PROJETO MUNDO CÃO

Conheça o casal que decidiu viajar pelo mundo para cuidar de cães abandonados

Em 2015, o vendedor técnico Sergio Medeiros e a condutora escolar Eleni Alvejan decidiram fazer uma jornada inusitada. O casal que morava em São Caetano do Sul (SP) vendeu a...

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15/12/2016 às 19:20
Por Redação

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Por Aline Khouri (da Redação)

Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

Em 2015, o vendedor técnico Sergio Medeiros e a condutora escolar Eleni Alvejan decidiram fazer uma jornada inusitada. O casal que morava em São Caetano do Sul (SP) vendeu a maioria de seus pertences para mergulhar em uma missão louvável: viajar pelo mundo para ajudar cães abandonados. Inicialmente,  o  chamado Projeto Mundo  Cão tinha o objetivo de percorrer as Américas para chegar até o Alasca (EUA) de carro.

Porém, agora o casal – que já rodou cerca de 70 mil quilômetros a bordo de seu carro apelidado carinhosamente de Mundrunga – decidiu transformar a ação em um estilo de vida. Nesta entrevista exclusiva à ANDA, Sergio e Eleni contam sobre a origem do projeto, suas experiências, planos futuros e o aprendizado que tiveram  ao longo desse caminho.

ANDA: Antes do Projeto Mundo Cão, vocês trabalhavam com moradores de rua. Como era isso e de que forma surgiu a ideia de viajar pelo mundo alimentando cães abandonados? Quando isso ocorreu?

Sergio Medeiros – Nosso trabalho com moradores de rua já tinha cerca de sete anos. Era uma ação voluntária onde eu e a Eleni procurávamos dar algum tipo de assistência a estas pessoas e seus cães. É muito gratificante poder fazer algo pelo próximo e também aprendemos com isso. Vimos e vivemos muitas coisas nestes anos. O que nos levou a viajar pelo mundo foi a simples vontade de mudar de vida, radicalmente. Nunca tivemos a pretensão de sermos a salvação destes animais, mesmo porque não teríamos recursos e condições para isso pela forma como vivemos, porém qualquer tipo de ação para o bem sempre é válida e alimentar os animais se tornou um motor para nossa mudança definitiva. Sempre gostamos de viajar e conhecer pessoas. Acho que estamos fazendo algo que muitas pessoas sentem vontade, não apenas ajudar os animais de alguma forma, mas sim mudar de vida e se colocar à prova diariamente. Muitas pessoas escrevem que largamos tudo para resgatarmos animais pelo mundo como se isso fosse verdade. Não, nós deixamos tudo para trás para começarmos uma nova vida e com isso estarmos mais perto, diariamente, dos cães abandonados que tanto amamos. Somente nós sabemos o que vimos e vivemos com esses cães que alimentamos no meio do nada, os encontramos em pele e osso e seus olhares nos poucos minutos em que estamos juntos já vale muito para ambos.

ANDA: Que tipo de preparos e adaptações foram necessários para a viagem?

Eleni Alvejan – Basicamente vendemos tudo e alugamos nosso apartamento para termos uma renda mensal. Além disso, adaptamos nossa Land Rover para ser a casa onde vivemos. Temos barraca de teto, caixa de água, fogão, geladeira, cama interna, toldo etc. O carro também necessitou de uma manutenção completa e adaptações internas para termos nossos armários da cozinha e guarda roupas.

ANDA: Como vocês se organizaram durante a viagem? Existia alguma rotina?

 Eleni AlvejanA falta de rotina é o que mais nos favorece. Nunca tivemos rotina. O que acontece durante o dia sempre é diferente e uma surpresa, mesmo porque raramente temos um trajeto definido. Evitamos fazer muitos planos para evitar falsas expectativas e assim estamos sempre abertos para as experiências diárias que é um grande aprendizado.

ANDA: Quais foram os principais obstáculos que enfrentaram?

