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Como estão os cães resgatados da Universidade de Viçosa

Doug finalmente com o com o protetor Francisco depois de uma longa e dolorosa espera. Descrição: O protetor Francisco tem nos braços o cão Doug, de porte médio, preto e branco. O cão parece sorrir acompanhando o largo sorriso de seu salvador. Foto: Andressa Antunes
Doug finalmente com o com o protetor Francisco depois de uma longa e dolorosa espera. Descrição: O protetor Francisco tem nos braços o cão Doug, de porte médio, preto e branco. O cão parece sorrir acompanhando o largo sorriso de seu salvador. Foto: Andressa Antunes

Fátima ChuEcco/Redação ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais

O cão Leônidas ficou quase cego. Felipe sente dor, manca e quase não se levanta. Átila não pode sequer ver água que urina de medo. Além deles, todos os outros 13 cães, resgatados por ONGs e protetores independentes, no último dia 4, da UFV – Universidade Federal de Viçosa (MG), onde eram mantidos como cobaias, estão com cortes nas patas e muito assustados. Os animais foram libertados devido a uma ordem judicial expedida no dia 3 deste mês.

Entre os oito cães levados para SP pela ONG Cão Sem Dono, um está com urina preta e outro, ao ser colocado na mesa da veterinária para checagem de sua saúde, não se mexeu, ficou paralizado pelo pânico. À princípio, uma coisa é certa segundo a veterinária Michelly da Cão Sem Dono: todos foram induzidos a osteoartrite, uma doença incurável e, por conta disso, precisarão tomar antiinflamatórios e remédios contra dor pelo resto da vida sendo que eles têm apenas entre 1 e 4 anos de idade. Ou seja, jovens e já condenados a uma enfermidade comum a animais mais idosos e obesos, e bem pouco comum em cães sem raça definida.

Todos os 16 cães resgatados revelam sequelas dos experimentos, especialmente nas patas onde foram feitas cirurgias. Descrição: Cão branco com mancha marrom clara na cabeça e dorso, sentado fora da UFV, deixa evidente incisões feitas em sua pata traseira. Foto: Cão Sem Dono
Todos os 16 cães resgatados revelam sequelas dos experimentos, especialmente nas patas onde foram feitas cirurgias. Descrição: Cão branco com mancha marrom clara na cabeça e dorso, sentado fora da UFV, deixa evidente incisões feitas em sua pata traseira. Foto: Cão Sem Dono

E isso tudo é só um breve resumo, pois, todos os animais estão sendo avaliados por veterinários para levantamento de laudos que podem constatar os danos físicos e psicológicos causados por terríveis experiências ao longo dos últimos dois meses. A ativista independente Gabriela Vasconcelos de Paula deixou Belo Horizonte especialmente para ir à Viçosa resgatar Leônidas e Alôncio: “Fui a última a chegar e só restavam eles. Minha motivação não foi simplesmente adotar, mas tirá-los daquele inferno e dar amor. Leônidas tinha lesões nos olhos e quase não enxergava, além das incisões na perna. Alôncio também tem irritação nos olhos e está mais prostrado. Não possuem nenhum impulso de agressividade e são muito dóceis, mas se assustam ao menor ruído ou movimento”.

Ela conta que ambos estão comendo e bebendo normalmente: “Deu para perceber que ficaram muito felizes quando os resgatamos e essa felicidade deles foi uma coisa emocionante. No entanto, passaram por um trauma muito grande e precisarão de muito carinho e tratamentos veterinários”.

Leônidas ficou com lesões dos olhos, além das incisões em uma das patas, o que sugere que pode ter sido submetido a mais de uma experimento ao mesmo tempo. Descrição: Close de cão marrom com olho bastante vermelho. Foto: Gabriela Vasconcelos
Leônidas ficou com lesões dos olhos, além das incisões em uma das patas, o que sugere que pode ter sido submetido a mais de uma experimento ao mesmo tempo. Descrição: Close de cão marrom com olho bastante vermelho. Foto: Gabriela Vasconcelos

Beatriz Silva, da ONG Bendita Adoção, também notou muito medo em Felipe e Átila, sobreviventes que estão sob sua guarda: “Só de ligar a mangueira ou ver uma vassoura eles urinam. Se alguém fala alto perto deles também se assustam. Não quero imaginar o horror que passaram para ter tanto medo assim. Mas o dia do resgate foi o primeiro do resto de nossas vidas juntos. Adeus sofrimento! Que a tortura do Instituto Royal e em Viçosa sirva de exemplo para isso terminar”, comenta.

