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A nova bíblia da abolição animal

“Não faças aos outros o que não queres que te façam”. Soa familiar? Para os frades capuchinhos Gilmar Zampieri e Luiz Carlos Susin, autores do livro “A vida dos outros...

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03/12/2015 às 06:20
Por Redação

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De todos os campos de concentração no quais os animais estão inseridos, os laboratórios de pesquisa é um dos mais terríveis. Descrição: Foto mostra filhote de macaco rhesus atrás de uma grade com olhar tristonho. Foto: Internet

De todos os campos de concentração no quais os animais estão inseridos, os laboratórios de pesquisa é um dos mais terríveis. Descrição: Foto mostra filhote de macaco rhesus atrás de uma grade com olhar tristonho. Foto: Internet

Fátima ChuEcco/Anda – Agência de Notícias de Direitos Animais

“Não faças aos outros o que não queres que te façam”. Soa familiar? Para os frades capuchinhos Gilmar Zampieri e Luiz Carlos Susin, autores do livro “A vida dos outros – Ética e Teologia da Libertação Animal”, “lá onde o outro é maltratado, silenciado, recalcado, banido e morto a ética está ausente”. Mas “lá onde meu interesse leva em conta o interesse do outro passa-se para um estágio ético”. E o interesse do outro é simples e óbvio: não ser explorado e desfrutar da vida. Viver é um interesse comum, universal e presente em toda e qualquer espécie animal.

Recém-lançado pela Paulinas Editora, o livro dos frades gaúchos (que pertencem a uma ordem da igreja católica cujo fundador é São Francisco de Assis) pode ser considerado uma nova “bíblia abolicionista” como são interpretadas as obras “Vida Ética”, de Peter Singer e “Jaulas Vazias” de Tom Regan. Uma “bíblia da causa animal” em duplo sentido porque ao mesmo tempo que resgata filósofos e cientistas favoráveis à abolição animal, incluindo o biólogo e pesquisador brasileiro Sérgio Greif, também levanta inúmeros trechos da Bíblia que podem ter levado a civilização humana ao antropocentrismo e especismo, bem como outras passagens bíblicas que sugerem o vegetarianismo.

Distante do tempo das cavernas, muita gente ainda insiste em casacos de pele. Descrição: Imagem de matadouro com várias raposas mortas e empilhadas para terem suas peles arrancadas. Foto: Internet

Distante do tempo das cavernas, muita gente ainda insiste em casacos de pele. Descrição: Imagem de matadouro com várias raposas mortas e empilhadas para terem suas peles arrancadas. Foto: Internet

Trata-se de uma narração empolgante e recheada de dados de todas as épocas que surgiu a quatro mãos: “Somos professores e moramos na mesma casa. A conversa em torno da ética e teologia animal foi surgindo naturalmente, provocados, por um lado, pelo dever acadêmico de atualização em torno dos grandes temas da ética e bioética e, por outro lado, por nossos alunos vegetarianos e veganos, que muito contribuíram na provocação teórica e prática de mudança de comportamento e sensibilidade. E, finalmente, confrontados pelo cotidiano do comportamento especista que fere a sensibilidade de qualquer ser pensante e moral. O livro é fruto dessa provocação, conversa, planejamento, debate, troca de bibliografia, mútua atenção em tudo o que diz respeito à relação humana com os animais não humanos”, explica Gilmar.

“Há, de fato, um holocausto diário, uma guerra permanente, uma carnificina sem precedentes, e não nos damos conta, não queremos nos dar conta, nem ao menos queremos pensar no assunto, justificamos, por antecipação, como sendo inevitável, normal, moralmente aceitável. Mas uma nova causa está sendo anunciada por visionários e profetas, para a qual nós, teólogos, ainda fazemos ouvidos moucos e vistas grossas. A causa da libertação animal!”, dizem os autores.

