FRANK ALARCÓN

“Experimentação animal e maus-tratos são termos indissociáveis”, diz representante da Cruelty Free International

A falta de uma infraestrutura tecnológica básica contribui para o atraso do Brasil em relação aos testes realizados em animais, segundo Frank Alarcón, biólogo do Instituto Luisa Mell e representante...

299

13/03/2017 às 19:30
Por Redação

Want create site? Find Free WordPress Themes and plugins.

Por Aline Khouri (da Redação)

Arquivo Pessoal

A falta de uma infraestrutura tecnológica básica contribui para o atraso do Brasil em relação aos testes realizados em animais, segundo Frank Alarcón, biólogo do Instituto Luisa Mell e representante da Cruelty Free International no Brasil. Soma-se a isso a resistência da comunidade científica em reconhecer a tortura de seres inocentes e como os resultados desses procedimentos cruéis são ineficazes quando se trata de seres humanos.

Nesta entrevista exclusiva, o biólogo discute a conscientização da população brasileira em relação aos testes em animais, o desenvolvimento e implementação de métodos substitutivos no país e comenta a importância da fundação do primeiro partido animalista da América Latina, o Partido ANIMAIS, do qual é porta-voz.

ANDA: Você é biólogo do Instituto Luisa Mell, coordenador da Cruelty Free Internacional no Brasil e porta-voz do partido ANIMAIS. De que maneira a sua luta pelos direitos animais se uniu à sua trajetória profissional? Você sempre quis trabalhar diretamente com a causa ou foi algo que ocorreu posteriormente?

Frank Alarcón – Meu envolvimento com o necessário reconhecimento de direitos aos animais não humanos nunca esteve dissociado de minha formação enquanto indivíduo. Para alguém vegetariano desde a infância e que sempre se envolveu profundamente com o resgate de vítimas de maus-tratos e abandono, defender animais por meio de um prisma mais profissional parecia um caminho natural a seguir. O ingresso aos 17 anos em um curso de Ciência Biológicas (UNICAMP/1992) permitiu que professores e colegas acadêmicos pudessem conviver com alguém absolutamente crítico e resistente ao emprego de animais não humanos na prática didática ou científica. Na época e, desde então, confrontei muitos colegas de profissão (seja aqueles da área molecular ou ambiental) quanto à objetificação, tortura e assassinato de animais para estudos diversos. Com a subsequente especialização acadêmica e científica, ficou evidente para mim que o sigilo sobre práticas envolvendo animais cumpria uma agenda deliberada de exploração de vulneráveis, que são organismos ocultos para boa parte da sociedade civil. Trazer isso à tona e encontrar espaços formais para lutar contra a exploração animal praticada em qualquer esfera foi, portanto, um caminho inevitável, progressivo e que completa hoje algumas décadas.

ANDA: Em 2013, o resgate de animais – entre eles beagles e coelhos – explorados pelo Instituto Royal, em São Roque (SP), colocou a questão dos testes em animais na agenda pública. Muitas pessoas não pensavam em testes em animais ou sequer sabiam do uso desses animais nos experimentos. Qual foi a importância do resgate feito pelos ativistas para o debate sobre o tema?

Frank Alarcón – Além do efetivo salvamento de centenas de animais (cães, camundongos, ratos, coelhos) de perigo real e imediato, o caso “Instituto Royal” permitiu expor em escala nacional mais uma das cotidianas barbáries praticadas entre quatro paredes contra animais não humanos: neste caso, o (ab)uso de cobaias de diversas espécies em protocolos de experimentação científica. O aspecto infeliz que ainda persiste desde 2013 é a constatação de que existem centenas de outros institutos semelhantes ao Royal em plena atividade no país. Afinal, cada centro de pesquisa credenciado junto ao CONCEA (Conselho Nacional de Controle da Experimentação Animal, colegiado ligado ao MCTI) está efetivamente autorizado a realizar experimentos com animais não humanos da mesma forma que o Instituto Royal fez. A visibilidade do resgate envolvendo cães da raça Beagle tirou muitos cidadãos de uma zona de conforto moral. A ironia, porém, é que muitos cães sem raça definida foram e ainda são usados há décadas em diversos outros institutos brasileiros em práticas igualmente cruéis e pseudocientíficas sem despertarem, mesmo nos dias de hoje, uma comoção popular semelhante. O mesmo pode ser dito da frequência e quantidade com que outros mamíferos, aves, peixes, répteis, anfíbios e insetos foram e são também abusados em sigilosos laboratórios de diversos centros de investigação científica – no Brasil e no mundo. O escândalo do Instituto Royal contribuiu para uma reflexão sobre questões atinentes à instrumentalização animal praticada no meio científico, à constatação de uma forte dissonância cognitiva inscrita no imaginário popular (cães de raça definida não devem ser vítimas de experimentos; outros animais, sim) e a emergência de um protagonismo no ativismo nacional mais amplo e diversificado voltado à defesa desses vulneráveis em todo o país, sejam aqueles explorados pela ciência, indústria, entretenimento etc.

