HAROLDO BOTTA

"A cultura medieval de milhões de pessoas trata os animais como propriedades ou produtos"

O ex-ator e consultor de Feng Shui Haroldo Botta desistiu da carreira na indústria de entretenimento para dedicar-se a uma vida mais espiritual e conectada com a natureza. O paulistano,...

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28/12/2016 às 20:30
Por Redação

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Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

O ex-ator e consultor de Feng Shui Haroldo Botta desistiu da carreira na indústria de entretenimento para dedicar-se a uma vida mais espiritual e conectada com a natureza. O paulistano, que atualmente mora em São Pedro (SP), preocupa-se em conscientizar as pessoas sobre os direitos animais.

Ele já denunciou os maus-tratos que ocorrem rodeios do município e lutou pela proibição da prática extremamente cruel. Em 2012, Haroldo também fundou a Ecovilla de São Pedro cuja proposta é estimular a união entre todos os seres e, assim, construir um mundo de paz para todos. Nesta entrevista exclusiva, o candidato a vereador de São Pedro pelo Partido Verde (PV) neste ano fala sobre direitos animais, espiritualidade, explica a proposta da ecovila e faz críticas ao sistema político nacional.

ANDA: Como ativista, você já protestou muito contra rodeios. Em 2014, por exemplo, denunciou os extremos maus-tratos de animais em São Pedro, na Festa do Peão do município. Recentemente ocorreu uma mobilização nacional contra as vaquejadas, que também são práticas extremamente cruéis e que torturam animais. Como avalia esse movimento contra as vaquejadas? Eles apontam uma sensibilização do público?

Haroldo Botta – As provas de rodeios e vaquejadas são um instrumento de tortura, de exploração da vida animal e de graves maus-tratos em nome da ganância e da prática de “esporte’, defendidas por aqueles que ainda não conseguiram expressar sua compaixão e respeito pelos seres que convivem conosco no dia a dia. Desde que mudei-me para São Pedro, tenho protocolado representações no Ministério Público contra esse tipo de evento, sendo que a atual administração já responde por improbidade administrativa por desobedecer as leis municipais que protegem os animais de rodeio.

ANDA: Qual é sua percepção sobre a lei que estabelece rodeios e vaquejadas como um patrimônio cultural? O que é preciso para desconstruir essa percepção equivocada que considera a tortura um entretenimento?

Haroldo Botta – A massificação pela mídia e apoio de grandes empresas, que veem possibilidade de lucros astronômicos em eventos dessa natureza, são os responsáveis pelo atual estado de abandono e exploração a que os animais são submetidos. Junta-se a isso a cultura ainda medieval de milhões de pessoas, que tratam os animais como propriedades ou produtos, e teremos parlamentares sem nenhum discernimento ou estudo sobre as leis fundamentais que regem os direitos animais, aprovando leis que ferem a constituição em nome de interesses escusos. O processo de conscientização deverá ser em maior intensidade nesse momento para que possamos viver em uma sociedade que apoie uma cultura de paz e harmonia em um curto espaço de tempo.

ANDA: Você fundou a Ecovila de São Pedro em 2012. Por que decidiu iniciá-la e como isso ocorreu?

 Haroldo Botta – Fui ator profissional desde meus oito anos de idade, onde pude expressar-me por 22 anos até o momento em que decidi não mais viver em nome do “mercado”, decidindo-me a deixar para trás uma carreira sólida e bem-sucedida para encarar uma viagem solitária em nome de uma resposta a questionamentos mais essenciais para minha vida. Viajei por muitas comunidades espirituais, ecológicas e alternativas, tanto no Brasil quanto no exterior e há pelo menos 25 anos venho propondo a amigos e simpatizantes de uma vida comunitária e mais voltada à simplicidade, a experiência de viver numa ecovila, seja ela urbana ou rural.

ANDA: Em uma entrevista anterior, você já comentou que a proposta da ecovila é de trazer uma comunhão com outros seres. De que maneira as ecovilas podem ajudar a espalhar a mensagem sobre a compaixão por todas as espécies?

Haroldo Botta – A relação de respeito para consigo mesmo ao nos aprofundarmos em questões espirituais leva-nos consequentemente a ser mais tolerantes e compassivos com todos os seres, sejam eles do reino animal, racionais ou não, do reino vegetal. Isso significa respeito, cuidado e amor pelos rios, florestas, insetos, vida marinha, pelos sítios arquitetados pela mãe natureza. O nosso planeta é uma grande ecovila (eco-oikos, do grego = casa), onde ainda estamos aprendendo a conviver com tantos povos, culturas, línguas e costumes em comunhão fraternal. Os animais fazem parte dessa comunhão e nos trazem ensinamentos que muitos de nós ainda não perceberam por ignorar as leis básicas do viver e deixar viver.