Os animais de circo apanham e vivem em situações terríveis. Descrição: Foto mostra macaco com corrente no pescoço acuado no chão, todo encolhido de medo e olhar de espanto, enquanto o domador, de costas, exibe um chicote. Foto: Internet

Os animais de circo apanham e vivem em situações terríveis. Descrição: Foto mostra macaco com corrente no pescoço acuado no chão, todo encolhido de medo e olhar de espanto, enquanto o domador, de costas, exibe um chicote. Foto: Internet

Os cinco campos de concentração

O livro aborda, em detalhes, alguns bem pouco conhecidos da maior parte das pessoas, cinco campos de concentração nos quais os animais estão inseridos: estimação, entretenimento, instrumentos de pesquisa, utensílio e alimentação. “Em todos existe uma relação de propriedade. Mesmo os animais domésticos estão sujeitos ao sofrimento. De todos os campos de concentração, talvez esse seja o menos cruel, mas não está isento das maldades humanas”.

A obra identifica que no campo do entretenimento estão os animais de circo, zoológicos, touradas, rodeios, farra do boi e outros onde o sofrimento está presente em mutilações, privações e maus-tratos diversos. E tem ainda os animais usados como cobaias em testes e pesquisas, os transformados em sapato, casaco ou bolsa e, finalmente, o maior campo de concentração que é a indústria alimentícia.

“Por ano, 50 bilhões de animais são abatidos para consumo. Isso significa 140 milhões de animais mortos a cada dia, 5 milhões a cada hora, 90 mil a cada minuto e 1.500 a cada segundo. Não queremos e não nos esforçamos para associar a parte, a peça que estamos comprando a um ser vivo que matamos e esquartejamos”.

Os rodeios, as touradas e farras do boi abastecem o entretenimento à base de sofrimento. Descrição: Imagem de rodeio com peão montado em um cavalo enquanto tenta laçar um touro que corre desesperado. Foto: Internet

Os rodeios, as touradas e farras do boi abastecem o entretenimento à base de sofrimento. Descrição: Imagem de rodeio com peão montado em um cavalo enquanto tenta laçar um touro que corre desesperado. Foto: Internet

Além disso, prosseguem os frades na obra, tem os ovos. Milhões de galinhas poedeiras ficam amontoadas em gaiolas de metal. O piso de arame inclinado para facilitar o recolhimento dos ovos impede que elas fiquem confortavelmente em pé. Os pintinhos machos são mortos no mesmo dia que nascem. São jogados vivos em enormes latas de lixo. Os que ficam no fundo vão morrendo sufocados ou esmagados pelos de cima. Também são triturados vivos para servirem de alimento para suas mães ou irmãs.

Pintinhos machos são triturados vivos para servirem de alimentos as suas mães e irmãs. Descrição: Foto de muitas jovens galinhas num pequeno espaço. Foto: Internet

Pintinhos machos são triturados vivos para servirem de alimentos as suas mães e irmãs. Descrição: Foto de muitas jovens galinhas num pequeno espaço. Foto: Internet

“Dá para imaginar o sofrimento não só dos bezerros, mas da mãe que se vê privada dos filhos logo que nascem, quando seu instinto materno é o de cuidar de suas crias? Ela fica dias e dias mugindo, inconsolada pela ausência do filhote. E talvez não haja nada mais imoral na relação do humano com os animais não humanos, do que a forma como são tratados os bezerros mantidos sem afeto da mãe e leite materno, além de quase total ausência de movimentos em minúsculas baias” – trecho do livro que explica como se consegue que a carne de vitela, desprovida de músculos e cartilagem, fique macia e rosada. Os porcos não ficam atrás. Os leitões mamariam três meses, mas são desmamados em uma semana e separados de suas mães.