ANDA: Desde então, quais foram os avanços que obtivemos no Brasil quanto a isso? Como você analisa a conscientização das pessoas sobre o tema hoje? Houve alguma mudança?

Frank Alarcón –
Os avanços técnicos e morais assim como a conscientização dos brasileiros em relação ao tema ainda são muito tímidos. Graças à pressão por parte de ativistas defensores de animais e a uma razoável visibilidade midiática dada desde o resgate dos Beagles, algumas instâncias vinculadas à regulação e realização de experiências com animais passaram a dizer publicamente que esses protocolos, quando realizados, são feitos de forma racional, ética e apenas quando inexistem métodos alternativos para os fins desejados. Essa mensagem é enganosa. São muitos os laboratórios e cientistas no país que se dedicam a investigar processos bioquímicos e fisiológicos variados utilizando-se da tortura de animais não humanos, mesmo cientes da existência de variados métodos alternativos ou substitutivos realizados no exterior. Ainda que tais métodos não existissem, por que a reflexão ética precisa ficar a reboque da prática científica?

Entendo que o Brasil é um país extremamente atrasado em termos tecnológicos e éticos quando comparado a outras potências científicas. Ao referir-me à experimentação animal emprego sempre o termo tortura, pois entendo como tortura todo tormento e/ou agressão infligida a terceiros, à revelia, visando a obtenção de certas informações de interesse ou à extração de respostas desconhecidas do agredido. Por exemplo, quando macacos, camundongos, ratos, entre muitos outros animais, recebem contra sua vontade choques elétricos para realizarem uma determinada tarefa ou são privados de sono e comida para que se observem neles a manifestação de uma dada resposta orgânica, fica evidente que estamos falando de abuso simples e objetivo. Experimentação animal e maus tratos são termos indissociáveis. Muitos cientistas, estudantes e técnicos de ciência são ainda reféns de um sistema de pensamento ético e cientificamente datado. Quanto à população leiga, esta acaba acreditando ingenuamente no que doutos especialistas tendem a dizer. Todas as sociedades deveriam ter um real temor em viver em uma realidade na qual a ciência descolada da ética é praticada. Não é porque as vítimas não são humanas que elas são menos merecedoras de proteções e direitos fundamentais. A História nos dá exemplos de aonde tal raciocínio nos levou.

ANDA: No mesmo ano, a Cruelty Free International começou a sua campanha no Brasil. Qual é o objetivo da organização no país e como tem sido essa atuação?

Frank Alarcón – A Cruelty Free International – conhecida até 2015 pelo nome British Union for the Abolition of Vivisection – BUAV – foi fundada em 1898 na Inglaterra por Frances Power Cobbe, importante antivivisseccionista, feminista e sufragista irlandesa. Desde então, a ONG cumpre seu firme propósito de esclarecer globalmente a sociedade civil sobre o imenso absurdo ético e metodológico existente no uso de vulneráveis não humanos na prática científica. Com o aumento da fiscalização e conscientização mundial sobre a exploração animal na ciência, muitos países buscam perpetuar práticas obsoletas em outros países de legislação e/ou fiscalização mais branda ou inexistente.

Na perspectiva de muitos governos e empresas, o uso de animais na ciência movimenta um mercado de empregos, serviços, insumos e commodities economicamente interessantes. O objetivo da Cruelty Free International é combater tanto esse raciocínio como essa prática, trabalhando politicamente junto a tomadores de decisão, empresários e sociedade pela ampliação do círculo de consideração moral aos animais não humanos. Esta é uma batalha árdua, pois muitos elementos econômicos, políticos e tecnológicos interferem na pauta de decisões dos envolvidos. Por se tratar também de um assunto tecnicamente complexo, Animais & Ciência, a ONG investe tempo, estudo e capacitação em sérias análises sobre quais estratégias possam ser mais efetivas nessa mudança de paradigma – tanto no Brasil como em países que observam o Brasil em suas tomadas de decisão. A Cruelty Free International trabalha na construção de um canal de diálogo diplomático, técnico e político com todas as instâncias e personagens que possam mudar esse cenário em favor dos animais.

ANDA: Recentemente, a Cruelty Free iniciou uma campanha junto à ONU, pedindo o fim mundial dos testes em animais na indústria de cosméticos. Poderia fornecer mais informações sobre a iniciativa?

