JUNIA MACHADO

Santuário de Elefantes Brasil dá nova esperança para animais explorados como entretenimento

Depois de mais de 40 anos sendo exploradas em circos e zoológicos, Maia e Guida finalmente encontraram um lar onde são livres e vivem cercadas de amor e paz: o...

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16/11/2016 às 21:00
Por Redação

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Por Aline Khouri (da Redação)

Arquivo Pessoal

Arquivo Pessoal

Depois de mais de 40 anos sendo exploradas em circos e zoológicos, Maia e Guida finalmente encontraram um lar onde são livres e vivem cercadas de amor e paz: o Santuário de Elefantes Brasil. Inaugurado oficialmente no dia 12 de outubro deste ano, na Chapada dos Guimarães (MT), o local é o primeiro santuário de elefantes da América Latina e possui a missão de ajudar a transformar as vidas e o futuro dos elefantes mantidos em cativeiro na região, como Maia e Guida.

Livres de correntes e  dos maus-tratos que foram obrigadas a suportar durante quase todas as suas vidas, as duas se tocam carinhosamente e dividem momentos de cumplicidade em seu novo lar que tem capacidade para abrigar 50 elefantes. Em breve, deverão receber a companhia de Ramba, uma elefanta cativa que vive no Chile. Em entrevista exclusiva à ANDA, a publicitária e presidente do santuário, Junia Machado, fala sobre seu surgimento, o processo de reabilitação dos elefantes e a história de suas primeiras moradoras em busca de um recomeço.

ANDA: Como e quando começou seu amor por elefantes?

Junia Machado – Desde pequena, sempre fui apaixonada pela natureza e por animais em geral. Mas quanto eu tinha sete anos, aconteceu algo importante: ganhei de meu pai um livro sobre animais selvagens, que tinha algumas páginas dedicadas aos elefantes, com uma foto impressionante de um gigantesco macho africano. Durante a infância, todo ano voltava a admirar essa foto e ler o conteúdo, era meu livro favorito. Em 2005, fui à África do Sul com minha família e me deparei com uma manada de elefantes em um bosque. Conversando com o guia que nos acompanhava, confirmei o que havia aprendido naquele livro e soube que milhares deles estavam sendo mortos a cada ano devido ao comércio de marfim. Foi então que decidi começar um trabalho de documentação fotográfica com o intuito de montar uma exposição sobre elefantes e chamar a atenção para sua conservação. Em 2010, voltando de uma expedição ao Quênia, decidi ir ao zoo de São Paulo e me deparei com uma elefanta africana, Teresita, vivendo sozinha em um recinto. Ali, percebi que meu trabalho deveria se estender aos elefantes em cativeiro também.

ANDA: O santuário foi criado em parceria com as organizações internacionais Elephants Voices e Global Sanctuary for Elephants (GSE). Como se deu essa união e como ela funciona atualmente?

Junia Machado: Em janeiro de 2010 entrei em contato com a ElephantVoices, organização científica internacional fundada pela etóloga e PhD em Comportamento e Comunicação de Elefantes Dra. Joyce Poole, que desenvolve projetos de conservação de elefantes na África e na Ásia e trabalha pelo bem-estar de elefantes em cativeiro no mundo todo. Começamos a pesquisar e a monitorar os elefantes em cativeiro no Brasil enquanto desenvolvíamos o planejamento de um Santuário de Elefantes para atendê-los. Em 2012, convidamos Scott Blais, cofundador e ex-diretor do Santuário de Elefantes do Tennessee (TES), com mais de 20 anos de experiência em elefantes em cativeiro, a juntar-se a nós para implementarmos o santuário. Todos juntos, cofundamos uma organização nos Estados Unidos, a Global Sanctuary for Elephants, cujo objetivo é fomentar e ajudar na criação de santuários para elefantes através do mundo (estima-se que cerca de 5000 elefantes vivem hoje em pequenos recintos de zoos e circos. Desde então, trabalhamos todos juntos no planejamento e implementação do Santuário. O próximo passo foi a fundação do Santuário de Elefantes Brasil, em 2013 e o início das operações.

ANDA: Scot Blais, o presidente da GSE, fundou o The Elephant Sanctuary in Tennessee, nos Estados Unidos e trabalhou há mais de 20 anos com elefantes explorados como entretenimento e em santuários. Qual é a importância de contar com sua participação no projeto?