Sergio Medeiros – Não poderíamos chamar de obstáculos, mas a manutenção do carro sempre é algo que nos deixa com medo porque geralmente estamos em estradas diversas e não é fácil encontrar mecânicos e peças de reposição. Neste caso, bem como em todos os outros, o único remédio é enfrentar seus medos e aprender com eles. Agora procuramos fazer nós mesmos a manutenção do carro e sempre temos peças de reposição no caso de uma emergência. Somente assim podemos viver na estrada. Ainda hoje estamos aprendendo.

ANDA: Vocês procuraram a entidade de bem-estar animal PAE no Equador e atuaram como voluntários em uma clínica e um abrigo de animais. Como foi essa experiência? Houve outras experiências semelhantes nos outros países por que passaram?

 Sergio Medeiros – Em todos os países que passamos buscamos essas experiências, seja com trabalhos voluntários ou qualquer tipo de ajuda. A PAE foi muito interessante porque conhecemos a fundo como são tratados os cães no Equador e a forma como nos receberam nos colocando como parte da família foi fantástica. O principal é que o que fica sempre acaba sendo o amor que vemos e aprendemos com as pessoas que trabalham com isso. Tínhamos uma rotina diária como funcionários da instituição fazendo de tudo.

ANDA: No site do projeto, vocês mostraram ter se sensibilizado durante a passagem pela Guatemala que possuía um grande número de cadelas grávidas e extremamente magras. Podem compartilhar outras histórias que os marcaram?

 Eleni AlvejanNa Bolívia, por exemplo, passamos por várias estradas onde os cães ficavam deitados no acostamento olhando os carros passarem. Incrível porque a cada quilômetro ou menos havia um e parecia que esperavam algo. Depois entendemos que infelizmente eles aguardavam que algo fosse jogado dos carros que passavam para poder comer e curiosamente eram fraldas descartáveis. Alguns adormeciam no acostamento e vimos vários sem uma pata dianteira, talvez por atropelamento.  Na Costa Rica encontramos inúmeros cachorros perambulando em pele e osso, sem forças pra nada. Na Guatelama, havia muitas cadelas que haviam dado à luz com mamas enormes e machucadas. Estas são apenas algumas situações que vimos.

ANDA: Infelizmente, o abandono de animais é um problema que ocorre em todo o mundo. Por que acreditam que isso ocorre? Seria pela falta de compaixão, de conscientização?

Eleni AlvejanNem tanto por falta de compaixão. Na verdade o que inicialmente vem a nossa cabeça é exatamente isso, que as pessoas abandonam e não se importam. Temos que olhar também um pouco para os lados e tentar entender de uma forma diferente. Em muitos lugares, as pessoas não tem condições de se alimentar. De alimentar a própria família. Outros têm ainda uma cultura diferente em relação aos animais, não porque são pessoas ruins, mas simplesmente porque não aprenderam diferente. Não podemos culpar e julgar, temos a oportunidade de ajudar e tentar fazer diferente, isso é o que vale a pena. Criticar não ajuda muito. O pior que vimos em todo trajeto na América do Sul e Central durante estes quase dois anos de vida na estrada é a procriação descontrolada. Por estarem nas ruas e não serem castrados, a quantidade de cães aumenta numa proporção inimaginável e isso resulta naquilo que vemos diariamente por todos os lados. Acreditamos que a castração seria uma forma de controlar este problema pela raiz.

ANDA: Vocês alertam as pessoas para não estimular o comércio de animais, mas sim adotar aqueles que precisam de novos tutores. Pela sua experiência, houve alguma mudança quanto a isso? As pessoas têm se sensibilizado mais em relação à crueldade dessa indústria?

Sergio Medeiros – Sempre houve esta mudança e nunca por nossa causa, ou pelo que fazemos. O tema “adoção” sempre esteve em alta nas redes sociais, na mídia etc. As pessoas estão tomando consciência disso mudando seus hábitos. Adotar é também um ato de caridade.

