Fabio Euksuzian

Liberdade e responsabilidade

Desde que nos entendemos como bicho-homem, travamos uma incessante e, muitas vezes, inútil busca por dois subjetivos e relativos tesouros que vivem incrustados nos corações dos homens: liberdade e felicidade.

Profetas, líderes políticos (poucos), professores, artistas e filósofos vêm tentando apontar os caminhos há tempos, muito antes de nossa era. Os hindus dizem que quando o sábio aponta para a lua, o tolo olha para o dedo. Você deve ter percebido uma contradição no inicio deste artigo, afinal, como procurar algo que jaz dentro do seu coração?

Vamos partir do pressuposto que se buscamos a felicidade e a liberdade é porque não as temos, certo? E se eu lhe disser que você já nasceu com estes “conceitos” e que bastaria a você somente mantê-los?

Na mitologia grega, Prometeu foi castigado e aprisionado (para ter seu fígado devorado por uma águia) pelos outros deuses por ter conduzido aos homens a chama do fogo sagrado. O mito simboliza o poder do fogo da sabedoria que se bem trabalhada traria a liberdade mais pura e ampla, o que, inevitavelmente, por sua vez, levaria a mais absoluta sensação de felicidade, ou seja, estados do ser que já se encontram dentro de nós. A lenda nos mostra que os deuses se irritaram porque temiam que, com a obtenção do fogo da vida, os homens se igualassem a eles no status de divindades devido à liberdade que conquistariam. No entanto, o conceito libertário possui várias facetas e interpretações. Talvez em seu sentido mais profano seja a mais simples e natural forma de trafegar por nossas vidas; e é sobre isso que se trata este texto.

Todos nós queremos liberdade? Bem, teoricamente sim, mas na prática… Recentemente uma aluna minha que é arquiteta, recebeu a “promoção” de poder trabalhar em casa. Quando me comunicou, festejei e para minha surpresa senti que ela não estava muito feliz. Algumas semanas depois, apareceu pra fazer aula, e chegou logo dizendo que pediu à sua diretora para voltar a trabalhar no escritório. Fiquei abismado e até mesmo entristecido. Ela justificava reclamando que em casa, não conseguia se concentrar, pois havia muitos focos de dispersão e quando se via, estava de frente pra televisão, ou cochilando e brincando com seu gato. Falava que necessitava de alguém para “ficar atrás dela”, cobrando-a, estimulando-a, dizendo a ela o que e quando fazer.

Neste instante me lembrei de um insight que tive certa vez quando estava dirigindo meu carro em uma estrada qualquer desse nosso grande Brasil e, em um dado instante, os traços pintados no asfalto que são usados para criar as faixas que separam as diversas pistas, evitando colisão e mantendo-nos retilineamente no caminho, desapareceram. Notei que, segundos depois, estava com dificuldade em manter-me no caminho, disciplinadamente. Logo se criou em minha mente a analogia da necessidade do cabresto em nós, de termos alguém ou um conjunto de regras que nos enquadrem e nos ditem qual será a nossa trilha e como devemos agir e pensar.

Infelizmente não estamos acostumados com autonomia na tomada de decisões, seja em qualquer área de nossas vidas, não estamos acostumados com a liberdade de ação e pensamento. Em um de seus livros, o psicanalista Wilhelm Reich postula que nós, seres humanos, temos na verdade pavor da liberdade. Logo na primeira página, há um hilário e significativo desenho de um homem com uma expressão aterrorizada e em seus pés uma corrente partida atada em seu tornozelo, no maior estilo presidiário norte-americano. Moral da caricatura: o homem se assustou porque estava livre!

Em minha opinião, nós temos medo da liberdade porque isso pressupõe responsabilidade. Ouso até mesmo a dizer que o mundo atual e de uma forma geral não é liberto, porque, dentre outras coisas, tem muito medo da responsabilidade que acompanharia o belíssimo e valioso ato de ser livre.

Espero que eu consiga me fazer entender, pois toda vez que ilustro esta minha próxima estória, fico receoso em parecer algo sem sentido, mas vou tentar assim mesmo. Será que já aconteceu com você de estar em viagem e perceber que tem toda a possibilidade libertária de não voltar para sua cidade ou casa? Pois para mim isso se sucedeu algumas vezes. Por um lado me encheu de alegria pela percepção do poder de decisão que tenho com relação à minha própria vida, mas por outro (sempre existe a contrapartida) me assombrou, como na figura do livro do Reich.

Após algumas caprichadas reflexões sobre o tema, percebi que o susto, muitas vezes, se devia ao fato de nos sentirmos sós, tendo somente a companhia de nossos inflamados egos. Explico melhor: temos a vaidosa impressão de que se tomarmos alguma atitude radical e de grande mudança sobre aquilo que já é conhecido e esperado por nós, chocaríamos o mundo, alguma grande mudança se processaria, pessoas se mobilizariam para nos fazer retroceder, quando na verdade, ninguém se importa realmente com o que fazemos de nossas próprias vidas, por mais que possa parecer o contrario. Por isso mesmo, não vale a pena se preocupar tanto com a opinião e pensamento dos outros, como grande parte da população o faz, porque, no fundo, cada um de nós tem o seu próprio trajeto a concluir.

Pense nisso, amigo vegetariano. O seu exercício de liberdade ordinária está sendo bem feito. A liberdade de escolher aquilo que nutrirá as células, astral e pensamentos estimulará o seu próprio uso em outras áreas de sua vida. No entanto, como previamente exposto, essa situação libertária está intimamente conectada a uma responsabilidade maior. Interessante saber que o termo “responsável” deriva de respondere, o que nos traz a ideia de “aquele que garante” (responsor), como o que chamamos atualmente de fiador. Ao nos tornarmos vegetarianos, exercemos esse significado das mais diferentes formas: esclarecendo outras pessoas, representando uma antiga filosofia alimentar com milhões de adeptos, levantando questões não tão facilmente digeríveis (com perdão do trocadilho) e por final, estamos quebrando paradigmas altamente impregnados em nosso inconsciente individual.

Por essas e outras, querido leitor, responda conscientemente pelos seus atos, pois só assim terá a liberdade que tanto almeja.

*Fabio Euksuzian é escritor, presidente da Associação dos Profissionais de Yôga da Vila Olimpia, e professor de Swásthya Yôga.

Fonte: Este artigo foi publicado originalmente na Revista dos Vegetarianos, ano 2, n. 14, p.44-45.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui