PLATAFORMA TERRÁQUEOS - ALELUIA HERINGER

Doze considerações sobre um vegano

O conceito pré-formado, que chamamos de (pré) conceito, é um grande muralha. Bloqueamos o caminho que nos levaria a conhecer outras pessoas com suas razões e lógicas. Seria tão bom somente ouvi-las sem a necessidade de se armar intelectualmente para rebater cada linha que não seja igual a nossa. De onde veio tamanha chatice? Parece que nossas ideias são tão frágeis que temos que evitar, por receio, as ideias do outro. Somos também, altamente, sugestionados pela aparência alheia. Outra muralha. Dependendo de como a pessoa se apresenta, já nos fechamos, como se sua “capa” infectasse sua palavra.

Gostamos daquilo que já conhecemos. Apesar da plasticidade de nosso cérebro, os neurônios tendem a refinar caminhos já escolhidos. É mais econômico. Socialmente é assim que funciona também. Quando mudamos algo já estabelecido, o que mais encontramos são pessoas nos desestimulando: “Mexe com isso não! Sempre foi assim!” Invocam a tradição, a cultura, a religião etc. Quer saber? Considero esses “desestimuladores ambulantes” indispensáveis. Eles ou elas é que irão testar se a mudança que estamos querendo é forte ou não. Os comentários contrários ao que nós pensamos é que nos dão a medida: conseguimos justificar nossa decisão ou posição? Só precisamos ser honestos. Questiono, pois tenho genuíno interesse, e não para ser o chato da hora. Sem as barreiras de contenção da tradição, da cultura, da religião, da família, intuo que as grandes e pequenas causas perderiam as tensões que lhes concedem impulsão e força para crescer.

Digo tudo isso, pois vivi essas experiências quando comecei a aproximar da proposta vegan. E olhe que já tinha mais de 40 anos! Ainda assim, parecia um corpo estranho ameaçando a normalidade da paz mundial! Pensando nisso, resolvi facilitar as coisas e abordar doze pontos que irá ajudá-lo a entender melhor o seu familiar ou amigo que é ou será vegano.

1- O vegano é, em sua essência, um abolicionista. Ele tem como primeira motivação e convicção o dever ético em relação aos animais e defende seus direitos: a vida, a integridade física e a liberdade. Para além da alimentação, há um boicote a todo tipo de negócio, atividade, roupa ou entretimento que utilize animal como meio, mercadoria, atração ou ingrediente.

2- O vegano é alguém do bem, da paz e da não violência. A existência de um vegan só traz benefícios e impactos positivos na vida dos animais, das pessoas e do planeta. Então, ao invés de desestimular, incentive!

3- O termo inglês Vegan foi criado em 1944 por Donald Watson (faleceu em 2005). Não é a mesma coisa que vegetariano, que, normalmente, tem motivações ligadas à saúde. Entretanto, muitos vegetarianos estão na transição para o veganismo. Eu mesma levei três anos nessa mudança.

4- Vegan não é ser “natureba”. Em relação à alimentação, a única restrição que a própria pessoa se impõe, é não ingerir nada de origem animal. No mais vale tudo. Há vegano que adora Coca, Chips e batata frita (aqui em casa tenho um desses); outros, somente comem alimento integral, orgânicos, crus etc.

5- Vegan come muitas coisas. Não se trata de dieta restritiva, ao contrário, é bem expansiva. Engloba alimentos de todas as cores (do branco ao verde escuro), texturas e sabores. Restritivo é o cardápio que nos é oferecido. Tudo com carne, leite e ovo. Até a alface tem queijo escondidinho! Um vegano é incentivado a diversificar, a provar alimentos e ler rótulos. Aliás, vegano é um leitor de rótulos.

6- Veganismo não é religião e nem dieta, é um modo de viver. Um vegan pode ser católico, protestante, budista, ateu ou espírita.

7- Um vegano precisa cuidar da vitamina B12 (encontrada nos produtos de origem animal). A B12 presente em algas e alimentos fermentados é diferente da que necessitamos para o nosso metabolismo. Apesar de muitos alimentos industrializados virem enriquecidos, não é bom descuidar. Mas é simples demais!

8- Vegano não necessariamente “adora gatinhos e cachorrinhos”. A relação extrapola essa seleção e amplia para todos os animais ao reconhecer o direito dentro da sua especificidade, naquilo que a natureza inscreveu em seus corpos. Quem era defensor da abolição da escravatura dos negros não necessariamente os amava. Consideravam errado escravidão e ponto final.

9- Ser vegano não é ser magro e fraco. Se você sempre foi, como é o meu caso, é provável que continue sendo. Comendo de tudo e com uma boa orientação, você ganha disposição e saúde. Um dos homens mais fortes do mundo é vegano. É atleta de força strongman e se chama Patrik Baboumian. Detentor do título de “O homem mais forte da Alemanha”. Enorme! Então, nada de rótulos!