Francisco José Mendes Duarte, da Sovipa – Sociedade Viçosense de Proteção aos Animais, ficou com o cão Doug e diz que ele passa bem e se mostra animado apesar das sequelas. Doug também passará por um minucioso exame de saúde. Francisco vem lutando pela adoção de Doug desde que o cão foi retirado do CCZ para ser inserido nas pesquisas e estava disposto a levá-lo para casa independente do seu estado de saúde. Ele contou como foi rever o Doug em outra matéria da ANDA.

Alôncio é muito dócil, mas está muito traumatizado e se assusta fácil. Descrição: Cão marrom claro de aparência jovem, de pé, mostra irritação nos olhos. Foto: Andressa Antunes
Alôncio é muito dócil, mas está muito traumatizado e se assusta fácil. Descrição: Cão marrom claro de aparência jovem, de pé, mostra irritação nos olhos. Foto: Andressa Antunes

Vicente Define, da Cão Sem Dono, conta que a ONG enviou três carros de SP para Viçosa para pegar os oito animais que já estão em um sítio de Itapecerica da Serra: “Quando a Sovipa nos contatou a ideia era retirar os cães de Viçosa temendo que pudessem ser recuperados depois pela UFV. Então aceitamos o desafio e criamos um grupo no whats app com essa finalidade”. A Cão Sem Dono pretende lançar campanha anti-vivissecção com a ajuda dos sobreviventes da UFV. Nos EUA, por exemplo, um cão e uma gata que sobreviveram à câmara de gás, que até hoje funciona naquele país para controle animal, viraram símbolo da luta contra esse cruel método e fazem campanhas em diversas cidades.

A Cão Sem Dono também investirá em acupuntura e tratamentos alternativos, além dos tradicionais, mas já tem sob sua guarda 315 animais, então está pedindo ajuda para enfrentar o longo processo de recuperação dos oito sobreviventes. Para ajudar acesse o facebook da ONG.

Felipe e Atila quando ainda estavam no canil da UFV. Descrição: Dois cães marrons de porte médio olham para a câmera. Foto: Divulgação
Felipe e Atila quando ainda estavam no canil da UFV. Descrição: Dois cães marrons de porte médio olham para a câmera. Foto: Divulgação

A posição da UFV

Em nota pública e também em entrevista cedida ao G1 a UFV declarou que tem feito todos os testes dentro das normas e que buscará punição judicial a todos que caluniaram a universidade dizendo que os animais foram maltratados. É verdade que a UFV teve permissão para essas pesquisas por Orgãos criados para isso como CNPq, mas dizer que os animais não sofreram é bastante fora da realidade. Não existe vivissecção sem dor ou angústia, e muito menos sem sequelas graves – essa matéria relata apenas algumas.

Inclusive, em 2013, uma matéria do Estado de Minas já contava a história de alunas de universidades mineiras que abandonaram o curso de Veterinária devido as aulas práticas onde podiam ver claramente o sofrimento das cobaias.

Então, a pergunta que fica para a UFV e outras universidades que insistem em métodos arcaicos é: por que não se modernizar e investir em pesquisas que não incluem o uso de cobaias? Quantos jovens poderiam se tornar excelentes veterinários e não o fazem por não encontrarem nas universidades uma ciência mais ética e moderna?

Ao deixar a UFV cão demonstra tranquilidade. É como se soubesse que estava sendo salvo. Descrição: Cão preto com patinhas brancas, de médio porte, de pé, deixando a UFV com um dos protetores. Foto: Cão Sem Dono
Ao deixar a UFV cão demonstra tranquilidade. É como se soubesse que estava sendo salvo. Descrição: Cão preto com patinhas brancas, de médio porte, de pé, deixando a UFV com um dos protetores. Foto: Cão Sem Dono

A UFV está perdendo uma grande oportunidade de adotar, perante seus alunos e público, uma postura ligada à Nova Ciência. A partir desse caso que tem comovido o Brasil e já atravessa as fronteiras do país, mais sensato seria a UFV se dispor a uma discussão em torno do assunto visando conhecer métodos alternativos – e são muitos! Tratamentos de certas doenças podem, por exemplo, ser testados em animais que realmente possuem essas enfermidades tornando-se pacientes e não cobaias.

