RICHARD SCHWARTZ

"Devemos procurar transcender nossas diferenças e nos unirmos pelos animais"

É difícil acreditar que o norte-americano Richard Schwartz - Presidente Emérito dos Judeus Vegetarianos da América do Norte e também da Sociedade de Vegetarianos Éticos e Religiosos - tenha sido...

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05/10/2016 às 19:00
Por Redação

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Arquivo Pessoal

É difícil acreditar que o norte-americano Richard Schwartz – Presidente Emérito dos Judeus Vegetarianos da América do Norte e também da Sociedade de Vegetarianos Éticos e Religiosos – tenha sido um homem que viveu à base de carne e de batatas. Porém, esta era a realidade de Schwartz antes de ele se informar sobre o sofrimento dos bilhões de animais torturados e assassinados em todo o mundo para satisfazer seres humanos.

Schwartz não apenas tornou-se um vegano, como é reconhecido por seu trabalho em prol dos direitos animais, nos Estados Unidos e em Israel, que soma mais um elemento: o judaísmo. Nesta entrevista exclusiva, ele fala sobre seu ativismo e como a religião judaica pode contribuir para construir um mundo sem exploração de outras espécies.

ANDA: Como foi a sua trajetória no que se refere aos direitos animais?

Richard Schwartz – Até 1978, eu era um homem que vivia à base de “carne e batatas”. No entanto, não apenas me tornei um vegetariano, e mais tarde vegano, como agora dedico uma grande parte do meu tempo para escrever, falar e ensinar sobre os benefícios do veganismo. O que causou essa mudança drástica? Em 1973, comecei a ministrar uma disciplina, “Matemática e Meio Ambiente” no College of Staten Island. O curso utilizava conceitos matemáticos básicos e problemas para explorar questões críticas, como a poluição, a escassez de recursos, a fome, a energia, o crescimento populacional, a corrida armamentista, nutrição e saúde. Ao rever o material relacionado à fome no mundo, eu me tornei ciente do tremendo desperdício de grãos associado com a produção de carne em um momento em que milhões de pessoas no mundo estavam desnutridas. Apesar de meus próprios hábitos alimentares, muitas vezes conduzi discussões em classe sobre a possibilidade de reduzir o consumo de carne como uma forma de ajudar também as pessoas com fome.

Depois desisti de comer carne vermelha e comecei a ler sobre os muitos benefícios gerados pelo vegetarianismo e as condições terríveis dos animais explorados em fazendas industriais. No dia 1º de janeiro de 1978, decidi me juntar à Sociedade Internacional dos Judeus Vegetarianos  e, no ano 2000, tornei-me vegano. Desde então, além de aprender muito sobre as conexões desse estilo de vida com a saúde, nutrição, ecologia, uso de recursos, a fome e o tratamento dos animais, comecei a investigar as ligações entre o vegetarianismo e o judaísmo. Já defendi o veganismo em mais de 80 programas de rádio e de televisão; dei mais de 40 palestras, fui em universidades e também participo de grupos comunitários para debater os direitos animais. Inicialmente a minha família estava cética com a minha mudança, mas eles me apoiaram e se tornaram cada vez mais compreensivos. Em 1993, minha filha mais jovem casou-se em Jerusalém em uma cerimônia completamente vegetariana.

ANDA: Em seu trabalho, há uma preocupação em abordar questões relacionadas à sustentabilidade, que tem conquistado cada vez mais espaço. Como o veganismo e a sustentabilidade estão relacionados ao bem-estar do planeta?

Richard Schwartz –  O mundo hoje está se aproximando rapidamente de uma catástrofe climática e a agropecuária é um dos principais contribuintes isso. A transição para o veganismo é essencial para ajudar o nosso planeta em perigo a trilhar um caminho sustentável. Academias de ciências de todo o mundo, 97% dos cientistas do clima, e 99,9% dos artigos científicos sobre o tema em revistas científicas sobre o assunto argumentam que as mudanças climáticas são reais e causadas por atividades humanas. Em dezembro de 2015, 195 nações na Conferência de Paris de Mudanças Climáticas concordaram que é preciso agir imediatamente para evitar uma catástrofe. Como Presidente Emérito dos Judeus Vegetarianos, quero destacar que a pecuária agrava este cenário problemático, pois emite mais gases de efeito estufa do que todos os carros e outros meios de transporte combinados de acordo com a ONU. Acredito fortemente que é o momento de adotar o veganismo para preservar o nosso planeta.

ANDA: Seu livro “Who Stole My Religion? Revitalizing Judaism and Applying Jewish Values to Help Heal Our Imperiled Planet” aborda a relação entre o judaísmo e a preservação do planeta. Poderia explicar como os valores judaicos podem contribuir com essa preservação?

Richard Schwartz – No meu livro, argumento que o judaísmo é uma religião radical, no melhor sentido desta palavra. Seus ensinamentos sobre justiça, paz, compaixão, compartilhamento e sustentabilidade ambiental podem fazer uma grande diferença na resposta às ameaças atuais ao planeta. Alguns ensinamentos judaicos que podem desempenhar um papel significativo são os seguintes: “Justiça, Justiça você deve perseguir” (Deuteronômio 16:20); “Busque a paz e a siga” (Salmos 34:14); “Seja gentil com o estrangeiro, pois fostes estrangeiros na terra do Egito”; “Ama o teu próximo como a si mesmo” (Levítico 19:18); “Você não deve destruir” (Deuteronômio 20: 19).

ANDA: Israel é considerado o país vegano do mundo. Segundo o portal Israel News Online, 5% da população do país se declara vegana. Em sua opinião, quais foram as condições que favoreceram o desenvolvimento do veganismo no país?

Richard Schwartz – Há muitas razões pelas quais Israel é um centro mundial do veganismo e uma das mais importantes refere-se ao judaísmo e seus ensinamentos poderosos sobre a compaixão com animais, como já mencionamos. Outros fatores que contribuem para isso são as leis muito rigorosas sobre crueldade com animais, a eficácia dos grupos veganos e de direitos animais, a alta qualidade de frutas e vegetais no país, e o alto custo da carne no país.

ANDA: Como os direitos dos animais podem ser defendidos de acordo com a Torá?

Richard Schwartz – Embora não seja bem conhecido, o judaísmo tem ensinamentos muito poderosos sobre o tratamento adequado dos animais. Se os judeus os levarem a sério, eles estarão entre os mais fortes manifestantes pelos direitos animais. De acordo com o judaísmo, os animais são parte da criação de Deus e as pessoas possuem responsabilidades especiais em relação a eles. A tradição judaica indica claramente que somos proibidos de sermos cruéis com animais e que devemos tratá-los com compaixão. Estes conceitos estão resumidos na frase em hebraico “tsa’ar ba’alei chayim”, o mandato da Torá para não causar “dor a qualquer criatura viva.”

Os salmos 104 e 148 mostram a identificação de Deus com os animais do campo, do mar e as aves do céu. O importante termo hebraico nefesh chaya (a “alma vivente”) foi aplicado em Gênesis (1:21, 1:24) para animais, como também para pessoas. Embora a Torá indique que as pessoas devam ter “domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os seres vivos sobre a terra” (Gênesis 1-26), isso significa um vínculo básico e não que os direitos e privilégios de animais devem ser negligenciados ou ignorados. Os animais são criaturas de Deus e também possuem a sensibilidade e a capacidade de sentir dor, portanto, devem ser protegidos e tratados com compaixão e justiça. Deus falou sobre os animais como falou sobre humanos. “Quanto a mim”, diz o Senhor: “Eis que eu estabeleço o meu pacto contigo e com a tua descendência depois de ti,e com todo ser vivente, que está convosco, as aves, os animais domésticos, e todos os animais da Terra; de todos os que saíram da arca, até mesmo todos os animais da terra. ” (Gênesis 9: 0-10)

Os Salmos indicam a preocupação de Deus com os animais, pois “Suas misericórdias estão sobre todas as Suas criaturas” (Salmos 145: 9). Eles retratam Deus como “satisfazendo o desejo de todos os seres viventes” (Salmos 145 :. 16), “fornecendo alimento para pássaros e outros animais” (Salmos 147: 9.) e em geral “preservando tanto homens como animais” (Salmos 36: 7). Talvez a atitude judaica com os animais seja mais bem resumida pela declaração nos Provérbios 12:10: “O justo preserva a vida dos seus animais.” Logo, no judaísmo, aquele que é cruel com os animais não pode ser considerado um indivíduo justo. Quando nós maltratamos outras espécies, geralmente pioramos as condições dos seres humanos também. Em vista de sua forte mensagem em relação à preocupação com os animais, alguém pode perguntar por que o judaísmo não defende o vegetarianismo. Na verdade, a primeira lei na Torá é sobre isso: E Deus disse: “Eis que vos tenho dado todas as ervas que dão as sementes que são de toda a Terra, e todas as árvores que produzem sementes servirão para mantimento.” (Gênesis 1:29). Há muitas mensagens no judaísmo que exigem que os animais sejam tratados com carinho. É essencial que isto seja amplamente conhecido e praticado para acabar com as terríveis condições em que vivem tantos animais atualmente.

ANDA: Qual é a sua percepção sobre o relacionamento entre ativistas pelos direitos animais e a questão religiosa? Existe algum receio ou preconceito em usar a religião a favor dos direitos animais?

Richard Schwartz – Muitos ativistas consideram a religião como um adversário ideológico. No que diz respeito ao judaísmo, esta suposição é negativa devido ao mal-entendido basicamente de dois versículos bíblicos importantes que, quando devidamente interpretados; apoiam a luta para melhorar as condições dos animais. O primeiro mal-entendido é o ensino bíblico de que os seres humanos dominam os animais e por isso podem tratá-los da maneira que desejam. No entanto, a tradição judaica Interpreta o “domínio” como tutela ou mordomia: somos chamados para estar com Deus e cooperarmos para melhorar o mundo. Isso não significa que as pessoas têm o direito de explorar desenfreadamente animais e não nos permite criar animais e, em seguida, tratá-los como máquinas exclusivamente concebidas para satisfazer as necessidades humanas. Em “A Vision of Vegetarianism and Peace”, o rabino Abraham Isaac Kook, um dos grandes pensadores judeus do século 20, afirma: “[…] é impensável que a Lei Divina imponha tais decretos de servidão, selados por toda a eternidade, no mundo de Deus que é “bom para todos, e sua misericórdia está sobre todas as suas obras” (Salmos 145: 9) e que declarou que ‘o mundo deve ser construído com bondade”.

O segundo erro de alguns ativistas é acreditar que quando o ensino bíblico diz que apenas as pessoas são criadas à imagem de Deus significa que Deus não atribui nenhum ou quase nenhum valor para animais. Enquanto a Torá afirma que apenas os seres humanos são criados “à imagem de Deus” (Gênesis 5: 1), os animais são criaturas de Deus também, possuem a sensibilidade e a capacidade de sentir dor. Na verdade, esse “criados à imagem de Deus”, significa que as pessoas têm a capacidade de emular a compaixão divina por todas as criaturas. Seria um grande equívoco que os ativistas desmerecessem várias comunidades religiosas e as considerassem despreocupadas com o sofrimento dos animais. Em vez disso, devemos desafiar respeitosamente os adeptos religiosos a viverem de acordo com os ensinamentos compassivos sobre os animais de sua religião. Todos nós devemos procurar formas de transcender nossas diferenças filosóficas e teológicas e encontrar um terreno comum sobre o qual possamos nos unir para o benefício dos animais e da humanidade.

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