QUESTIONANDO O ÓBVIO - LUCIANO CARLOS CUNHA

Argumentos ambientalistas e antropocêntricos a favor do veganismo representam um grande risco para os animais

Uma visão muito comum dentro do movimento de defesa animal é a de que qualquer argumento que conduza alguém a adotar um modo de vida que exclua o consumo de...

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01/02/2017 às 20:56
Por Redação

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Uma visão muito comum dentro do movimento de defesa animal é a de que qualquer argumento que conduza alguém a adotar um modo de vida que exclua o consumo de produtos provenientes da exploração animal (isto é, que conduza alguém a adotar um modo de vida vegano) é igualmente bom. De acordo com essa visão, não há necessidade de se reivindicar que os animais não humanos sofrem uma discriminação (o especismo) por não recebem igual consideração. Se o que importa é beneficiar o maior número de animais, de acordo com essa visão é bem vindo qualquer argumento que conduza as pessoas ao veganismo. Isso inclui os argumentos de preocupação pelo meio ambiente (“o veganismo ajuda a aumentar a quantidade de áreas verdes”) e os argumentos de preocupação antropocêntrica (“ser vegano é mais saudável”).

A meta por trás de tal visão sem dúvida tem fortes razões a seu favor (“o que importa é beneficiar o maior número de animais”). Contudo, sua análise dos fatos provavelmente não está correta. Vejamos por que:

Em primeiro lugar, é falso que os argumentos ambientalistas e antropocêntricos a favor do veganismo possuem o mesmo potencial para beneficiar os animais que possui o argumento de consideração pelos animais. É preciso lembrar que os animais não humanos se encontram na terrível situação em que se encontram porque a imensa maioria dos humanos não lhes dá consideração (ou, pelo menos, não dá a consideração que daria a membros da espécie humana). Essa postura surge predominantemente de duas visões. Uma delas é o especismo antropocêntrico: a ideia de que apenas membros da espécie humana importam (ou, que importam em maior grau). A outra é a ideia de que não devemos nos importar com cada um dos seres sencientes individualmente (isto é, os seres capazes de sofrer e desfrutar), mas, com totalidades não sencientes como equilíbrio ecológico, ecossistemas, espécies, biodiversidade, etc (ou então, que devemos nos preocupar mais com essas entidades não sencientes do que com o bem dos animais). Ou seja, a visão ambientalista. Ambas as visões excluem da consideração moral plena os animais não humanos. Quando os próprios ativistas da causa animal argumentam que o sofrimento e a morte dos animais não é uma razão suficiente para que tentemos abolir sua exploração (que é o que é subentendido nos argumentos antropocêntricos e ambientalistas a favor do veganismo), estão (mesmo sem querer) a enfatizar e divulgar essas mesmas visões que são a causa da situação terrível em que os animais se encontram. Um problema só é resolvido de maneira duradoura quando suas causas são combatidas, e não apenas os seus sintomas.

Em segundo lugar, há um risco ainda maior quanto ao uso dos argumentos ambientalistas e antropocêntricos a favor do veganismo. O risco não é apenas de eles não serem tão eficientes em beneficiar os animais. O risco maior é de tais argumentos a longo prazo na verdade aumentarem a quantidade de animais prejudicados. E, aumentarem com uma eficiência tal que até mesmo a exploração animal pareceria um problema pequeno, em comparação. Parece impossível?