A UFV está diante de uma grande chance de reconhecer o anseio popular e de seus futuros alunos, e fazer algo a respeito. Uma entidade com quase 90 anos de idade deveria estar madura o suficiente para não temer o novo e acolher novas ideias mais condizentes com o mundo contemporâneo. Não é hora de ameaçar alunos, professores, protetores ou pessoas que discordam de seus métodos de ensino. É hora de se modernizar – o que serve também para Orgãos reguladores e financiadores dessas pesquisas. E é hora também da mídia em geral tirar esse assunto do porão e dar a devida importância as inovações para evitar esse sofrimento da vivissecção que é um dos mais terríveis e, lamentavelmente, persistente em pleno século XXI.

O Brasil tem, por exemplo, um pesquisador ganhador do prêmio internacional Lush Prize concedido para pesquisas científicas sem uso de cobaias. É o biólogo formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) Róber Bachinski. O biólogo e pesquisador Sérgio Greif é outra fonte de conhecimento para universidades dispostas a adotar uma postura científica moderna. Veja o que ele diz sobre essas experiências em recente entrevista à ANDA.

Os cães passarão por exames minuciosos para avaliação completa de sua saúde. Descrição: Cão de aparência bem jovem, branco e marrom e claro e olhar meigo olha para a câmera. Foto: Cão Sem Dono
Os cães passarão por exames minuciosos para avaliação completa de sua saúde. Descrição: Cão de aparência bem jovem, branco e marrom e claro e olhar meigo olha para a câmera. Foto: Cão Sem Dono

Para conhecer as pesquisas da UFV com animais

A veterinária Andrea Pacheco Batista Borges é a líder das pesquisas da UFV no campo veterinário. Há 15 anos ela realiza experimentos com animais vivos na universidade. As pesquisas atuais e que estão autorizadas para os próximos meses, novamente com uso de cobaias, somam o valor de R$ 584.042,80 em financiamento por Orgãos públicos e empresas privadas. A consulta desses projetos é pública e na descrição (curiosamente bastante sucinta) dos mesmos cita-se a utilização de cães SRD. Esses 16 cães, por exemplo, foram retirados do CCZ de Viçosa onde gozavam de plena saúde e aguardavam adoção. Todas as 94 pesquisas de Andrea, datadas desde 2000, com sua breve descrição e valor do financiamento, podem ser acessadas no link.

Escreva para mídia e CNPq

Uma forma de ajudar que mais animais sejam libertados do martírio da vivissecção é escrevendo para veículos de comunicação e pedindo que o assunto seja abordado com especialistas que podem apontar métodos alternativos e universidades que já se modernizaram no Brasil e exterior. Pedir uma postura mais moderna do CNPq também é importante. O Orgão costuma dizer que dá preferência a pesquisas com métodos alternativos se eles puderem ser adotados. Alguns e-mails:
http://www.cnpq.br/web/guest/fale-conosco
[email protected]
[email protected] (TV SBT)
[email protected]
[email protected]
[email protected]
[email protected]

Cão recebe carinho e curte a grama ao sair a UFV. Descrição: Cão branco e marrom deitado confortavelmente num gramado recebe afago de duas pessoas. Foto: Cão Sem Dono
Cão recebe carinho e curte a grama ao sair a UFV. Descrição: Cão branco e marrom deitado confortavelmente num gramado recebe afago de duas pessoas. Foto: Cão Sem Dono

Fátima ChuEcco é jornalista ambientalista e atuante na causa animal

*É permitida a reprodução total ou parcial desta matéria desde que citada a fonte ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais com o link. Assim você valoriza o trabalho da equipe ANDA formada por jornalistas e profissionais de diversas áreas engajados na causa animal e contribui para um mundo melhor e mais justo.

1 COMENTÁRIO

  1. Que benção terem sido resgatados.
    Mas isso só mostra a pontinha do iceberg.
    Quantos milhares estão escravizados e torturados em outros laboratórios e universidades em todo o pais.
    E sem contar os outros tipos de cobaias usados em experiências e em “aulas” como ratos, rãs, coelhos e por ai a fora.
    Sem falar dos insetos então…
    Universidade que apoia a vivissecção é igual quem apoia o consumo de carne dizendo que é indispensável. Faz um discurso como se estivesse fazendo um bem para a coletividade mas na verdade está apenas procurando falsos argumentos para tentar justificar algo que só traz benefício “$” a si próprio.

