Com um gostinho de crueldade


Algum tempo atrás, num episódio de South Park, Kenny e outros garotos descobrem a maneira como é obtida a carne de vitela. Revoltados, eles iniciam um movimento para que a “verdade” sobre a comida venha escrita na embalagem: os meninos defendem que, em vez de “vitela”, o rótulo deveria trazer uma inscrição do tipo “carne de bezerro anêmico e maltratado”.

A indignação dos personagens deveria ser compartilhada por todo – mesmo por aqueles que não são vegetarianos. Afinal, o universo tenebroso da exploração animal, a produção da carne de vitela e a criação de aves para obtenção de foie gras sobressaem como expoentes máximos de crueldade.

No caso da carne de vitela, o horror começa no aparte dos bezerro – em geral, os machinhos nascido em fazendas de leite. Como as raças leiteiras não costumam ter bom desempenho na engorda, estes animais não seguem a trajetória habitual dos bois de corte, que são abatidos após atingirem um determinado tamanho e peso. Assim, os filhotes das vacas leiteiras podem ter dois destinos aos nascer: ou são mortos imediatamente (em algumas fazendas, são jogados vivos em buracos, para que morram à míngua – os fazendeiros não querem gastar dinheiro em sedativos ou injeção letal), ou são apartados da mãe e confinados para a produção da vitela.

O horror se estende por uns três meses. Durante este período, eles ficam amarrados em boxes escuros e minúsculos. A ideia é que não apanhem Sol nem mexam – deste modo, os músculos não se desenvolvem, o que assegura a “maciez” da carne. São alimentados apenas com leite, e em quantidades insuficientes. Magros e subnutridos, eles terão uma carne menos calórica, e portanto muito mais “saudável” para os “humanos” que os comerão depois…
Passado o período de confinamento, os bezerrinhos doentes finalmente vão para o abate (acho que, no caso deles, o corredor da morte representa um alivio e uma liberação). Fracos, nem conseguem andar até o caminhão que os transportará até o matadouro. Os peões encarregados do transporte geralmente amarram cordas nos pescoços dos novilhos, para arrastá-los e içá-los ao veiculo.

Considerado um dos itens mais “sofisticados” da culinária francesa, o foie gras, ou patê de fígado de ganso ou pato, é um exemplo de como o ser humano consegue ter ideias sofisticadas, sim… Principalmente no campo da tortura e da maldade. Não se sabe ao certo quando ou onde surgiu o foie gras. Dizem que os antigos egípcios abatiam as aves migratórias e gostavam de comer os fígados das mais gordas. Em algum momento, eles deduziram que, se mantivessem os animais confinados e dessem a eles uma superalimentação, poderiam obter fígados ainda mais volumosos. A prática logo se disseminou pela região mediterrânea, conquistando os apetites vorazes dos latinos gorduchos, que se empanturravam de vinhos e gorduras à mesa.

Esta origem antiqüíssima é frequentemente usada como argumento pelos defensores de tal “iguaria”. Em nome da tradição, grandes chefs de cozinha julgam-se no direito de não apenas utilizar, como também disseminar o uso do patê de fígado. O que eles não levam em conta é que os tempos mudaram, e certas práticas bárbaras não podem ser admitidas em pleno século XXI. A forma como os animais são criados para a obtenção do foie grãs é lamentável e indigna. Numa primeira fase, os gansos ou patos, são criados soltos, em gramados, comendo folhas e sementes para fortalecer o esôfago. Na etapa seguinte, eles permanecem soltos, mas começam a receber uma suplementação com alto teor de amido, que por si só aumenta o peso do fígado em 50%.

Na última fase, chamada pelos franceses de finition d’engraissement (complementação do processo de engorda), eles são forçados a ingerir alimentos altamente calóricos, geralmente milho embebido em manteiga, de duas a três vezes ao dia. O processo se estende por 12 a 15 dias para patos, e de 15 a 18 dias para gansos. A alimentação é ministrada por um tubo, que mede entre 20 e 30 cm, e é introduzido forçadamente até o esôfago do animal. Se utilizado um eixo helicoidal, o processo dura de 45 a 60 segundos. Se usado um sistema pneumático, apenas 2 ou 3 segundos. Os responsáveis pela tarefa precisam tomar muito cuidado para assegurar a integridade do esôfago que, em caso de dano, pode levar facilmente à morte do animal, acarretando prejuízo ao criador.

A alimentação forçada explora um processo natural: patos e gansos são aves migratórias, dotadas de uma capacidade impar de acumular gordura no fígado, que lhes assegura a energia necessária para enfrentar as longas viagens nos períodos do inverno. Assim, o que seria um mecanismo de defesa da espécie se converte justamente em atrativo para seu mais feroz predador: o homem. E não um homem qualquer – falamos de alguém que pode pagar caro, muito caro, por uma comida repulsiva, gordurosa, riquíssima em colesterol, prejudicial à saúde e obtida de forma incontestavelmente cruel.

No entanto, vale ressaltar que o tamanho alcançado pelos fígados das aves submetidas à criação intensiva é muito superior ao tamanho que poderiam chegar pelo processo natural. Por esse motivo, os animais adoecem e sentem dores atrozes. Muitos nem conseguem ficar em pé. A imoralidade inerente ao processo de produção do foie gras gerou indignação até no Governador da Califórnia, Mr. Arnold “Terminator” Schwarzenegger, que em setembro de 2004 proibiu não apenas a produção, como também a venda do produto, no Estado em que ele governou. Uma lei similar está pendente no Estado de Nova Iorque. Estes são os dois únicos Estados nos Estados Unidos com industrias produtoras de foie gras.

Hoje o foie gras é ilegal em muitos locais, e há legislação pendente em outros. Em agosto de 2003, a suprema corte de Israel declarou a produção de foie gras como crueldade animal, e tornou-a ilegal a partir de março de 2005. A alimentação forçada também é proibida na Alimentação. Argentina, Áustria, Dinamarca, Finlândia, Holanda, Irlanda, Luxemburgo, Noruega, Polônia, Reino Unido, republica Tcheca, Suécia e Suíça.
As proibições resultaram de muita luta por parte dos defensores dos direitos animais. As vítimas brasileiras estão à espera de que nos mobilizemos por elas. Vamos à luta!

 

*Silvia Lakatos é historiadora e jornalista.

 

Fonte:  Este artigo foi publicado originalmente na Revista dos Vegetarianos, Ano 1, n. 4, p. 38-39.


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