ANDA: Em seu ativismo, os direitos animais somam-se à questão ambiental e, portanto, ao respeito não apenas por outras vidas, mas também pela preservação da natureza. Acredita que hoje as pessoas percebem mais como estes temas se interconectam e como suas ações e hábitos de consumo impactam todo o planeta ou ainda falta muito para chegarmos a este ponto?

 Haroldo Botta – Quando sabemos que nossas matas, rios e animais tem sido tratados como empecilhos a um crescimento estimulado por governantes ou corporações, que visam apenas ao domínio e exploração sem nenhum discernimento sobre as consequências geradas no processo, nós, como sociedade civil, temos tido atitudes quase apáticas frente à quantidade de trabalho a ser feito para recuperar ou mesmo preservar os ecossistemas destruídos. O movimento vegano tem crescido vertiginosamente nos últimos anos e até as empresas tidas como adeptas do consumo inconsciente estão aderindo a essa manifestação, ainda que timidamente, mas isso nos permite ver que esse modo de encarar os assuntos relacionados à vida animal pode ser revelador e transformador de nossa sociedade. As redes sociais tem tido um papel importante nessa mudança de crescimento, oferecendo uma plataforma de divulgação jamais imaginada há 20 anos. Estamos caminhando a passos largos nessa direção, mas precisamos ficar atentos para não nos insensibilizarmos a ponto de apenas “curtir ou compartilhar” informações virtualmente, esquecendo-nos de por a mão na massa.

ANDA: Embora existam mais pessoas engajadas na proteção animal, a representatividade política ainda é muito pequena. Após se filiar ao PV, você observou preconceito ou descaso pelo tema dentro desse contexto?

 Haroldo Botta – Desde que abandonei minha profissão, em 1990, também deixei de contribuir socialmente com minha cidadania plena ao não me comprometer com processos eletivos, ficando durante 20 anos sem votar ou mesmo justificar frente aos órgãos do estado. Só quebrei esse jejum há quatro anos ao aceder o pedido de um voto de confiança no atual prefeito de minha cidade,  que logo se mostrou incapaz de cumprir com suas promessas de promover uma política onde o meio ambiente e os animais tivessem prioridade em sua administração. Filiei-me ao Partido Verde a convite de amigos ambientalistas em 2015, mas sem intenção de candidatar-me a algum cargo eletivo, apenas para estar entre pessoas que defendem o movimento verde em nossa cidade. Mas na política as coisas funcionam bem no papel e ao pré candidatar-me a prefeito com uma proposta de cidade sustentável, percebi o quanto o discurso político está longe da realidade transformadora a que me propus a realizar. Os interesses pessoais assumem posição de destaque em detrimento de uma visão a médio e longo prazo para nossas cidades, que é a base de um desenvolvimento sustentável. Ainda vivemos num país onde os conchavos, a compra de voto, o desrespeito às leis é moeda corrente, e para que possamos mudar essa consciência predatória de recursos naturais ou humanos, temos que ter muita paciência, estratégias e fé que um trabalho amoroso, mesmo que em pequenas proporções, seja a mola propulsora de uma vida social harmônica. Ainda constatamos gestores, relegando a um segundo plano, temas como a proteção animal como um entrave ao crescimento, pois adotar políticas fundamentadas no amor e solidariedade para a vida animal, ainda é considerada “fraqueza” pela política tradicional. Cabe a nós da sociedade civil, posicionarmo-nos mais firmes e atuantes na cobrança de gestões voltadas para essa área de nossas vidas.

ANDA: Qual é a importância de uma maior representatividade política sobre o bem-estar animal e como ela beneficiaria a todos nós?

 Haroldo Botta – O processo político em nosso país está passando por uma reformulação dolorosa, pois presenciar agentes públicos desviarem milhões, ou mesmo bilhões, em nome de uma vida materialista e infértil, tem deixado a todos nós atordoados e muitas vezes sem saber que rumo tomar. Acredito que uma vida saudável, a começar pelo alimento sem sofrimento animal em nossas refeições diárias, ou atitudes de consumo consciente, de uma vida simples voluntária, é uma posição política profunda e realmente transformadora. Cabe a cada um de nós expressar esses conceitos na prática do dia a dia e com certeza nosso país será, em um breve espaço de tempo, totalmente diferente do que vivemos atualmente.

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