  2. Se os experimentos não doem porque que a veterinária não serve de cobaia? Porque que os laboratórios não são de vidro? ou então porque não filmam tudo o que acontece no inferno dos porões?

  3. É inacreditável que ainda usem animais vivos em experimentos e aulas praticas. Seria como estudantes de medicina cortarem e experimentarem em mendigos os tratamentos que usarão mais tarde em pacientes com grana para bancar o próprio tratamento. Absolutamente estupido e cruel. Não acredito em profissionais que matam seus clientes pobres e indefesos para lucrar com os que podem pagar.

  4. O que eu posso dizer sobre isto? Muito pouco. Mas o que eu posso sentir ,e sinto, é revolta contra tanta maldade, Será que a UFV não percebe que isto é desumano? Vale agora lembrar o outro lado: as pessoas já estão sabendo e ficando revoltadas. Isto tem que acabar!

  5. não entra na minha cabeça como uma pessoa que estuda tantos anos para ser veterinária consegue levar os animais ao sofrimento. porque não usam animais já doentes para estudar a enfermidade? sou estudante de veterinaria e sempre foi meu sonho, minha intenção é salvar vidas. é inaceitavel uma pessoa escolher uma profissão tao bonita e agir como um monstro.

  6. Fui lendo a reportagem e me lembrando que, quando perguntavam o que eu queria ser, enchia a boca e alegrava os olhos com um sonoro, Veterinária!

    Como sou um ser de luz e muito protegida, essa Faculdade passou looonge e me liguei em outras causas, outros – e melhores – interesses na vida. Que bom!

    Jamais me sentiria confortável, atuante e *profissional* se meus estudos causassem dor e vilania a outros seres vivos, aos animais. Como eu conseguiria dormir em paz ouvindo dor e vendo tristezas, como?
    Não há em mim um traço de choro, ganido, miado etc que não fosse por acolhimento, alegria e dedicação à seu bem-estar e saúde.

    Vou agradecer muito, diuturnamente, que meus caminhos tenham sido outros e eu esteja aqui na Terra para fazer o bem e não o sofrer a aqueles que não tem voz e vez.

    Parabéns a todos, sem exceção alguma, os envolvidos na empreitada e meus aplausos, sorrisos e obrigados a cada um de voces. Clap, clap, clap

  7. Que bela notícia. Fico feliz demais. Da minha parte fiz apenas o que podia vivendo longe. Eu assinei a petição e divulguei a matéria no meu face. Fica uma pergunta: sendo comprovado abuso, e sendo abuso crime federal, o que pode acontecer â universidade? Nada? Que as benções caiam a todos esses animais, a todos que trabalharam para esse final feliz , aos que adotaram e especialmente para o juiz que ordenou a soltura.

  8. Eu também me alegro e agradeço a todos que batalharam incansavelmente para liberta-los.
    Ao mesmo tempo ao tomar conhecimento das fortunas que são repassadas a eles, tenho certeza que os valores podem ser revertidos p/ práticas que evitem esse sadismo. É justamente devido a uma máfia corrupta o principal motivo das vivissecções, que se mascaram por trás dos jalecos brancos. O povo iludido com as caras e bocas de pseudo-acadêmicos, cala e consente por acreditarem na fala solene de políticos e dos inúmeros “pseudos-médicos”,que a crueldade impingida justifica seus fins : salvar a humanidade de seus males do corpo. Essa barbárie existe na realidade pq da lucro para todos os envolvidos.

  9. Fico triste só de imaginar o que passaram e pela doença que foram induzidos a ter pelo resto da vida. Que tipo de veterinários serão, aprendendo a torturar bichinhos indefesos e saudáveis?

  10. A famosa “pseudo-ciência”, pois como alegar que em sacrifício de poucos muitos serão beneficiados? Será que o juramento feito pelo médico ou veterinário ou qualquer outro profissional que trabalhe com seres vivos deixa de existir na pesquisa? Não!!! O não provocar doença, dor, sofrimento, etc. vale em todos os campos e nisto, a UFV está muito aquém de centro de excelência. Triste saber que pesquisas que resultam em experimentos que remetem à Joseph Menghele sejam realizados aqui perto, em pleno século 21 (ou seria 12?).

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