perde com esse afastamento? Saber enfrentar as perdas advindas das escolhas faz parte da vida de todo mundo.

ANDA: Como artista e mãe, você tem a oportunidade de conviver com outras crianças e adolescentes e contar a elas sobre o sofrimento dos animais. Percebe diferenças na maneira como as crianças reagem a isso em relação aos adultos? Há menos resistência em aceitar essa realidade?

Nana Lacerda – Sou atriz e contadora de histórias há mais de 10 anos. Tive uma companhia de teatro por quase cinco anos e o que mais fiz foi contar certas “verdadezinhas” nem sempre muito convenientes às crianças e pais. Também fui professora de biologia quando jovem e sou a irmã mais velha de cinco filhos. Contar verdades complexas para crianças e adolescente fez de mim uma espécie de cúmplice confidente dos pensamentos deles. Tenho tanta certeza do bom caráter receptivo das crianças e adolescente que todo meu trabalho hoje se destina a dar poder a eles, para que eles mudem o mundo. Tem um texto nosso com ilustrações em H.Q. em processo que se chamará “Crianças que mudam o mundo”. No entanto, isso não me imuniza de passar por situações bem ruins, como o caso de um menino da idade do meu filho que me seguia nas redes sociais e pedia mil orientações. Eu sempre pontuava a importância dele se manter convicto sem ser agressivo e passava as orientações até que um dia a mãe dele me abordou e me escorraçou da vida do menino, alegando que ela era quem escolhia o que o filho ia fazer etc e me bloqueou da vida do menino, mesmo eu alegando que teria com ele todo carinho e consideração que tenho pelo meu próprio filho. O meu filho ficou muito indignado, mas precisamos respeitar os limites que a sociedade escolheu.

ANDA: Frequentemente, até mesmo o núcleo familiar se transforma em um espaço de conflitos, distanciamentos e até rompimentos quando se trata de veganismo. Como lidar com isso? Acredita que há alguma forma de tornar esse espaço mais harmônico no que se refere a esse assunto?

Nana Lacerda – É como eu disse, o mundo está caótico, há um grito esganiçado da natureza clamando por uma revolução de paz e, no entanto, fomos criados e incitados à guerra, criamos um mundo de tecnologia de comunicação sem antes treinarmos nossas crianças para a não violência e ainda estimulamos a disputa, a competição e o revide. Sem contar o quanto despertar a famosa inveja intitulada hoje de forma emblemática como “beijinho no ombro”, tendo isso como sinalizador de sucesso, tornou a sociedade perigosa e bélica. As pessoas me parecem carentes, tristes e ávidas e isso nos desperta compaixão segundo o que aprendemos. Por isso, quando nossos parentes nos rechaçam, nos sentimos mais pena do que raiva e seguimos nossa luta. Nosso compromisso é maior. Os animais aguardam em sofrimento e não é justo protelar esse entendimento. Sempre que nos aborrecemos com alguém, pensamos na razão pela qual lutamos, e acabamos percebendo que não são nossos caprichos, gostos, confortos umbilicais que estão em questão e sim a vida, liberdade, integridade e dignidade de seres que tiveram esses direitos sequestrados e nosso compromisso nos ajuda a caminhar um dia após o outro.

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