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Humanos e Ciborgues: qual o lugar do animal?

Como será a relação entre humanos de carne e osso e os ciborgues superinteligentes? Em uma época em que “buscamos nos tornar deuses”, o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor...

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17/02/2017 às 18:30
Por Redação

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Divulgação

Como será a relação entre humanos de carne e osso e os ciborgues superinteligentes? Em uma época em que “buscamos nos tornar deuses”, o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor do livro Homo deus: uma breve história do amanhã, surpreende ao responder a essa pergunta. Ele dedica a 1ª parte do seu livro ao exame da relação entre o Homo sapiens e outros animais. Mesmo discutindo grandes questões da humanidade e do mundo moderno, Yuval insiste que não se pode realizar um debate sério sobre a natureza e o futuro da humanidade sem começar com nossos colegas animais.

Não tenho a pretensão de comentar tudo que ele descreve. Precisaria de muitas páginas. Selecionei apenas alguns fragmentos para essa partilha.  Para não cansar o leitor com inúmeras citações, adianto que o livro é a fonte. Vamos lá!

Somos destrutivos e predadores desde quando nos espalhamos pelos quatro cantos do mundo. Onde nós nos estabelecemos, modificamos a flora e a fauna. Segundo Yuval, não estávamos cientes das consequências de nossas ações. As pessoas falavam com animais, árvores e pedras, e também com fadas, demônios e fantasmas. Dessa rede de comunicações emergiam os valores e as normas que comprometiam humanos, elefantes, carvalhos e assombrações. As religiões animistas descreviam o Universo como uma grande ópera chinesa com um elenco ilimitado de atores de todos os matizes. Elefantes e carvalhos, crocodilos e rios, montanhas e rãs, fantasmas e fadas, anjos e demônios – cada um desempenhava um papel na ópera cósmica. Consideravam os humanos somente outro tipo de animal, não tinham a ideia dos humanos como uma criação única.

O advento da agricultura deu início a uma nova fase das relações entre humanos e animais e produziu novas ondas de extinção em massa, mas, o que é mais importante, criou uma forma completamente inédita de vida na Terra: a domesticação de animais. Os caçadores coletores conviveram por longo tempo com os agricultores, até que, com o passar dos séculos, essa nova forma de vida tornou-se predominante. Hoje, mais de 90% de todos os animais de grande porte estão domesticados. Lamentavelmente, as espécies domesticadas pagaram seu incomparável sucesso coletivo com um sofrimento individual sem precedentes. Embora o reino animal tenha conhecido muitos tipos de dor e sofrimento durante milhões de anos, a Revolução Agrícola gerou formas de sofrimento completamente novas, que só pioraram com o tempo.

Yuval elabora uma questão. Não estariam os animais domesticados em uma condição muito melhor do que a de seus primos e ancestrais selvagens? Porcos selvagens passam os dias à procura de comida, água e proteção e são constantemente ameaçados por leões, parasitas e inundações. Porcos domesticados, em oposição, usufruem de comida, água e proteção providas pelos humanos, que tratam suas doenças e os protegem contra predadores e calamidades naturais. O fato de cedo ou tarde irem para o matadouro torna sua sina pior, seja no que for, do que a dos porcos selvagens? O que é melhor, ser devorado por um leão ou ser abatido por um homem? Ele responde: O que torna a sina dos animais domesticados em fazendas industriais particularmente difícil não é exatamente o modo como eles morrem, mas, acima de tudo, o modo como eles vivem.

Pode-se causar grande sofrimento aos animais, mesmo assegurando sua sobrevivência e reprodução. Os animais domesticados herdaram de seus antepassados selvagens muitas necessidades físicas, emocionais e sociais que são supérfluas nas fazendas. Falamos de todos instintos, impulsos e emoções que evoluíram a fim de eles se adaptarem às pressões evolutivas para a sobrevivência e a reprodução. Mesmo desaparecendo subitamente, os instintos, impulsos e emoções configurados não desaparecem. Esta é a lição básica da psicologia evolutiva: uma necessidade moldada há milhares de gerações continua a ser sentida subjetivamente, mesmo se não forem mais necessárias na atualidade para a sobrevivência e a reprodução. Assim como os javalis, os porcos domesticados se comunicam usando uma rica variedade de sinais vocais e olfativos: porcas mães reconhecem o grunhido singular de seus leitões, e leitões com dois dias de idade já diferenciam os chamados de sua mãe do de outras porcas.

Porcas em fazendas industriais: durante a gestação, ficam trancadas por seus senhores humanos em minúsculos cercados/engradados de dois metros por sessenta centímetros, piso concreto e barras de metal, que mal permitem que as porcas prenhes se virem ou durmam deitadas de lado, muito menos que caminhem. Depois de três meses e meio nessas condições, elas são levadas para cercados um pouco mais largos, onde os filhotes nascem e são alimentados. Embora devessem mamar durante dez a vinte semanas, nas fazendas industriais os leitões são desmamados à força depois de quatro semanas, separados de suas mães e enviados para a engorda e o abate. A mãe é imediatamente inseminada e devolvida ao cercado de gestação para dar início a mais um ciclo. Uma porca típica passaria por cinco a dez ciclos antes de ser ela mesma abatida.