Vejamos por que isso é assim:

Há pelo menos três coisas que poderiam levar alguém a cometer o engano de concluir que, quanto maior a quantidade de veganos (seja lá devido a que argumento), necessariamente menor a quantidade de animais prejudicados:

A primeira dessas coisas é a tendência que a imensa maioria de nós possui de computar apenas os danos que os animais padecem em decorrência da exploração. Contudo, os animais padecem de danos decorrentes de outras fontes. Um exemplo são os danos colaterais de outras práticas humanas que não envolvem exploração animal (por exemplo, nas plantações e colheitas uma quantidade gigantesca de animais é morta indiretamente). Outro exemplo são os danos que os animais padecem em decorrência dos próprios processos naturais: morte por inanição, doenças, acidentes, parasitismo, catástrofes naturais e deformidades, por exemplo (voltaremos nesse ponto mais adiante). A maior parte das pessoas parece, ou não saber (ou se esquecer) que os animais também são prejudicados dessas formas, ou então reconhecer que os animais são também prejudicados dessas formas, mas dar importância apenas (ou, dar importância maior) aos danos decorrentes da exploração. Contudo, essa disparidade é injustificada, uma vez que, para os animais, não faz diferença se serão prejudicados devido à práticas exploratórias, devido a efeitos colaterais de outras práticas humanas, ou por processos naturais. O que é melhor pare eles é que estejam livres daquilo que os prejudica, e que estejam o melhor possível. Assim sendo, é importante prestarmos atenção na possibilidade de determinado curso de ação representar uma diminuição na quantidade de danos que os animais padecem em decorrência da exploração e ao mesmo tempo representar um aumento nos danos que os animais padecem em decorrência de outras fontes (veremos mais sobre isso a seguir). Assim sendo, não podemos deduzir, do fato de que determinada ação reduz a quantidade de animais explorados, então que necessariamente ela reduziu a quantidade de animais prejudicados. Se ela reduziu a quantidade de animais explorados, mas aumentou em uma proporção maior a quantidade de animais prejudicados por efeitos colaterais de práticas não exploratórias ou por processos naturais, então tal prática aumentou a quantidade de animais prejudicados no total.

A segunda coisa é que a maior parte de nós, quando analisa as prováveis consequências de nossas decisões, se esquece de levar em conta a maneira pela qual outras pessoas são influenciadas a tomar decisões similares, baseadas no que decidimos (e, por esse motivo, se esquece de levar em conta um componente na estimativa das prováveis consequências a longo prazo). E, quando oferecemos um argumento a favor de determinada ação, estamos influenciando outras pessoas a adotarem outras ações que se relacionam à visão a qual apelamos no argumento. Por exemplo, se alguém defende o veganismo com argumentos ambientalistas, está influenciando outras pessoas a aceitarem outras metas que o ambientalismo mantém. E, o resultado de um possível mundo onde uma grande parte das pessoas é vegana por razões ambientalistas é a alta probabilidade de, nesse mundo, as principais metas ambientalistas se concretizarem. Veremos, mais adiante, qual é o risco que tais metas apresentam para os animais.

A terceira coisa que pode estar na base da crença de que, quanto maior a quantidade de veganos (seja lá devido a que argumento), necessariamente menor a quantidade de animais prejudicados, é que a imensa maioria das pessoas não faz ideia de como realmente os processos naturais afetam os animais não humanos. A maioria das pessoas acredita que a vida típica dos animais na natureza, se os humanos não os prejudicarem, contém episódios esporádicos de sofrimento, mas que a norma é que tais vidas sejam minimamente significativas. A maior parte das pessoas não faz ideia de que os processos naturais maximizam o sofrimento e a quantidade de mortes dos animais de maneira muitíssimo mais eficiente até mesmo do que a exploração animal. Isso é assim por vários motivos, mas, o principal deles é a maneira como ocorre a dinâmica de populações.A imensa maioria dos animais se reproduz de modo a maximizar a quantidade de filhotes. Há desde espécies cuja ninhada é de várias dezenas, passando por espécies que possuem ninhadas com centenas, milhares, e até mesmo espécies que colocam vários milhões de ovos por gestação. Isso indica que a maior parte desses animais não chega a sobreviver. Podemos deduzir isso porque, se a maior parte desses filhotes sobrevivesse, veríamos em pouco tempo um crescimento muito grande da população dessas espécies. Mas, isso não acontece. Em um período de tempo onde de uma geração para outra a população de uma espécie não aumentou, o que podemos deduzir é que em média apenas um filhote por ninhada chegou a sobreviver e substituir um adulto da geração anterior. Isso significa que em média sobrevivem apenas dois filhotes de cada ninhada (que, como vimos, muitas vezes chegam a vários milhões). Todo o restante nasce geralmente apenas para experimentar sofrimento intenso e morrer depois disso (pensemos, por exemplo, na morte lenta e dolorosa por inanição). Mesmo que aconteça de boa parte dos ovos ser destruída antes de formarem seres sencientes, ainda assim o número de seres sencientes que passaria por esse destino terrível é gigantesco. Tão gigantesco que faz quase desaparecer em comparação a quantidade de mortes e sofrimento presente em toda a exploração animal [1] .

