"O veganismo não é um movimento de pessoas brancas"


Foto: Pax Ahimsa Gethen
Foto: Pax Ahimsa Gethen

Após listar 100 veganos negros para o portal Striving with Systems, a ativista norte-americana Aph Ko recebeu vários e-mails de pessoas que queriam ser incluídas ali. Foi assim que ela teve a ideia de criar, neste ano, o portal Black Vegans Rock para desconstruir o estereótipo de que o veganismo é um movimento de pessoas brancas.

Feminista e negra, a produtora de mídias digitais se esforça para mostrar a interseccionalidade dessas questões com a exploração animal e denunciar um sistema no qual grupos oprimidos se relacionam pelo status de inferioridade e desprezo que lhes é atribuído.  Nesta entrevista exclusiva, ela fala mais sobre seu trabalho e a necessidade de conscientizar as pessoas sobre a relação entre direitos animais, feminismo e racismo.

ANDA: Muitas pessoas nunca pensaram na relação entre  direitos animais, feminismo e racismo ou até mesmo discordam de estão conectados. Você pode explicar como essas questões estão interligadas?

Aph Ko – Acredito que inúmeras pessoas lutam para entender como o racismo, sexismo e especismo se relacionam porque fundamentalmente não entendem o que racismo, sexismo e especismo são. Temos recebido essas definições da classe dominante e fomos treinados para pensar que o racismo trata-se apenas da cor da pele, o sexismo do gênero e o especismo apenas dos animais.

Somos informados de que cada um deles tem sua própria origem e que existe a possibilidade de “conectá-los”. Esse é o grande problema: o fato de que enxergamos essas questões como coisas separadas. Isso é o oposto da maneira como as pessoas negras experimentam o mundo onde esses três temas estão fundamentalmente fundidos como uma base. Eles nunca foram fragmentados para nós. No entanto, para muitas pessoas, tudo é separado e eles precisam que tudo “se interconecte” para dar sentido ao mundo.

Fundamentalmente, tudo se trata de opressão. Esta é uma entrevista e eu não consigo explicar a opressão em cinco minutos. Se fizermos isso grosseiramente, a seriedade destas opressões e como as complicações entre elas são profundas é prejudicada.

ANDA: Você fez uma crítica sobre as formas utilizadas pelos ativistas para chamar a atenção para os direitos dos animais usando o exemplo do uso de memes que mostram a opressão em diferentes grupos, como de animais e pessoas. Em seu texto, você diz que as opressões não podem ser consideradas separadamente e conectadas pela maneira como aqueles que são oprimidos têm seus corpos abusados pelos opressores. Ao invés disso, os grupos estariam relacionados porque são considerados sub-humanos. Porém, ao mostrar imagens de diferentes grupos oprimidos, esta questão conceitual não está implícita?

Aph Ko –  Vários ativistas reivindicam ser “interseccionais”, mas não têm a menor ideia do porquê ou como essas opressões se conectam. Muitos assumem que as opressões estão ligadas com base nos diferentes tipos de violência impostas aos corpos da vítima. Como a violência tem a mesma aparência física, eles acreditam que este é o lugar onde a conexão é feita entre a opressão dos animais não humanos e a opressão humana, o que eu acredito que é muito literal e equivocado.

Acredito que as formas que moldam esta conexão estão erradas e compreender como a opressão opera não é tão fácil. Precisamos dedicar nosso tempo para entendermos a opressão.

Também temos características específicas e únicas que tornam nossas opressões físicas diferentes e temos diferentes níveis de poder, assim como os seres oprimidos. Claire Jean Kim, autora de “Dangerous Crossings: Race, Species, and Nature in a Multicultural Age”escreve que precisamos ter uma abordagem polivalente para abordar o sistema opressor e ela utiliza descreve como os seres humanos são oprimidos  de forma diferente.

Os seres humanos que são “animalizados” pela classe dominante ainda podem prejudicar outros seres humanos e não humanos. Com base no tipo de corpo que você habita, você vai ser explorado de uma forma singular.  Entretanto, é preciso ressaltar que você está sendo explorado porque lhe falta um estatuto humano pleno.

ANDA: Em relação a este assunto, qual é sua opinião sobre a campanha “Mother’s Against Dairy” realizada pela organização Free From Harm, que mostra histórias de mães humanas que sentem empatia com a mães não humanas exploradas pela indústria de laticínios?

Aph Ko – Acho errado comparar literalmente  os animais não-humanos a seres humanos na maneira como seus corpos são violados porque sinto que há uma conexão mais profunda que deve ser feita além disso.

Isso pode abafar ligações mais profundas, não sou contra a campanha porque acredito que precisamos de perspectivas diferentes no movimento, mas eu, pessoalmente, não me sinto atraída por campanhas tão literais.

ANDA:  Um argumento bastante difundido quanto ao veganismo é que se trata de um movimento elitista também de um ponto de vista informativo. Como você percebe essa questão da difusão de informações nos EUA?

Aph Ko- Embora o termo “vegano” seja estranho para algumas pessoas, os princípios básicos do veganismo definitivamente não são novos. Várias culturas e países diferentes comem de forma saudável e mostram compaixão pelos animais.

Nos EUA, há realmente vários veganos negros que encontram maneiras criativas de educar suas próprias comunidades. Sou a favor de espaços locais e centrados  em comunidades para resistência. Aqui o veganismo tem uma conotação muito branca.

Há vários ativistas negros que lutam pela libertação dos animais através da conexão com a raça, mas a maioria das pessoas não entende e esse trabalho passa despercebido. Existem muitos trabalhos incríveis nessa linha que defendem a libertação dos animais, mas que não ganham espaço na mídia.

ANDA: O Black Vegans Rock surgiu como um espaço para trazer visibilidade para veganos negros. Qual é a importância da construção de espaços como este?

Aph Ko –  Criei o site para trazer um novo frescor para as conversas em torno da negritude e veganismo para os negros. Eu me sinto tão inspirada pelo trabalho criativo e ideias brilhantes de veganos negros. Eles têm suas próprias vozes e as usam e é isso o que eu compartilho no Black Vegans Rock.

Partilho as suas vozes. Porém, há toneladas de veganos negros com seus próprios sites que estão fazendo um trabalho incrível. Como Angela Davis escreve em “Freedom is a Constant Struggle”: “É essencial resistir à representação da história como o trabalho de indivíduos heroicos para que as pessoas de hoje reconheçam seu potencial como parte de uma comunidade de luta cada vez maior”. Representação é o primeiro passo.


Gratidão por estar conosco! Você acabou de ler uma matéria em defesa dos animais. São matérias como esta que formam consciência e novas atitudes. O jornalismo profissional e comprometido da ANDA é livre, autônomo, independente, gratuito e acessível a todos. Mas precisamos da contribuição, dos nossos leitores para dar continuidade a este imenso trabalho pelos animais e pelo planeta. DOE AGORA.

Você viu?

AMOR CANINO

FAKE NEWS

GANÂNCIA

SEQUESTRO


LEIA EM PRIMEIRA MÃO AS NOTÍCIAS MAIS ANIMAIS DO MUNDO

>