Amelia Gonzalez

Desrespeito com animais é uma das marcas da humanidade

Caros leitores, quero dizer que haverá um tom de amargura neste texto. Perdi meu cachorro há dois dias. Ele era pequeno, saudável, lindo, tinha 9 anos e, aparentemente, foi vítima...

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23/02/2017 às 22:00
Por Redação

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Por Amelia Gonzalez*

Divulgação

Caros leitores, quero dizer que haverá um tom de amargura neste texto. Perdi meu cachorro há dois dias. Ele era pequeno, saudável, lindo, tinha 9 anos e, aparentemente, foi vítima de envenenamento. Digo aparentemente porque não foi feita a necropsia, portanto nada posso comprovar. Mas todos os sintomas da hora da morte levam a essa conclusão. Se foi envenenamento, a hipótese mais provável é que ele tenha ingerido chumbinho, aquele remédio contra rato que é proibido no Brasil mas que se vê fartamente oferecido nas ruas do Centro do Rio onde há camelôs. E que muitos condomínios usam para acabar com os roedores. Matam-se os ratos e mais quem estiver em volta, em nome da “saúde” dos humanos. É bom registrar que já existe tecnologia suficientemente capaz de acabar com as “pragas” urbanas sem causar impactos ao redor.

Uma vez esclarecidos sobre o meu estado de ânimo, sinto-me mais confortável para compartilhar meu pensamento pouco otimista quando li hoje a notícia de que a Nasa acaba de descobrir um sistema solar semelhante ao nosso. Se a humanidade decidir habitá-lo também, provavelmente ele já estará em risco. Em algum tempo (bem, nós não estaremos aqui para comprovar), não sobrará mais meio ambiente para contar história. Porque o homem é assim: não vê obstáculos naturais quando quer preservar sua espécie. Com esse objetivo, flora e fauna estarão sempre servindo como obstáculo.

E não é sempre para preservar a espécie que o homem decide exterminar com animais e matas. Às vezes a atrocidade acontece por um simples capricho, como por exemplo, ter objetos de marfim puro. Segundo a organização não governamental de conservação alemã Pro Wildlife, no ano passado, em apenas quatro apreensões em toda a Europa,foram confiscados 2.972 quilos de marfim. Aumentou muito em comparação ao ano de 2015, quando foram confiscados 554 quilos e 1.043 esculturas de marfim.

Vale a pena lembrar que para obter marfim puro é preciso matar um animal que chega a pesar 7 toneladas e é o maior mamífero terrestre sobrevivente de uma extensa radiação no período eoceno. Come ervas, frutas e folhas de árvores, o que contribui para manter árvores e arbustos sob controle nas savanas. Não costuma ser agressivos contra humanos, a menos que seja invadido e desrespeitado no período do acasalamento, quando libera uma quantidade enorme de hormônio testosterona e, por isso, é capaz de se enfurecer e não suportar, por exemplo, rituais dos quais muitas vezes é obrigado a protagonizar, já que, para alguns povos, o elefante é um animal sagrado.

Não é difícil imaginar que os caçadores dessa espécie tranquila e calma devem usar métodos bastante invasivos e agressivos para matá-los. Prefiro não investigar a respeito porque já estou suficientemente abalada.

Mas a boa notícia é que a União Europeia deve proibir a exportação de marfim bruto a partir de julho deste ano, segundo reportagem do jornal britânico “The Guardian”. É boa notícia porque a Europa vende mais marfim cru e esculpido para o mundo do que qualquer outro lugar, alimentando um apetite aparentemente insaciável por presas de elefante na China e no leste da Ásia, conta o repórter Arthur Neslen. A Alemanha já proibiu as exportações brutas de marfim com dimensões superiores a um quilo – ou 20 cm de comprimento – desde 2014 e é agora um dos principais intervenientes nas conversações em Bruxelas destinadas a implementar o plano de ação da União Europeia para combater a criminalidade contra a vida selvagem.

“Embora o comércio internacional de marfim tenha sido largamente proibido desde 1990, os vendedores europeus exportar legalmente o marfim “colhido” antes dessa data, sejam crus – presas inteiras, pedaços de marfim ou sucatas – ou trabalhados por escultura, polimento ou gravura”, diz o texto.

Por sorte, esse crime bárbaro contra criaturas indefesas que já estão entrando na lista das espécies em extinção está sendo denunciado por celebridades. Isso colabora para que o mundo inteiro se dê conta do que está acontecendo e, quem sabe, há de pôr alguma dúvida, ao menos, nas pessoas que contribuem para a matança quando decidem ostentar acessórios de marfim.

Não, isso não é bonito, lembra a vencedora do Oscar, Lupita Nyong’o, ao posar com um bebê elefante resgatado de uma armadilha de caçadores. Na legenda da foto, postada no Instagram, a atriz escreveu: “Por ano, 33 mil elefantes são assassinados para que as pessoas possam usar joias e acessórios com o marfim extraído desses animais”.

Nicky Campbell, jornalista apresentador de televisão britânico, também aderiu à causa e decidiu pôr o dedo direto na ferida em recente artigo, perguntando aos leitores se, ao olharem para uma faca ou palito de marfim eles conseguem se lembrar de um animal com o rosto cortado, sangrando até a morte, para enfeitar aquele objeto.

“Elefantes choram, choram e demonstram empatia. Isso não é Disney. É ciência. Qualquer biólogo irá dizer-lhe porquê, e qualquer etólogo e cientista irá enviar-lhe artigos que são uma revelação total sobre a vida desses animais (eles foram para mim). Isto (o marfim) não é bonito.”, escreveu ele.

Leonardo DiCaprio, Arnold Schwarzenegger, Jared Leto, Kate Middleton, Susan Sarandon, Kathryn Bigelow, Kristin Davis e outros também decidiram abraçar a causa. Isso pode ser bom.

Fato é que a verdade mais óbvia, conforme Campbell lembra muito bem, é que o marfim só tem valor verdadeiro para o elefante. Somente a vaidade e a ganância dos humanos é que deu a ele um valor financeiro.O jornalista termina seu artigo com uma frase esperançosa, dizendo que a humanidade há de mostrarque somos melhores do que isso. Ele acredita que vamos conseguirrecuperar os elefantes e desvalorar o marfim.

Já eu, por causa do trauma que passei com a perda do meu cão, aparentemente vítima da ignorância humana, confesso que hoje não tenho muita esperança numa conscientização sobre a importância de se acabar com o comércio de marfim em respeito à vida dos elefantes. Vai ser preciso ter lei a respeito e, mesmo assim, sempre haverá alguém a burlá-la. Assim são os humanos.

* Jornalista, editou o caderno Razão Social, no jornal O Globo, durante nove anos, e nunca mais parou de pensar, estudar, debater e atualizar o tema da sustentabilidade, da necessidade de se rever o nosso modelo de civilização.

Fonte: G1

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