Pescadores abraçam e acariciam até a morte peixes agonizantes na Bienal


Por Bernardo Carvalho

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Visitei a Bienal numa quarta à tarde, tropeçando em crianças que corriam, gritavam e pulavam entre vasos de plantas, uma réplica de oca indígena com decoração sincrética e um piso de madeira reciclada que fazia as vezes de pula-pula. Em meio às mensagens ecológicas, um trabalho me chamou a atenção, pela disparidade: um filme no qual pescadores do litoral de Alagoas abraçam e acariciam até a morte os peixes agonizantes que eles acabaram de pescar. É um filme perturbador, para dizer o mínimo. Quando um grupo de crianças deixou a sala, seguindo o monitor, ouvi de um menino a um coleguinha, não sem alguma ironia: “O que vale é a intenção, né?”.

Não sei que fábula o monitor vinha contando às crianças, mas é claro que o que vale não é a intenção. E em arte ainda menos. Ao voltar para casa, procurei na internet informações sobre o trabalho. “O Peixe” foi realizado pelo alagoano Jonathas de Andrade especialmente para a 32ª Bienal. Mais de um crítico exaltava a ternura e a solidariedade que o filme transmitiria –sentimentos hoje tão em falta, segundo um deles. Fiquei perplexo. Se eu atasse os pés do crítico a uma pedra debaixo d’água e o abraçasse e acariciasse até ele morrer afogado, ainda poderia falar de ternura e solidariedade?

O sentido está fora do lugar. E é o que torna o filme de Jonathas de Andrade tão contundente. E tão revelador do que pode haver de impostura no consenso de críticos e artistas a reproduzir da boca para fora o discurso curatorial de uma exposição que afirma “a natureza não como objeto, e sim como sujeito”.

O gesto dos pescadores no filme de Jonathas de Andrade revela, a despeito da retórica generalizada das boas intenções, o artificialismo do princípio que o artista propôs a esses homens (e que alguns críticos, desacostumados com o subtexto do trabalho de arte, tomaram ao pé da letra).

É aí que está a perversão e também a parte mais ambígua e interessante da obra. Ao contrário do discurso politicamente correto, ao contrário da retórica pueril que tenta encobrir, com uma suposta solidariedade entre predador e presa, a falsidade da situação de um pescador acariciando um peixe agonizante, o que está em jogo aqui é um erotismo no qual a violência, a dominação e a morte do outro surgem disfarçadas de amor.

O sofisma do amor e da ternura encobrindo a perversão de acariciar o peixe até a morte é, antes, desfaçatez. Se fosse solidariedade, bastaria ao pescador matar o peixe de uma vez ou devolvê-lo ao rio. Prolongar a agonia do peixe, com carícias de homem viril, seminu, tem outro sentido, de segundo grau, que se assemelha muito mais à expressão de um narcisismo incapaz de se dar conta do sofrimento alheio. É o oposto da solidariedade. Um ritual infantilizado e artificioso, no qual o amor é reduzido a um gesto autorreferente, vazio e descontextualizado, que exclui o outro. É diferente da morte entre animais imunes à afetação narcisista. Um pouco mais de verdade e de experiência seria de bom tom se a intenção fosse mesmo falar da natureza. Mas o filme de Jonathas de Andrade fala da natureza dos homens. E o faz com uma precisão desconcertante.

Visitei a Bienal cercado de crianças, e talvez essa circunstância tenha ressaltado uma impressão que me persegue há anos. Há duas vertentes predominantes na arte contemporânea: a retórica (em geral, politicamente correta) e o apelo lúdico de parque de diversão. Ambas têm como fim a conquista de um público refratário à arte com a qual não consegue estabelecer relações imediatas de entendimento. Na impossibilidade do esforço de reflexão, apela-se para o prazer.

É difícil entender que nem tudo na natureza é necessidade. Nunca vou esquecer um documentário do National Geographic no qual orcas além da rebentação brincam com um filhote de leão marinho abocanhado minutos antes, na praia onde a mãe assiste impotente ao fim trágico e precoce de sua cria arremessada pelas baleias, de um lado para o outro, como uma bola de vôlei. É o homem que, em contrapartida a toda a sua violência gratuita, desenvolve o sentimento civilizatório de culpa e de solidariedade. O mais perturbador no filme de Jonathas de Andrade é a representação dessa ambiguidade como impostura.

A apreensão do crítico que acredita na retórica e vê solidariedade no narcisismo não é menos perturbadora. Diz respeito aos nossos dias. Afinal, que mundo é esse onde narcisismo e infantilismo são capazes de nos fazer confundir a violência que temos diante dos olhos com uma irrealidade de desenho animado?

Fonte: Folha de São Paulo


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