O tão violentado Ahimsa


Culpa de Gandhi!

Não, não é uma musica de Gilberto Gil e seu bloco carnavalesco Filhos de Gandhi; é uma simples constatação de que o alicerce da opção do Mahatma de não entrar em conflito bélico com os britânicos para obter a independência da Índia, em 1947, se tornou a coqueluche do momento. É, ele mesmo, o tão comentado ahimsa, termo sânscrito que significa literalmente não injuriar ou machucar. Tem sido bastante disseminado nas mais diferentes áreas do conhecimento humano. Mais do que nunca, o voto de ahimsa se faz imprescindível, sobretudo por estarmos vivendo em tempos que carregam, nas brumas de seus amanhecer, a gélida lâmina da intolerância. No entanto, é preciso que entendamos um pouco melhor o conceito, até mesmo para aperfeiçoarmos a sua utilização prática.

Conta a lenda que um monge chamado Bôddhi Dharma tinha que levar as bases do hinduísmo para a China; queria ele fazer a travessia sem proteção militar, pois monge que o era, havia feito voto de ahimsa; porém, foi convencido que isso seria suicídio. Gerou-se de um conflito filosófico: tinha que cumprir o seu dharma (dever social), mas não queria ser assassinado. Sentou-se de frente para uma imagem de Shiva e permaneceu lá por semanas, sem sair do lugar, até que em dado momento a imagem se “desprende” e inicia uma dança, prontamente copiada pelo monge. Nas entrelinhas da dança, o monge estava aprendendo a se defender por meio de movimentos sutis, porém bastante eficientes. E então sentiu-se pronto para a peregrinação. Foi, e ao chegar ao seu destino, pessoas curiosas por ele ter conseguido a proeza da realização da caminhada sem armas, perguntaram a ele: como? E ele simplesmente respondeu: de mãos vazias! O que mais tarde viria a designar o nome de uma difundida arte marcial, o Karatê. Esta é uma das primeiras demonstrações de ahimsa que os carcomidos livros da historia nos ensina. Até o famoso Jiu-Jítsu nasceu de uma historia semelhante e também teve suas origens fundamentadas no conceito da não-violência. Por volta de 2500 A.C, na Índia antiga, monges mercadores que precisavam constantemente as montanhas dos Himalaias eram frequentemente assaltados pelos ladrões do deserto e como tinham dentro de seus princípios a não utilização de armas, sentiram a necessidade de desenvolver técnicas de autodefesa e preservação, dando inicio assim a uma das mais eficazes e inteligentes artes que o mundo já conheceu. Interessante citar, a título de conhecimento e para reforçar o tema de nosso artigo, que o termo Jiu-Jítsu significa arte suave. Elucidativo, não?

Dentro do nosso combativo vegetarianismo, o ahimsa reforça a opção pessoal, visto que a compaixão para com os animais é uma das grandes razões que levam milhares de pessoas diariamente a seguir essa trilha. A não-violência, nesse caso, ganha um tom ainda mais dramático (pois refere-se, em grande parte dos casos, a assassinatos completamente e imensamente desnecessários), levada, por exemplo, ao extremo por grande parte dos seguidores do Jainismo, tradição religiosa hindu iniciada por Mahavira por volta do século 6 A.C.

A historia nos conta que quando Alexandre, o Grande, invadiu a Índia em torno de 326 A.C, os jainistas recusaram a se dirigir a ele enquanto não se despisse de sua armadura, o que para eles era uma afronta à não-violência. Até hoje é possível vê-los caminhado pelas ruas com máscaras cirúrgicas (para não matar nenhum inseto com a respiração) e varrendo constantemente o chão à sua frente para não correrem o risco de esmagar qualquer tipo de vida; rejeitam vegetais arrancados pela raiz, pois isso causaria a morte de centenas de microorganismo que fazem destes alimentos suas casas. Isso sim é preocupação com qualquer tipo de vida que envolve o planeta!

Não obstante, devemos compreender que o voto da ahimsa não deve ficar limitado à esfera alimentícia e sim ser observado em todas as dimensões que compõem o que chamamos de ser racional. Em minha opinião, ahimsa é, antes de mais nada, um intenso treinamento de tapas, termo sânscrito que significa literalmente calor, arder, mas que comumente é traduzido como auto-superação, pois designa, em um certo sentido, um controle sobre nossos condicionamentos. Por exemplo, desde crianças aprendemos muito mais pela observação (e essa é uma das mais eficazes técnicas de ensino), que é normal e natural, fofocar sobre a vida alheia, espargir maledicências sem necessidade, odiar o trabalho que nos dá sustento, reclamar o tempo todo de tudo e de todos, desejar que o outro esteja sempre um degrau abaixo de você, fazer mecanicamente o que não se gosta, e por final, aniquilar qualquer bichinho que cruze o nosso caminho (quem quando criança, nunca pisoteou uma formiga ou exterminou um tatu-bola, simplesmente porque era o que todos faziam?).

Enfim, todas as situações acima são graus diferentes da não observância de ahimsa. Portanto, para que o nosso voto seja realmente verdadeiro e transformador com relação aos animais, ele deve estar perpetrado amorficamente em nossos corações, sem qualquer restrição ou pré-conceitos, passando por pensamentos, palavras, ações e hábitos. Não pense que é tarefa fácil, pois não é, e digo isso por experiência própria.

Permita-me escrever uma dica das que utilizo com meus alunos. Inicie a próxima semana com a ideia de aumentar a percepção com relação à violência presente em sua vida, seja ela qual for, física, mental, emocional, energética etc. passe toda semana anotando as situações, que de uma forma ou de outra, lhe atrapalharam na disciplina do ahimsa. No final do período proposto, leia o que escreveu e escolha as que considera mais fáceis de se modificar, ou seja, aquelas nas quais provavelmente tenha agido por um impulso emocional, deixando outros atos de violência que já estão impregnados (hábitos) em você para serem resolvidos aos poucos, à medida que for sutilizando seu comportamento em pequenas ações (os pensamentos são mais difíceis e um dos conselhos é praticar meditação) do dia-a-dia.

Para terminarmos por esta edição: reflita sobre tudo aquilo que confronta os seus princípios e valores e saberá o que está lhe fazendo mal, ou de uma certa forma, quebrando o seu valioso pacto com nosso velho herói, o super ahimsa.

*Fabio Euksuzian é professor de Yôga.

Fonte: Este artigo foi publicado originalmente na Revista dos Vegetarianos, ano 2, n. 13, p.56-57


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