Agora deve estar claro qual é o risco de o veganismo motivado por ideais ambientalistas ou antropocêntricos vir a maximizar o sofrimento e mortes dos animais não humanos. Dada a maneira como acontece a dinâmica de populações, quanto maior a quantidade de áreas verdes no mundo, mais eficientemente os processos naturais maximizarão a quantidade de animais que nasceria apenas para sofrer intensamente. E, veganos motivados por ideais ambientalistas e antropocêntricos pensarão que é algo bom expandir a quantidade de áreas verdes (essa é uma das “vantagens” mais citadas do veganismo). Isso pode ser bom de um ponto de vista antropocêntrico ou ambientalista, mas, certamente não é bom para os animais afetados (como vimos, a quantidade deles que nasceria apenas para sofrer seria maximizada de maneira muito mais eficiente do que acontece na exploração animal). E, se o ideal de consideração pelos animais não estiver amplamente difundido, a maior parte das pessoas simplesmente não se preocupará em minimizar essa quantidade de animais que nasce apenas para sofrer intensamente em decorrência dos processos naturais. Se o que estiver difundido forem os ideais ambientalistas e antropocêntricos, pelo contrário, as pessoas se empenharão em geral em maximizar o território natural (e, com isso, o sofrimento e quantidade de mortes dos animais não humanos). Um exemplo claro desse risco está presente nas propostas de reflorestar locais já desertificados; enviar material biológico com vistas a criar condições para o surgimento de vida senciente em outros planetas ou corpos celestes (como na terraformação [2] ); ou enviar sementes pelo espaço (como na panspermia [3] ).

O que foi argumentado acima não deve ser confundido com uma defesa de que o veganismo deve ser abandonado. Ao invés, é uma defesa de que o veganismo só beneficia os animais se for reivindicado com argumentos a favor da consideração pelos animais. E, isso é assim nem tanto pelo impacto direto que o veganismo teria em diminuir a quantidade de animais explorados. É muito mais, ao invés, pela maneira como tal linha de argumentação influenciaria as pessoas a se preocuparem em diminuir a quantidade imensamente maior de animais que viriam ao mundo apenas para sofrer, que, como vimos, a exploração animal (por grande que seja) representa apenas uma fração mínima.

[1] Mais detalhes em HORTA, O. 2010a. Debunking the Idyllic View of Natural Processes: Population Dynamics and Suffering in the Wild.  Télos, 17, 73-88; TOMASIK, Brian. How Many Animals are There?. Essays on Reducing Suffering, 2014. http://reducing-suffering.org/how-many-wild-animals-are-there/

[2] BURTON, Kathleen. 2004. “NASA Presents Star-Studded Mars Debate”. NASA, March
25. http://www.nasa.gov/centers/ames/news/releases/2004/04_22AR.html.

[3] MEOT-NER, Michael, and Gregory L. MATLOFF. 1979. “Directed Panspermia: a Technical and Ethical Evaluation of Seeding the Universe”. Journal of the British Interplanetary Society 32: 419-23. http://adsabs.harvard.edu/abs/1979JBIS…32..419M.

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