Frank Alarcón – A campanha tem sido trabalhada há meses e ainda está sendo trazida a público em etapas estratégicas, por isso a necessidade de uma gradual exposição desse trabalho. Neste momento, tornamos explícito o compromisso de usar nossa histórica expertise junto à ONU na elaboração e promulgação de uma diretriz global que proíba o uso de animais em testes cosméticos em todo mundo. É uma pauta ambiciosa, porém possível e necessária. Nossa experiência de sucesso e lobby político em todo o mundo abre perspectivas para que uma mudança significativa para os animais seja conquistada. É o momento para essa mudança diante do notório distanciamento que a população mundial busca de práticas que envolvem o sofrimento e abuso de animais. Parceiros importantes de renome mundial estarão conosco nessa batalha. O Brasil, uma das maiores potências mundiais no mercado cosmético, será um elemento primordial nesse processo. Para os animais, toda ajuda é bem vinda. O país precisa preparar-se para ser protagonista neste processo.

ANDA: Existe hoje um movimento mundial em direção ao uso crescente testes que não torturam outros seres inocentes. Cada vez mais países têm proibido experimentos em animais pela indústria de cosméticos. No Brasil, embora tenham ocorrido mudanças regionais, como a proibição dos procedimentos em São Paulo e Santos, a questão enfrenta uma resistência muito maior. Por que acredita que isso acontece e o que falta para a discussão avançar no âmbito federal e o Brasil seguir esses exemplos em prol dos animais?

Frank Alarcón – O Brasil é ainda um país muito atrasado em certos aspectos tecnológicos e culturais. O emprego de animais não humanos no estudo da biologia humana é um deles. Por um lado, profissionais do ramo da ciência ainda sustentam que um rato, um cão ou um macaco, com toda sua complexidade e singularidade molecular e bioquímica, possam ser um simulacro adequado para o entendimento da biologia humana (notoriamente um absurdo). Por outro, temos um país que não oferece a infraestrutura tecnológica básica aos cientistas para que protocolos executados há décadas em países do hemisfério norte sejam reproduzidos aqui.

Existe no Brasil a conjunção de um enorme atraso cultural, uma deficiência de recursos humanos e a inexistência da estrutura técnica e laboratorial necessária para a realização de protocolos modernos, uniformes e confiáveis. Para parte expressiva da comunidade científica é muito conveniente defender hábitos já estabelecidos como o uso de animais em seus experimentos. Além disso, 90% das pesquisa científicas no país são praticadas em universidades – o que significa dizer que há enormes restrições orçamentárias na pesquisa e uma pressão constante sobre os cientistas para produzirem artigos científicos que inflem as estatísticas institucionais. O que é mais fácil para eles? Produzir ciência de baixa qualidade repetindo práticas datadas, porém já consagradas? Ou buscar inovar metodologicamente sem possuir pessoal e equipamento adequado arriscando não produzir artigos científicos que afetam seus salários e orçamentos? A prática científica envolve enormes somas de dinheiro e interesses pessoais. Enquanto o país, os cientistas e seus laboratórios investirem as já precárias somas recebidas na repetição de protocolos datados e ineficazes, os animais continuarão sendo as vítimas dessa cruel matemática e desse profundo conflito de interesses.

ANDA: Você escreveu o manifesto “Por uma ciência ética e moderna SEM o uso de animais”, uma iniciativa do movimento “Brasil Por uma Ciência Ética e Moderna” da FAOS, para exigir o fim dos testes em animais em instituições de ensino no Brasil. Como esta questão tem caminhado no país e que desdobramentos podemos esperar agora?

Frank Alarcón – A recente reestruturação do Ministério da Ciência e Tecnologia com a incorporação da pasta das Comunicações garantiu que uma verba já pequena tivesse mais personagens dividindo o precário orçamento existente. De fato, houve uma revolta muito grande da comunidade científica brasileira quando ocorreu essa reestruturação em maio de 2016) Tudo indica que o já modesto investimento em Ciência, Tecnologia e Inovação no país irá sofrer uma significativa redução orçamentária. Com menos verba, haverá menor investimento em mudanças metodológicas e inovadoras. Diante desse cenário, cientistas provavelmente continuarão investindo naquilo que já fazem: explorar animais não humanos para gerar dados controversos e produzir artigos científicos de qualidade questionável que justifiquem a manutenção de seus projetos científicos. A implementação de protocolos sem animais na ciência é um processo que oferece um ganho econômico líquido no médio e no longo prazo. No curto prazo, demanda investimento orçamentário, treinamento de pessoal e aquisição de novos equipamentos e insumos. Sabemos que é possível inovar com verba reduzida. Resta saber se a comunidade científica brasileira está disposta a trocar o seu “certo” (as datadas práticas metodológicas) pelo “duvidoso” (o desenvolvimento e emprego de métodos substitutivos sem animais não humanos). Como o salário e os acréscimos por produtividade (publicação de artigos) destes profissionais está em jogo e como o Governo Federal tem anunciado contenções orçamentárias diversas, temo dizer que o cenário para os animais não seja dos melhores.

