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Furacão Matthew matou milhões de animais das fazendas da Carolina do Norte

Por Leandra Jones / Redação ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais

Rick Dove
Fossa de estrume de porcos inundada, após a passagem do furacão, em Wayne County, Carolina do Norte, fotografada em 11 de outubro. Rick Dove

Os rios no leste da Carolina do Norte (EUA), ainda trasbordando com as chuvas provocadas pelo Furacão Matthew, estão  inundando uma região repleta de fazendas de suínos e aves. Mais de 5 milhões de frangos e perus já haviam morrido na quarta feira (12), como anunciou a Agência Reuters. O Departamento de Qualidade Ambiental da Carolina do Norte ainda não divulgou uma estimativa sobre a morte de suínos, mas a expectativa é de um número alto de mortes.

Isto porque a Carolina do Norte abriga uma das maiores concentrações de suínos do mundo. Agrupados principalmente nos cinco condados da região sudeste do estado, a capacidade operacional em larga escala de suínos produz cerca de 10 milhões de porcos anualmente, mais do que qualquer outro estado americano, exceto o estado de Iowa. E não são apenas corpos de animais que vão correr pelos rios das  fazendas inundadas. As granjas e criadouros de porcos da Carolina do Norte geram, anualmente, bilhões de litros de resíduos fecais, uma quantidade suficiente para encher quinze mil piscinas olímpicas, segundo o Environmental Working Group. Grande parte desse volume fica retido em fossas abertas, conhecidas como “lagoas”.

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O estrume suíno é carregado de bactérias patogênicas, incluindo as resistentes a antibióticos, resíduos de produtos antibióticos e nitratos em abundância, que contaminam a água potável e também alimentam as chamadas zonas mortas, áreas onde há apenas a proliferação de algas, sem a presença de vida marinha. O pesquisador da Universidade da Carolina do Norte, Steve Wing, liderou uma série de pesquisas em que documenta como as instalações de suínos prejudicam a população do entorno, a qual é formada desproporcionalmente por afro-americanos de menor renda.

Rick Dove
Rick Dove

E o que acontece quando as inundações das tempestades encontram as imensas instalações de criação de suínos confinados e suas “lagoas”? Rick Dove, da Waterkeep Alliance, uma ONG que tem como foco a proteção das águas norte-americanas, tirou fotos aéreas extraordinárias, como esta acima. Confinamentos suínos típicos abrigam cerca de 2.000 porcos cada um (alojamentos  brancos à direita na foto). Segundo o Environmental Working Group, somente em Wayne County existem 586.092 porcos e 229 fossas de estrume.

O fotógrafo da Waterkeep Alliance disse que em uma de suas incursões fotográficas aéreas recentes “algumas daquelas fossas estavam tão submersas que não havia condições nem mesmo de ver se elas estavam ali enquanto fotografávamos.”

Dove disse ainda que em muitos casos ele não foi capaz de perceber a presença das fossas, até que pôde comparar as suas fotos com as imagens aéreas do Google Earth. Como exemplo, ele aponta para a imagem abaixo, tirada das instalações de Seven Springs, em Wayne County.

As duas fotos a seguir, capturadas respectivamente em 10 e 11 de outubro, em Duplin County, mostram  instalações onde são criados, por ano, o impressionante número de 2,3 milhões de porcos, mais do que qualquer outro município americano. O estado da Carolina do Norte não informou a quantidade de animais mortos nas instalações alagadas, mas estas imagens pintam um quadro sombrio.

Rick Dove
Rick Dove
Rick Dove
Rick Dove

Nos últimos anos, os condados ao leste da Carolina do Norte testemunharam o surgimento de centenas de grandes produtores de aves, aumentando ainda mais a concentração de resíduos na região. Como mostra a foto, a área está sujeita a inundações.

Em 1999, o Furacão Floyd provocou estragos semelhantes nos condados produtores de suínos da Carolina do Norte, levando quantidades incalculáveis de estrume bruto e porcos mortos para as bacias hidrográficas, criando uma zona morta de mais de 900 quilômetros quadrados nos estuários costeiros. Abaixo, Jeff Tietz descreveu o episódio para a revista Rolling Stone, em uma edição memorável de 2006, num texto intitulado “Boss Hog”:

O Furacão Floyd arrastou mais de 500 milhões de litros de resíduos fecais de suínos a céu aberto para os rios Tar, Neuse, Roanoke, Pimlico, New e Cape Fear. Um grande número de fossas contendo esses resíduos, provenientes dos criadouros do leste da Carolina do Norte, ficaram submersas em grande profundidade. Fotos de satélite mostram uma grande maré negra sobre os cursos de água da região em direção ao Estreito de Albemarle-Pamlico, formando um longo e bem definido canal para o mar. Restou pouquíssima área de água limpa e com vida marinha. Dezenas de milhares de porcos afogados ficaram espalhados. Mesmo as praias afastadas da localidade ficaram arrasadas pelos dejetos. Uma foto tirada na ocasião mostra um tubarão alimentando-se de um porco morto, a milhares de quilômetros distante da costa da Carolina do Norte.

Com os rios ainda sob influência da passagem do Furacão Matthew, ainda é cedo para dizer se os danos alcançarão ou excederão os níveis anteriormente atingidos. O porta-voz do Departamento de Qualidade Ambiental da Carolina Do Norte disse à Reuters que muitas lagoas de dejetos foram inundadas e estão sendo drenadas. Rick Dove fotografou também a vista aérea da região na época do Furacão Floyd, e diz que em sua opinião, alguns lugares foram mais intensamente atingidos pelo Matthew do que pelo Floyd, já outros não sofreram tanto. Os rios ainda estão transbordando, causando novos alagamentos à medida que as águas das tempestades os reconduzam novamente aos condados de produção suína da Carolina do Norte, disse Dove. “Levará dias até que saibamos a real extensão dos danos”, acrescentou.

Nota da Redação: A exploração de animais em todo o mundo obedece apenas à própria lógica de produção, em que nem mesmo a integridade do meio ambiente e das populações locais é respeitada. A chegada de um desastre natural como o Furacão Matthew coloca à prova toda a incoerência dessa lógica produtiva, expondo de maneira ainda mais clara as suas bases: destruição, sofrimento e morte.

 

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