10- Vegan não é hippie ou maconheiro, apesar de que pode ser tudo isso ou fazer o tipo extremo oposto. Sou uma senhora de 54 anos, casada há 33 anos e mãe de dois filhos. Como se pode perceber, não faço o tipo doidona. Olhe o preconceito!

11- Comida vegan é cara? Depende. Você encontra tudo o que precisa no sacolão, ou então pode comprar um produto específico industrializado, importado ou mesmo um queijo vegan da Superbom por 30 reais a peça. Tudo é uma questão de mercado (e de grana). Quanto mais pessoas demandarem produtos vegan, mais “o mercado” vai entender que vale a pena investir, produzir mais e abaixar os preços.

12- Vegano não se preocupa apenas com os animais enquanto há tantas crianças abandonadas ou coisas do gênero! Muitos veganos são sensíveis a várias causas simultaneamente. Antes de falar, pense: qual é a sua bandeira? O que você faz por alguém ou por alguma causa? Que ótimo! Parabéns. Vamos seguir juntos melhorando as condições de vida para todos os seres que vivem e que querem viver.

1 COMENTÁRIO

  1. E é comum veganos mal informados, como é o caso aqui. “Não é a mesma coisa que vegetariano, que, normalmente, tem motivações ligadas à saúde”. Fui vegetariana por longo tempo. Me tornei vegana depois. E qunndo eu era vegetariana meu motivo não foi visando saúde. Era pelos animais mesmo. Conheço um grande número de vegetarianos que fizeram esta opção pelos animais. Pode haver alguns que pensem na saúde em primeiro lugar, mas não é “normalmente”, como foi dito. Muito comum este pensar entre veganos, de que são seres “mais evoluídos e melhores”. Ao mesmo tempo vemos também aqui uma coisa terrível que nem sei como comentar. ” 8- Vegano não necessariamente “adora gatinhos e cachorrinhos”. A relação extrapola essa seleção e amplia para todos os animais ao reconhecer o direito dentro da sua especificidade, naquilo que a natureza inscreveu em seus corpos. Quem era defensor da abolição da escravatura dos negros não necessariamente os amava. Consideravam errado escravidão e ponto final.” No início reforça o que eu disse antes. Se julgam melhores. E para isso, de certa forma desprezam gatos e cachorros. E desprezam que gosta principalmente deles. Mas no final foi longe demais: não é preciso amar os negros. Apenas ser contra a escravidão. Pois eu digo que é preciso amá-los sim. Sem amor nada tem valor. Será que a autora não percebeu o racismo entranhado na sua declaração? E finalmente, eles quase sempre acham que as únicas cidades do mundo são as grandes metrópoles. Pelo menos são as únicas que parecem conhecer. Numa cidade como São Paulo eu acredito que seja possível encontrar tudo que é preciso para uma dieta vegana num sacolão. O mesmo não acontece numa cidade do interior. Eu more no interior. Dá par ser vegano sim, nos limitando a comer vegetais. Mas não encontramos tudo de forma alguma num sacolão. Quando vejo receitas eu percebo as dificuldades, porque os ingredientes, geralmente com nomes estranhos, não são encontrados nem mesmo conhecidos onde eu moro. Está melhorando. Tem aparecido coisas aqui e ali. Descobri um lugar que faz bolo vegano…30,00! Enquanto o bolo comum sai por 6,00. É tudo extremamente caro. Mas vale a pena. Eu não passo fome. No entanto, quando com amigos, eu não uso mais a palavra vegana. Virou seita. Ela disse que não, mas virou sim. E geralmente pensam dessa forma, olhando os outros por cima de um pedestal. Eu digo apenas que me abstenho de produtos que venham da crueldade para com os animais.

  2. Virginia: (Desculp! teclado sem acentos!)
    Agradeco a leitura e a chamada para a interlocucao. Nao temos controle sobre as apropriacoes que as pessoas fazem daquilo que escrevemos. Vemos e ouvimos com aquilo que somos. Nesta perspectiva sua experiencia e legitima, assim como a minha e dos demais que estao nesta caminhada. Nao irei te responder cada item pois seria repetitiva, ou teria que fazer outro texto. Somente solicito que leia reparando as “aspas”, os “entretanto”, os “porem”,que dao ao texto o equilibrio necessario. Quem criou a palavra vegan nao foi eu e o objetivo era fazer uma diferenciacao sim. Unico ponto que quero esclarecer e quanto o “cachorrinhos e gatinhos”. Repare que usei entre aspas pois, e assim que as pessoas falam. Queria exatamente desfazer esta compreensao. Tenho amigos proximos que sao socorristas e albergam animais. Admiro profundamente o trabalho deles, ajudo sempre que posso e os considero essenciais, ou seja, a chamada e outra. Essas pessoas fazem algo grandioso. Ir para alem disso nao significa que nao fazem. Acho que voce nao entendeu. Falar de “Animais” deve ser entendido de forma ampliada. Sao todos cobertos por nosso raio de atencao e compaixao.

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