CED: captura, esterilização e devolução


Reprodução Internet
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Quando me propus a escrever um artigo sobre Captura, Esterilização e Devolução (mais conhecido pela sigla CED) fiquei imaginando que deveria pautá-lo pelo mais puro e reto didatismo, do tipo: a CED nasceu na Inglaterra com a ativista Ruth Plant* na década de 1950 para combater a cultura de morte induzida do governo britânico, e desde então tem sido instrumento importante para ativistas, governos e ONGs controlarem populações de gatos abandonados em todo o planeta.

A American Society for the Prevention of Cruelty to Animals (ASPCA), organização focada na prevenção da crueldade contra animais nos Estados Unidos, por exemplo, considera a atividade como a única realmente não traumática, eficaz e sustentável para o problema da superpopulação de gatos não domiciliados. Para se ter ideia da atualidade e importância do tema, em maio desse ano as especialistas em CED, Aparecida Negreiros e Cristina Palmer, deixaram seus notáveis trabalhos de campo no Rio de janeiro, onde atuam por meio da ONG Oito Vidas, e partiram para Nova York para participar do Animal Care 2016, acontecimento anual no qual são abordados diferentes temas sobre proteção animal. Foram para participar especificamente de uma discussão importante dentro do evento: a adoção do método CED (ou TNR na sigla em inglês) em substituição à prática da morte induzida ainda adotada por muitos abrigos dos EUA. O movimento parece lógico e simples: é melhor controlar a população de gatos de uma localidade do que eliminá-la ou trancafiá-la em abrigos para morrerem
aos poucos.

Se quisermos explorar o lado filosófico da questão podemos afirmar que CED é uma visão não especista da realidade. Impele o humano ao convívio pacífico com o gato. Tem uma colônia de gatos no condomínio? Que ela seja capturada, castrada, catalogada, imunizada contra raiva e devolvida ao mesmo local. A colônia passa a ser alimentada em um ponto específico das dependências do condomínio e monitorada pelos membros da comunidade que se dedicam ao bem-estar dos gatos e dos humanos.

CED é vida!, como dizem nossos amigos do Operação Gato de Rua, de Blumenau, SC. Talvez a partir desses dados fosse possível desenvolver um texto que desse conta de mostrar ao público como se dá o processo de captura, esterilização e devolução. Suas minucias, seus detalhes, o modus operandi, o conceito aplicado, a finalidade de cada equipamento, a importância da castração minimamente invasiva, e quem sabe finalizar com um pequeno mapa de ativistas e organizações que praticam CED no Brasil. Um passo a passo para tentar esclarecer interessados e protetores afins de entender e ajudar no imenso trabalho que será controlar a população felina de rua tão logo o mundo da proteção animal se dê conta de que mutirões e abrigos não são soluções para a questão.

E é exatamente nesse ponto que o texto didático precisa dar lugar imediatamente para um alerta sério a respeito da nossa cultura de proteção animal quando o assunto é gato de rua. Nossa cultura reconhece erroneamente abrigos e mutirões de castração como caminhos únicos a serem percorridos até que tenhamos uma diminuição significativa do sofrimento brutal a que está submetida a enorme população felina que habita as cidades brasileiras. Abrigos e mutirões não vão diminuir ou controlar a população de gatos de rua. Isso é ponto pacífico. Mutirões e abrigos não são soluções para essa questão difícil e dolorosa. Apenas fazem parte de um processo. Não dão conta de tocar a raiz do problema. Isso precisa ser dito sem medo. Promotores de mutirões e gestores de abrigos precisam admitir a incapacidade e a ineficiência de suas ações e atividades para discutirem pública e abertamente como controlar as populações de gatos de rua de nossas cidades. E não se trata de um ataque ou cobrança despropositada. E sim de um chamado à consciência de nossos ativistas e gestores. Ou estamos tão desconectados da realidade que ficamos incapazes de perceber que anos a fio de maturação e evolução da cultura de abrigos e mutirões em nada impediu o crescimento da população de animais de rua? Agora temos uma superpopulação! Por que será?

A ineficiência dos mutirões é simples de explicar com a seguinte pergunta: alguém já viu um gato abandonado arisco na fila de inscrição para algum mutirão? Não, nunca ninguém viu. Sem agentes de CED para “buscar o gato difícil” entranhado nos mais imprevisíveis buracos da cidade e esterilizá-lo, não haverá controle. Esse é um dado irrefutável. É óbvio que é importante a existência de mutirões como mecanismos de contenção da reprodução da população de gatos domiciliados pela população humana de baixa renda. É claro que o gato da família brasileira que reside nos centros menos favorecidos e
periferias de nossas cidades precisa ser castrado por um mutirão. Só não podemos nos esquecer que nesses mesmos centros e periferias necessitados, milhares de felinos não possuem domicílio e se reproduzem de maneira desenfreada, aumentando exponencialmente sua presença e fazendo crescer também de maneira alarmante o atrito entre as duas populações, felina e humana. Esse atrito não raramente expõe gatos a ataques violentos, sórdidos e cruéis. O bicho sempre leva a pior. Não é possível nos esquivarmos da realidade: uma parcela considerável da população humana odeia animais abandonados. Gatos especialmente. A necessidade da criação de uma cultura de CED se mostra aqui em sua face mais urgente: a da prevenção de ataques de humanos contra os animais indefesos. O impedimento de maus-tratos pela diminuição do atrito. CED é política preventiva, é diminuição da violência crônica a que são submetidos os gatos de rua. E, quanto aos abrigos, eles são em sua maioria mal geridos e sofrem com falta de recursos e estruturas inadequadas. Com honrosas exceções se mostram verdadeiros depósitos de animais. Locais infectados e insalubres. Não é raro um gato ser retirado das ruas saudável para contrair doenças de toda ordem ao ser trancafiado em um abrigo. A ideia de que um gato não possa viver bem sem domicílio ainda é muito forte em nossa cultura de proteção. É muito importante que o conceito e prática de CED ganhem espaço em nosso meio para poder explicar para a população toda, e não só aos protetores, que gatos podem, devem e têm o direito de viver no mesmo espaço físico que a população humana. Castrados, imunizados contra raiva e alimentados não incomodam ninguém. O fato é que introduzir animais saudáveis em abrigos deve ser evitado a todo custo. Abrigos são importantes para animais vulneráveis e mesmo assim como transição para um lar ou inserção em uma colônia.

Para finalizar podemos afirmar que abrigos e mutirões são importantes se bem gerenciados, mas não dão conta da questão primordial que é, no final das contas, o sonho de todo aquele que ama gatos abandonados: controlá-los numericamente, conter a explosão demográfica, ter uma população que não cresça a cada ano, diminuir o nascimento de ninhadas em terrenos abandonados e com isso diminuir o atrito entre as populações felina e humana. Para controlar a população de gatos de rua é preciso dar chance e apoiar a prática de CED de pequenos grupos e ativistas preocupados com o bem-estar animal. Para controlar a população de gatos de rua é preciso capturar, esterilizar e devolver.

*http://www.catactiontrust.org.uk/


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