COP 21

A sobrevivência dos primatas depende dos humanos, afirma Jane Goodall

Redação ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais

 Jane Goodall com a chimpanzé Nana, em 2004. Foto: Jens Schlueter/AFP/Getty Images
Jane Goodall com a chimpanzé Nana, em 2004. Foto: Jens Schlueter/AFP/Getty Images

A primatologista Jane Goodall dedicou sua vida à preservação do reino animal. Em uma entrevista para o Irish Times, a britânica comentou sobre a Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP 21) e o primeiro acordo global para frear as emissões de gases do efeito estufa e para lidar com os impactos da mudança climática.

Para ela é importante assegurar a importância da biodiversidade. Segundo a líder e especialista mundial em chimpanzés, acordo é crucial para a sua sobrevivência desses primatas.

“Costumava haver mais de um milhão de chimpanzés no mundo; restam apenas 300 mil”, disse Goodall. “A principal ameaça aos chimpanzés é o desmatamento, que destrói o seu habitat. A segunda é o comércio de animais vivos e, infelizmente, esse tem sido um comércio crescente, onde as mães são mortas e os bebês são levados para serem vendidos.”

Gestão sustentável
O desmatamento é uma das principais causas das alterações climáticas, pois o dióxido de carbono das árvores é liberado na atmosfera quando são derrubadas e queimadas. O acordo menciona a necessidade de reduzir o desmatamento e a degradação florestal.

“A mudança climática naturalmente nos afeta, mas também está afetando todos os outros animais”, relata Goodall. “Somos tão arrogantes em pensar que esta forma de vida, que é tão terrivelmente destrutiva, é mais importante do que todo o resto.”

Goodall trabalhou como garçonete para pagar sua passagem para o Quênia quando ela tinha 23 anos. Seu mentor, o antropólogo queniano Louis Leakey, mandou-a para Cambridge para fazer um doutorado em etologia (comportamento animal). Hoje, ela tem doutorados honorários de mais de 45 universidades.

A reverência de Goodall aos animais contrasta com a atitude de alguns líderes da COP 21. O Secretário de Estado americano John Kerry disse em um discurso no mês passado que a ameaça do aquecimento global não é apenas sobre o “dano que é causado ao habitat para borboletas ou ursos polares como algumas pessoas tentam zombar… A mudança climática não é apenas sobre Bambi.”

Goodall nos lembra que as borboletas, ursos polares e Bambi são importantes. No relatório recente Planeta Vivo, o World Wildlife Fund informou que entre 1970 e 2010, as populações de mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes ao redor do mundo caiu 52 por cento.

“As pessoas não percebem o efeito cascata”, afirmou Goodall. “Um pequeno inseto que desaparecerá pode ser o alimento principal de um determinado peixe, que pode ser o alimento principal para um determinado pássaro. Há exemplos de ecossistemas que entraram em colapso só porque um elo foi retirado da cadeia alimentar.”

“Na floresta tropical, você aprende sobre a interdependência de toda a vida. Acho que cometi um erro chamando isso de biodiversidade… Se você falar sobre a teia da vida, as pessoas entendem.”

Azzedine Downes, presidente do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal e especialista em elefantes, compartilhou o palco com Goodall em um seminário. “Não houve muitas discussões sobre o impacto das alterações climáticas em animais na COP 21 “, afirmou.

Seca
Há apenas 350 mil elefantes em estado selvagem e 33 mil são mortos a cada ano, explica Downes. Mudanças climáticas forçam os animais a migrarem, como os humanos. A seca no leste da África forçou elefantes a se tornarem mais noturnos, para fugir do sol.

“Muitos elefantes deixaram as áreas secas e avançaram para áreas mais úmidas. Isso é uma armadilha, porque esses são os países onde a caça está fora de controle”, explica.

O acadêmico Ken Caldeira, que é citado por Elizabeth Kolbert no livro The Sixth Extinction, esclarece que os animais teriam que migrar em direção aos pólos, andando mais de 9 metros por dia para acompanhar as mudanças atuais de temperatura.

Goodall passou décadas na reserva Gombe, na Tanzânia observando o quanto os nossos primos mais próximos lembram os humanos. Ela descobriu que os chimpanzés fabricam e usam ferramentas, por exemplo, para “pescar” cupins comestíveis de um monte de terra.

Louis Leakey escreveu que, graças à pesquisa de Goodall: “Temos agora de redefinir o homem, redefinir as ferramentas, ou aceitar os chimpanzés como humanos.”

Goodall também descobriu que os chimpanzés, como os humanos, podem ser agressivos e violentos. “Quando as florestas tropicais começarem a diminuir, eles se tornarão mais territoriais e brutais”, elucida ela. “Se uma comunidade é forçada a se mudar, eles não podem simplesmente se misturar com outra comunidade. Haverá disputas por território.”

Segundo Goodall, seu cão ensinou-lhe “não há nenhuma linha nítida dividindo-nos do resto do reino animal”. Chimpanzés abraçam, beijam, dão tapinhas nas costas e até mesmo fazem cócegas uns nos outros.

Goodall descreve o resgate de um chimpanzé fêmea em 2013 como “a interação mais incrível que eu já tive… quando liberamos esta fêmea adulta de sua jaula em uma ilha. Ela se virou e me abraçou. Ela era uma chimpanzé que foi resgatada do comércio de animais selvagens. O nome dela era Wounda, que significa ‘perto da morte’.”

Para a vegetariana Goodall, os carnívoros “vão ter que mudar. Porque, para alimentar os milhares de milhões de animais que são criados por nós para consumo ao redor do mundo, grandes áreas de floresta tropical são desmatadas para cultivar cereais.”

Mídia social
Animais em fazendas produzem metano, um gás de efeito estufa mais virulento do que o dióxido de carbono. O metano não foi discutido na COP 21, nem negociadores sugeriram que as pessoas devem comer menos carne.

Goodall gasta 300 dias por ano na estrada, fazendo campanha por melhores condições para os animais. O Instituto Jane Goodall tem 19 escritórios ao redor do mundo e seu programa para jovens, Roots & Shoots, tem 100 mil grupos em 140 países.

Goodall defende o poder das mídias sociais para denunciar inimigos do meio ambiente.
“Os jovens me energizam”, afirmou ela. “Enquanto eu tiver saúde, força e capacidade de me comunicar, eu vou continuar lutando.”

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