Junia Machado – Scott tem experiência sem precedentes não somente para desenhar, projetar, construir instalações adequadas para elefantes e dirigir as operações no solo, como para tratar dos elefantes que recebemos. Junto com a Kat Blais, nossa Diretora de Bem-Estar Animal, que também trabalhou no Santuário de Elefantes do Tennessee, coordena a equipe de tratadores e veterinários. Scott foi tratador de diversos elefantes em circos e zoos antes de fundar o TES – Santuário de Elefantes do Tennessee -, em 1995, onde recebeu cerca de 25 deles. Além disso, participou do transporte de 50 elefantes na América do Norte. Em outubro, coordenou a complexa operação de transporte de Maia e Guida, nossas primeiras residentes. Sua experiência tanto no tratamento dos elefantes e sua recuperação, como no desenvolvimento das instalações de um santuário de habitat natural e sua administração, traz um nível de qualidade muito alto a nosso projeto.

Foto: Junia Machado

Foto: Junia Machado

ANDA: Muitas pessoas não imaginam como ocorre a reabilitação de elefantes. Pode falar um pouco sobre isso?

Junia Machado – Ao chegarem, damos a eles a liberdade para se adaptarem em seu ritmo ao novo local e à sua nova vida. Alguns se adaptam mais rapidamente, outros demoram mais e isso sempre é respeitado. Cada elefante, ao chegar, fica por um pequeno período de tempo em uma área privada, no Centro de Tratamento Médico, para que descansem da viagem e se sintam seguros. Dali, ele já consegue ver os outros elefantes e, dependendo da situação, tocá-los através das grades. Numa segunda etapa, os portões são abertos para que fiquem juntos (caso mais de um elefante esteja no Centro de Tratamento Médico). O próximo passo é a abertura dos portões que dão acesso à área cercada na natureza – cada um decide quando quer sair. A partir de então, os portões ficam abertos e eles podem passar quanto tempo desejem na natureza, voltando para a segurança e conforto do galpão quando desejarem. Podem pastar, escolher seus alimentos, tomar banhos de terra, interagir uns com os outros, banhar-se, deitar-se nos montes de terra que preparamos para eles, com liberdade de escolha para fazer isso a hora que quiserem. Assim, vão adquirindo autoconfiança e descobrindo quem verdadeiramente são. Damos a eles o tempo necessário para se adaptarem à nova vida e descansarem, antes de começarmos o treinamento para os exames e tratamentos médicos. Com Maia e Guida, começamos depois de duas semanas com toques carinhosos de aprovação através das cercas, em diversas partes de seus corpos e também em suas orelhas (que precisaremos acessar no futuro para coleta de sangue). Uma de cada vez, as convidamos a entrar em uma das baias de tratamento, para exame e tratamento das patas. Isso é algo fundamental para a saúde de qualquer elefante em cativeiro, já que eles passaram anos pisando em substratos duros e contaminados por sua própria urina e fezes e sem se moverem adequadamente para uma boa circulação sanguínea, por isso frequentemente têm infecções nas patas, que precisam ser tratadas). Todo o treinamento é feito através das barras de aço (contato protegido) e com reforço positivo (oferecimento de recompensas para cada ação realizada). Aos poucos, os cercados são ampliados e os elefantes vão ganhando mais e mais espaço para explorarem no santuário (nossa previsão é de completarmos todas as cercas da propriedade em cinco ou seis anos). O fato de poderem caminhar, escalar aclives e cavar com as patas ajuda muito na recuperação das infecções nas patas e da artrite (as duas maiores causas de mortes em elefantes em cativeiro). Seu tônus muscular é recuperado com o exercício físico, assim como sua saúde mental. O comportamento estereotipado – movimentos repetitivos com a cabeça, tromba e corpo, causados pelo estresse do confinamento e pela falta de estímulos psicológicos – costuma diminuir bastante já nos primeiros dias, e muitas vezes cessar, mas há casos em que elefantes manterão esse comportamento por muito tempo, alguns pela vida toda, pois é algo a que se acostumaram através de décadas em cativeiro. Observamos que esses movimentos diminuíram 60% em Guida já na primeira semana no santuário. Os cuidados médicos e o apoio psicológico, o espaço necessário para caminharem, além da companhia de outros de sua espécie e o livre arbítrio em suas vidas fazem com que se recuperem dos efeitos nocivos de uma vida toda passada em cativeiro.

ANDA: As primeiras moradoras do santuário são Maia e Guida, que foram sequestradas ainda filhotes de seu habitat na Tailândia e obrigadas a participar de performances durante anos em um circo na Bahia. Você pode dividir mais detalhes sobre a história das elefantas e como ocorreu o resgate de ambas?

Junia Machado – Em 2010, as autoridades decretaram que o Circo Portugal, que as mantinha, não poderia mais usá-las em espetáculos. Depois de passarem dois meses em um zoo na Bahia, foram transferidas para o sítio do advogado do circo, que se ofereceu para abrigá-las como fiel depositário, já que o zoo não podia ficar com elas e não havia outro local disposto a recebê-las. Ali ficaram por seis anos, acorrentadas já que as cercas elétricas do terreno não eram suficientes para mantê-las (conseguiam desarmá-las). Em 2010, entramos em contato com ele para oferecer ajuda, mas ainda não tínhamos o local do santuário definido. Em 2015 o Ministério Público de MG nos contatou para nos consultar sobre a possibilidade de recebê-las e em Maio de 2016 assinamos um TAC (Termo de Ajuste de Conduta) com o MPMG, o Circo Portugal e o fiel-depositário delas. No início de outubro, fomos buscá-las.

