Expansão


Foto: Eliza Rei
Foto: Eliza Rei

Quando me vi, já estava acariciando a grama no jardim.
Sobre aquele verde tufo de repente uma formiga, e o que parecia calmo logo foi contrastado pela frenética agitação das pequenas ao redor.
Fui expandindo a percepção para além da magnífica vida vegetal, que merece tratado especial, buscando, no momento, o que haveria de animal, paixão maior que não se explica.
Outras dessas pequenas criaturas se faziam visíveis, às vezes aladas, quase sempre fugidias, caladas. Mas um canto me despertou para o canto do jardim – a expansão chegou às aves.
Se nos dermos conta, só até aí, no mundo dos insetos e das aves, já se torna impossível fazer a conta – é praticamente um universo de sistemas, trabalho, renovação e poesia que não cessa, não desiste, segue seu projeto e deixa, para os seus gigantes de jornada, uma parte do imprescindível.
Barulho na árvore. Uma das belas aves me espia: preponderantemente marrom, peito claro, olhos cor de ferrugem, longas penas atrás feito leque, deve estar se perguntando se há ou não risco em mim. Chegou mais perto, sentimos paz.
Esta ave está livre. Lembrei-me de outras mais com a mesma sorte, e das que não a tem. Não, não deveríamos dizer sorte, nem azar. Se somos causa da falta de liberdade, causa do sofrimento e causa da morte de animais, precisamos de outro nome.
Alguém assobia na rua de baixo e fala com um cachorro, que responde a seu modo. Bons modos.
Tento imaginar as várias casas, ruas, becos, matos, com ou sem cachorro, e gato, e rato, domesticados, selvagens, na cidade, no campo, na praia… Será que também conversam, escutam, entendem os homens os animais que estão assim, tão perto?
Pois deveriam se não o fazem. A cada bela linguagem há mais que melodia: há contato de alma a alma, que requer mais atenção que tradução, mais empatia que explicação, mais abertura, mais intuição.
Nessa expansão de entendimento é delicado o cuidado a se ter com aqueles que, meio perdidos no meio termo, não sabem se ficam ou se voltam, se se aproximam ou escapam, daqui, dali, sagui, saruê, tucano, capivara, tatu… aonde vais?
À nossa volta somos muitos animais, e os que não são nós, me parecem tão, tão belos que poderia ficar horas apenas observando cada detalhe de suas formas, seus gestos, comportamentos, tentando também descobrir suas necessidades, vontades, medos, afetos, segredos, sem interferir, afetar, agredir…
Estou agora quase na floresta, no rio, no oceano, na montanha, na caverna, voltando para nos reencontrar.
Nesses lugares remanesce um quê de verdadeira liberdade, é preciso se fazer invisível, silencioso, imperceptível, sensível. Mais e mais sensível, para que permaneça intocável – prenda-se a mão insaciável, já temos grama para acariciar…
Então percebo de onde vim, o quanto é bela a expansão de quem vem do ínfimo da criação, da poeira cósmica de agitação, e pousa no mar, se arrasta à terra, voa, desce, caminha e cai, tenta voltar e melhorar.
Quando me vejo, me vejo em todas as formas de vida.
Só por essa medida é que me reconheço.


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