ANDA: Enquanto viajavam, observaram alguma diferença na forma como diferentes lugares tratam e lidam com a questão dos animais abandonados ou não? A percepção de vocês sobre essa questão continuou a mesma após a viagem?

Sergio Medeiros – Não sentimos diferença do tratamento que as pessoas dão aos cães na América Central e América do Sul, talvez pela similaridade na cultura. Na América do Norte, a situação permanece a mesma no México, há muitos cães perambulando pelas ruas, muito desrespeito e falta de amor, mas por outro lado, “como em todos os outros países” ainda se vê bastante gente preocupada e que os ajudam. Existem várias ONGs e ações voluntárias por todo o lado. Isso é muito bacana, mas também ainda insuficiente para mudar qualquer realidade. Falta iniciativa individual. Vimos muita boa vontade e boas ideias que talvez nunca irão sair da cabeça ou do papel. Qualquer coisa que seja feita em prol dos animais, por menor que seja, já ajuda. Cada um que faz  algo pequeno, provoca um impacto, “já é alguma coisa”. Observamos uma grande diferença nos EUA e Canadá. Nenhum animal nas ruas ou estradas. As políticas são um pouco diversas, mas basicamente na mesma linha: todos os cães são retirados das ruas e vão para abrigos temporários e são disponibilizados para adoção por um determinado período e se adotados são castrados. Porém, eles também têm suas mortes induzidas quando não conseguem um lar.Infelizmente, sempre irá existir o humano que abandona, despreza e descarta a vida, isso não diz respeito somente aos cães, mas os animais em geral são sempre presas fáceis. Nos Estados Unidos a caça é legal e em alguns estados, pagando US$ 10, um residente tem direito a uma licença para matar um urso. Nas lojas de caça e pesca, há vários cartazes das pessoas sorrindo com os animais ensanguentados debaixo do braço. Não caçam para sobreviver, mas para colocar uma pele na sala ou pendurar uma cabeça de alce na parede com o argumento de “controle do equilíbrio”. Realmente não conseguimos entender qual o prazer que esse tipo de atividade oferece. Por outro lado foi interessante falar de nosso projeto nos USA e Canadá porque algumas pessoas não entendem o que fazemos já que em seus países a realidade é totalmente diferente e muito se surpreendem por saber da quantidade impressionante de cães que nascem e vivem nas ruas ou são abandonados pelos mais diversos motivos. Em resumo percebemos que nos EUA e Canadá, talvez pela forma como o problema dos cães é tratado (independente de qualquer julgamento), isso resulte num controle da natalidade e o resultado é um número menor de cães. Também há uma responsabilidade bem maior pra quem pretende ter um animal. Tudo é mais controlado e exigido

ANDA: Qual foi o maior aprendizado que essa jornada lhes proporcionou?

Eleni Alvejan Sentir o amor diariamente, agradecer sempre, estar sempre disposto a estender a mão. Nossa viagem não terminou, e não sabemos como nem quando terminará. O que antes era uma “viagem” de ida e volta ao Alasca, agora se tornou um estilo de vida. Depois do Alasca, descemos novamente para os EUA e neste exato momento estamos na Califórnia e nossos planos são de embarcar o carro para a Europa no início do próximo ano para então seguirmos para a África, Oriente Médio e Ásia, chegando finalmente à Rússia. Batizamos esta nova fase de “WORLD TRIP 2015…”, uma viagem de volta ao mundo que teve início em 2015, mas como os três pontinhos indicam, não tem data pra terminar. Nosso projeto continua sim, mesmo porque sem ele perderíamos uma grande oportunidade de aprender. Não temos ideia do que vamos encontrar pela frente com relação aos animais em todos os países que pretendemos visitar, mas com certeza sempre vamos alimentar um cão abandonado, simplesmente porque os amamos e isso nos faz bem.

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