ANDA: Como elas reagiram à liberdade e de que forma têm se adaptado ao santuário? Como tem sido a reconstrução e redescoberta dessa relação sem o estresse do confinamento e em liberdade ?

Junia Machado – Ambas estão se adaptando de modo extraordinário. No sítio, eram mantidas separadas e, quando Maia conseguia se libertar da corrente e fugir, agredia Guida. Isso pode ter ocorrido por diversos fatores, como, por exemplo, o estresse de estar presa. No Santuário, assim que ambas tiveram chance de se tocar, o que ocorreu logo que Guida saiu de sua caixa de transporte, demonstraram muito carinho e afinidade. São companheiras uma da outra, estão quase sempre juntas, tocando-se com as trombas, com as orelhas e com todo o corpo, como fazem elefantes na natureza. O tratamento das patas de Guida já teve início e Maia está em adaptação para isso.

ANDA: Atualmente vocês se empenham na transferência da elefanta Ramba, vítima de um zoológico do Chile. Gostaria que falasse mais sobre a história de Ramba e como souberam sobre seu caso.

Junia Machado – Ramba na verdade está sendo cuidada por uma equipe coordenada por nós em um zoo com o qual fizemos um acordo – por meio da Ecópolis Disciplinas Integradas, uma organização que é nossa parceira no Chile – depois que ela foi resgatada de um circo. Como ainda não tínhamos a terra para o projeto, o zoo concordou em abrigá-la provisoriamente. Agora, estamos dando entrada na documentação para sua transferência.

ANDA: Neste ano, após intensa pressão de ativistas e do público, o parque SeaWorld anunciou o fim de seu programa de reprodução de orcas cujas terríveis condições foram expostas no documentário “Blackfish”. Você acredita que as pessoas têm se conscientizado mais sobre a exploração de animais pela indústria de entretenimento ou não? Como você enxerga a percepção do público brasileiro sobre isso e o que acha que falta para que todos estes animais sejam libertados?

Junia Machado – Acabo de voltar da Conferência Internacional de Vida Selvagem em Cativeiro 2016, organizada pelo Santuário PAWS. Nosso diretor de operações, Scott Blais, fez uma palestra sobre o Santuário de Elefantes Brasil e participou de uma mesa redonda sobre a nova onda mundial de santuários. Estavam presentes renomados cientistas em pesquisa de campo na África, especialistas em santuários, conservação, legislação, política, bem-estar e cuidados com animais, além de profissionais de zoológicos, como Ron Kagan, diretor do Zoo de Detroit. Todos discutindo o mesmo tema: o confinamento e o uso de animais selvagens e exóticos, com foco especial em elefantes, ursos e felinos. Fiquei impressionada com o novo santuário para baleias (orcas e belugas), em fase de planejamento na América do Norte e que deve receber seus primeiros habitantes, oriundos de parques aquáticos, em até quatro anos, e com um de chimpanzés, nos EUA, que recebeu seus primeiros habitantes na mesma ocasião que recebemos Maia e Guida.
A conscientização das pessoas no mundo todo sobre as necessidades biológicas e comportamentais dos animais e a análise do que deve ser feito para que possamos atendê-las vem aumentando ano após ano e isso resulta em um movimento pela criação de santuários para diversas espécies e na transformação de zoológicos. Recentemente, a Argentina fechou dois de seus zoos e tem plano de transformá-los em breve em jardins botânicos e centros de resgate de vida selvagem nativa. Enviarão os animais exóticos a santuários. Acho que essa também é uma tendência irreversível. Há alguns anos, o diretor do Zoo de Detroit, Ron Kagan, decidiu fechar a exibição de elefantes de seu zoo e enviá-los ao Santuário PAWS, na Califórnia, por entender que mesmo que ampliasse seu recinto ou que incrementasse o enriquecimento ambiental, nunca seria capaz de atender às complexas necessidades dos elefantes. Hoje, além do cargo de diretor no mesmo zoo, Ron faz parte do Conselho Diretor do novo santuário de baleias sobre o qual comentei. Acredito que o Brasil esteja caminhando na mesma direção. O que falta para que os animais confinados em pequenos recintos de zoológicos e circos tenham uma vida digna? Acredito que cidadãos conscientes devem fazer seu papel, pedindo às autoridades que seja cumprida a legislação, tornando-se as vozes dos animais e apoiando a criação de mais santuários.

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