ANDA: Como está o desenvolvimento dos métodos alternativos aos testes em animais na indústria de cosméticos brasileira e sua implementação no país hoje?

Frank Alarcón – Existem algumas potências da indústria cosmética brasileira que investem seriamente em métodos alternativos e substitutivos. Estes, já constataram evidentes vantagens na substituição de animais e seus derivados na execução de testes de prova. Na União Europeia, são muitos os métodos que já abandonaram animais em elementos de teste. O uso de métodos substitutivos, além de um evidente e necessário avanço ético, proporciona redução de custos já implementados, economia de tempo na obtenção de resultados, maior uniformidade e facilidade de automação em sua execução, além de maior adesão e simpatia do consumidor às práticas da empresa e seus produtos. Fica claro que há uma clara relação entre investimento em pesquisa, resultados promissores e progresso ético (abandono no uso de animais) nesse campo. Porém, isso tem ocorrido na iniciativa privada. Quando não há ingresso de verba para o desenvolvimento, treinamento ou aplicação de métodos que não utilizem animais, os cientistas e a indústria permanecem presos a experiências obsoletas. Toda uma cadeia de serviços e insumos oriundos de biotérios e empresas que vendem matrizes, jaulas, rações, bebedouros, equipamentos de tortura animal é sustentada. Essa é uma das várias razões pela qual há grande resistência na mudança da prática científica envolvendo animais: muitos cientistas e personagens conexos lucram com a exploração animal. É simples deduzir que há uma conveniência em perpetuar práticas que são sabidamente abusivas e cientificamente precárias, mas que rendem dividendos a quem participa delas. Para muitos dos que insistem nessas práticas, animais são apenas veículos para a aquisição de dividendos.

ANDA: O partido ANIMAIS é o primeiro partido animalista da América Latina. Qual é a importância dessa representatividade política e como ela pode contribuir com a causa?

Frank Alarcón – Como em qualquer campo de luta por reconhecimento de direitos, a via do debate político é também um caminho importante. Mudanças de caráter cultural e legislativo. por exemplo, podem ser alcançadas ou estimuladas pela mobilização política de seus cidadãos em reivindicações de pautas progressistas. A luta pelo reconhecimento de direitos aos animais não-humanos é certamente uma dessas pautas. O Brasil é um país de matriz desenvolvimentista, extrativista, pecuarista e conservadora, que enxerga o interesse dos animais não humanos em não serem explorados e mortos como um dos últimos itens a serem discutidos em qualquer arena de debates. O recente exemplo das manobras legislativas realizadas no Senado e Câmara dos Deputados em favor das Vaquejadas corrobora esse ponto. O Partido ANIMAIS oferece ao país e a todos os brasileiros engajados ou simpatizantes pela luta por direitos animais, uma ferramenta formal de luta política em prol dos vulneráveis. Nenhum partido hoje no país tem uma pauta declarada e dedicada ao reconhecimento de direitos animais e à profunda proteção do meio ambiente.

Alguns partidos talvez flertem com esse assunto de maneira tímida ou mesmo conveniente. Já o ANIMAIS tem como claro objetivo defender e garantir aos animais o justo usufruto de suas necessidades mais fundamentais, tais como vida digna em completa liberdade, dotada de plena integridade física e psíquica, com franco acesso à sua ambientação ecológica originária e à espontânea manifestação de suas características inatas. Por isso, o ANIMAIS tem em sua fundação um colegiado exclusivamente vegano e tem como norte político uma ampla defesa dos animais não-humanos em todas suas representações biológicas. Para o ANIMAIS, a entrada oficial do ativismo animal brasileiro na seara da política precisa ocorrer já. Com espaços nas tribunas e nas casas tanto legislativas como executivas, será possível dar visibilidade e capilaridade à pauta de direitos animais e alcançar mudanças efetivas em cada estado e município brasileiro sem a necessidade de incompletos favores parlamentares. Na condição de porta-voz do ANIMAIS, convido todos os cidadãos brasileiros assinar as fichas de apoiamento do partido e ajudar na coleta das 500 mil assinaturas necessárias para a oficialização da sigla partidária junto ao TSE. Sem que tenhamos um partido dedicado à Causa Animal no Brasil, de clara fundamentação filosófica – que conta inclusive com o apoio público do PACMA e outros partidos animalistas no mundo -, animais não-humanos continuarão amargando derrotas imensas no campo da política graças à opressão imposta pela mão humana.

Did you find apk for android? You can find new Free Android Games and apps.