Os fazendeiros, rotineiramente, ignoram essas necessidades sem sofrer por isso nenhuma punição no âmbito econômico. Eles prendem os animais em gaiolas minúsculas, mutilam seus chifres e suas caudas, separam mães de crias e seletivamente criam monstruosidades. Os animais sofrem imensamente, embora continuem a viver a se multiplicar. De uma perspectiva objetiva, a porca não precisa mais explorar o entorno, socializar com outros porcos, apegar-se a seus filhotes, nem mesmo caminhar. Entretanto, de uma perspectiva subjetiva, a porca ainda sente fortes impulsos para realizar todas essas ações e, se eles não forem satisfeitos, o animal sofre imensamente. Porcas trancadas em cercados de gestação costumam demonstrar frustração aguda, alternada com extremo desespero.

Na verdade, atribuir emoções a porcos não os humaniza. Isso os “mamiferiza”. Emoções não são uma qualidade exclusivamente humana – elas são comuns a todos os mamíferos (assim como a todas as as aves e provavelmente a alguns répteis e peixes). Todos os mamíferos desenvolveram aptidões e necessidades emocionais. É provável que humanos amedrontados, babuínos amedrontados e porcos amedrontados passem por experiências semelhantes. Há diferenças, é claro. Porcos não parecem experimentar os extremos de compaixão e crueldade que caracterizam o Homo sapiens, nem o sentimento de admiração. Uma emoção essencial é aparentemente compartilhada por todos os mamíferos: a ligação entre a mãe e sua cria. Na verdade, é o que dá aos mamíferos seu nome. A palavra “mamífero” vem do latim mamma, que significa “seio”. As mães mamíferas amam tanto suas crias que lhes permitem sugar de seu próprio corpo. Os filhotes mamíferos, por sua vez, sentem um desejo irresistível de se juntar a suas mães e ficar perto delas. Na natureza, leitões, bezerros e cãezinhos que não conseguem ficar junto a suas mães raramente sobrevivem por muito tempo. Os mamíferos não vivem só de alimento. Eles precisam igualmente de ligações emocionais. Assim, as indústrias de carne e de laticínios estão assentadas no rompimento da mais fundamental ligação emocional no reino dos mamíferos.

Da grande orquestra com inúmeros atores, hoje temos apenas dois personagens:  o homem e Deus. O Sapiens tornou-se o herói principal em torno do qual gira todo o Universo. O restante do elenco – todos os animais e plantas e demais fenômenos naturais – foi transformado em um cenário silencioso. Encontramos motivos para justificar a superioridade humana e a exploração dos animais. Agora, no decorrer da Revolução Científica, a humanidade silenciou também os deuses. O mundo transformou em um one man show.

O gênero humano está sozinho num palco vazio, falando consigo mesmo, negociando com ninguém e adquirindo poderes enormes sem nenhuma obrigação. Depois de decifrar as leis mudas da física, da química e da biologia, o gênero humano agora faz com elas o que quiser.

O antigo caçador coletor ia para a savana – ele pedia ajuda ao touro selvagem e o touro pedia algo ao caçador. Antigo fazendeiro queria que suas vacas produzissem muito leite, pedia ajuda a um deus. Consideravam-se o ápice da criação. Quando uma equipe de avental branco do Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Nestlé quer aumentar a produção de laticínios, ela estuda genética – e os genes nada pedem em troca. Os cientistas vão nos elevar à categoria dos deuses. A ciência permite que companhias modernas sujeitem vacas, porcos e galinhas a condições mais extremas. Atualmente é possível compactar dezenas de milhares de porcos, vacas ou galinhas em fileiras bem-arrumadas de gaiolas abarrotadas e produzir carne, leite e ovos com uma eficácia sem precedentes.

Será que a vida humana é mais preciosa que a vida dos suínos simplesmente porque o coletivo humano é mais poderoso do que o coletivo suíno? Os Estados Unidos são muito mais poderosos do que o Afeganistão; isso implica que a vida dos americanos tem valor intrínseco maior do que a vida dos afegãos?

Algumas conclusões dessa introdução são dadas por Yuval. Como historiador, ele diz que a história visa acima de tudo nos tornar cientes de possibilidades. Historiadores estudam o passado não para poder repeti-lo, e sim para poder se libertar dele. O estudo da história tem o objetivo de nos livrar dessa submissão ao passado. Movimentos que buscam mudar o mundo frequentemente começam com a reescrita da história, permitindo reimaginar o futuro. Se você quer isso e aquilo… o primeiro passo é recontar sua história. A nova história vai explicar que “nossa situação atual não é nem natural e nem eterna”.

 

 

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