Thales tréz

Experimentação animal

Thales de A. e Tréz é graduado em Ciências Biológicas (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000), mestre em Ética Aplicada pela Katholieke Universiteit Leuven (2001). Doutorou-se...

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28/03/2016 às 18:30
Por Redação

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Fonte: Arquivo Pessoal.

Fonte: Arquivo Pessoal.

Thales de A. e Tréz é graduado em Ciências Biológicas (bacharelado e licenciatura) pela Universidade Federal de Santa Catarina (2000), mestre em Ética Aplicada pela Katholieke Universiteit Leuven (2001). Doutorou-se em Educação Científica e Tecnológica pela UFSC (2012). Desde 2003 atua como professor efetivo da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG), atuando na humanização do ensino das engenharias. Tem experiência nas áreas de epistemologia da ciência, ciência e sociedade, bioética e métodos substitutivos ao uso de animais no ensino e na pesquisa. Atualmente preside o Instituto de Promoção e Pesquisa para Substituição da Experimentação Animal (Instituto 1R). É co-autor da obra “A verdadeira face da experimentação animal: a sua saúde em perigo” e, organizador da obra “Instrumento animal: o uso prejudicial de animais no ensino superior”. Tréz se define como um “biólogo torto” pelo viés crítico que seguiu em sua careira científica. Nessa entrevista concedida a ANDA o biólogo fala sobre sua última obra.


ANDA: Sua mais recente obra se chama “Experimentação animal: um obstáculo ao avanço científico”. Aproveitando o título dela, quais seriam as principais barreiras que a experimentação animal coloca ao avanço científico?

Tréz: O método da experimentação em animais impede o avanço da ciência na medida em que os dados gerados são inconclusivos, conflitantes e distantes da realidade biológica humana. Portanto, são comprometidos em sua validade interna e externa. Por conta disso, ainda consomem muito tempo e dinheiro. Este procedimento criou uma zona de conforto em parte do empreendimento científico, e criou um tipo de blindagem crítica, dificultando avanços em outras abordagens que não aquelas baseadas em dados animais.

ANDA: Qual a importância da epistemologia de Ludwik Fleck (1896-1961) para a construção dessa obra nova? Qual a contribuição para suas pesquisas e reflexões?

Tréz: Ao contrário de outros epistemólogos clássicos, provenientes de áreas como a Física, Química e Filosofia, Fleck teve uma formação médica. Isso significa que sua teoria sobre o conhecimento parte de uma realidade notadamente complexa, onde fenômenos ocorrem de forma não-linear, diversa, e imprevisível em muitos casos. Ainda, as categorias criadas por este epistemólogo nos ajudam a compreender o empreendimento científico dentro de uma perspectiva sócio-histórica, que é fundamental do ponto de vista da análise e da crítica.

ANDA: Metade de seu quarto capítulo é dedicado aos 3Rs. Por que os 3Rs são um tema tão importante na experimentação animal?

Tréz: O princípio dos 3Rs marcam a história da experimentação animal. Podemos dizer que antes de sua publicação não havia qualquer tipo preocupação com a quantidade de animais utilizados (redução), a maneira como são utilizados (refinamento) e sobre a possibilidade de substituí-los (substituição). Ainda que tais conceitos sejam conflitantes entre eles, o princípio como um todo levantou considerações importantes sobre as práticas de pesquisa com animais, e alavancou o surgimento de correntes críticas que levaram ao estabelecimento de novas abordagens de pesquisa, e mesmo novas áreas de conhecimento (como a ciência de animais de laboratório, por exemplo). O livro, apesar de dar o devido reconhecimento histórico a este princípio, avança em uma proposta crítica sobre o mesmo, problematizando principalmente os conceitos de refinamento e redução, e enfatizando o conceito da substituição.

ANDA: A abordagem desta obra excluiu deliberadamente aportes críticos do campo da filosofia moral, ou seja, da ética. Qual o motivo?

Tréz: Há autores no Brasil com muito mais competência para apresentar este aporte. Na verdade, há uma série de livros sobre esta contribuição, muito maduros em suas perspectivas e fundamentações. Diversos e conflitantes também. Por uma questão de recorte, competência e espaço, portanto, o livro não toca neste campo do conhecimento – ainda que em alguns momentos (mais nas entrelinhas do que nas linhas), aspectos morais de tais procedimentos manifestem-se, e oferecendo referências para os que desejam aprofundar tais reflexões. Trata-se ainda de uma questão estratégica. A obra pretende alcançar inclusive cientistas da área da pesquisa biomédica que são, em sua maioria, limitados neste (e portanto, resistentes a este) campo do conhecimento. Acredito que, se a argumentação ética não é acessível ou receptiva a estes sujeitos, a critica científica possa talvez ser mais intersubjetiva. É uma aposta…

ANDA: Na obra o Sr. apresenta uma ampla revisão bibliográfica sobre a problemática da modelagem animal. Qual a importância desse trabalho de revisão?

Tréz: Na ciência valoriza-se muito as fontes, e foi por isso que tomei muito cuidado na seleção das mesmas, fazendo uso de publicações recentes e qualificadas (a maioria dos artigos, por exemplo, são de periódicos de alto fator de impacto). Isso dá conta de apresentar uma crítica de alguma forma robusta e convincente. É importante mostrar ao leitor e à leitora que estas críticas já fazem parte de uma cultura científica crescente, e que não é uma construção oriunda apenas do movimento de libertação animal.

ANDA: Segundo sua obra, qual seria o estilo de pensamento novo em oposição ao pensamento hegemônico?

Tréz: Ao leitor não familiarizado com Fleck, estilo de pensamento é algo similar ao conceito de paradigma, de Thomas Kuhn. Um conjunto de práticas, conceitos e valores que direcionam o comportamento, e direcionam a percepção da realidade. Este novo estilo de pensamento na ciência passou a surgir há cerca de 15 a 20 anos, e assume, entre outras coisas, que a modelagem animal não gera dados relevantes para a realidade biológica humana, que existe um contexto tecnológico que precisa ser considerado e que torna a modelagem animal obsoleta, e que a ciência precisa estar alinhavada com os valores emergentes da sociedade.

ANDA: O Sr. tem alguma perspectiva quanto a receptividade da obra entre os estudantes, docentes e pesquisadores?

Tréz: Toda obra tem um tempo de impacto, de chegada ao público. Por se tratar de um tema de interesse social e científico, espero que não tarde. Na verdade, já estou sendo convidado a debater a obra no meio acadêmico, onde mais atuo, o que é muito gratificante. Mas pelo conteúdo controverso, as reações serão as mais diversas possíveis, inclusive o da resistência cética que predomina no meio científico brasileiro em relação a esta temática. É parte do processo.

Para adquirir o livro acesse Instituto 1R.

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