Transporte

Nas longas e estressantes viagens até os matadouros são comuns contusões, enjoos, fraturas, hemorragias e morte. Existe ainda a “febre do transporte” provocada pelo desgaste físico, falta de comida e bebida até o abatedouro. “Um dia, quem sabe, nos curemos da miopia profunda que nos impede de enxergar que, por trás de um bife morava uma alma sensitiva, um ser vivente cuja vida lhe pertencia e a sua apropriação e morte não podem ser banalizadas”, comentam os frades.

Os animais destinados para o consumo sofrem de uma terrível febre durante as longas viagens. Descrição: Imagem mostra close de um porco completamente abatido jogado no chão. Foto: Internet

Os animais destinados para o consumo sofrem de uma terrível febre durante as longas viagens. Descrição: Imagem mostra close de um porco completamente abatido jogado no chão. Foto: Internet

Ideias abolicionistas

Quem já é vegano ou vegetariano, ou mesmo quem ainda consome carne, mas está interessado em abandonar a dieta carnívora, vai se empolgar e surpreender com o resgate do pensamento de filósofos e cientistas de todos os tempos. Pitágoras, por exemplo, místico, filósofo e matemático grego do século VI a.C. dizia que os humanos e outros animais compartilham do “privilégio da alma” e, por conta disso, a dieta humana deveria ser vegetariana.

Copérnico ousou retirar da Terra o “status” de centro do universo e com ela também o ser humano. Darwin mostrou que entre os homens e os animais a diferença é apenas de grau evolutivo e não um salto absoluto e original. São Francisco de Assis falou da necessidade de inclusão dos animais na esfera da moralidade e do direito.

tigre

Dotados de emoções e sensações como as nossas, os animais percebem o que se passa ao seu redor. Descrição: Foto de tigre deitado no chão com olhar distante parecendo deprimido. Foto: Internet.

Já Voltaire aparece no livro com o seguinte discurso: “Se há órgãos de conhecimento e sensibilidade, o animal conhece e sente, pois, a natureza não é dada a fazer nada inutilmente”. No decorrer do livro Jean-Jacques Rousseau torna-se mais um aliado da causa animal: “Todo animal tem ideias posto que tem sentidos, chega mesmo a combinar suas ideias até certo ponto. Será necessário estudá-los mortos, desossá-los, escavar à vontade suas entranhas palpitantes? Que horrível conjunto é um anfiteatro de anatomia”.

Nos anos de 1800, Jeremy Bentham diz: “ O problema não consiste em saber se os animais podem racionar, tampouco interessa se falam ou não. O verdadeiro problema é este: podem eles sofrer?”. Já o filósofo Tom Regan acrescenta: “O critério que tanto humano quanto animais partilham não é a capacidade de sofrer, mas o fato de que ambos são sujeitos de uma vida”. Para Regan, isso significa estar no mundo de uma forma consciente e interessada com percepção, memória e um sentido de futuro, possuir uma vida emocional com sensações de prazer e dor. Por isso, os animais não são indiferentes aos que lhes acontece.

Percepção, memória, senso de futuro e desejos. Tudo isso faz com os animais mereçam respeito. Descrição: Foto de casal de gorilas com seu bebê. O macho é quem segura o filhote enquanto a mãe lhe dá um beijo no rosto. Foto: Internet

Percepção, memória, senso de futuro e desejos. Tudo isso faz com os animais mereçam respeito. Descrição: Foto de casal de gorilas com seu bebê. O macho é quem segura o filhote enquanto a mãe lhe dá um beijo no rosto. Foto: Internet

“Quando falamos de animais estamos falando de seres que são `sujeitos de uma vida`, conforme assinala Tom Regan e que têm interesses e preferências, nas palavras de Peter Singer. Animais têm interesse de liberdade, de saúde e de vida, de locomoção e de relação. A questão animal precisa sair da periferia a que está relegada. São seres vivos e sensíveis, alguém e não algo, e com grau ou modo de consciência própria que merece a nossa consideração e respeito”, argumentam os autores.

Os inimigos da causa animal

No entanto, em contrapartida, vários filósofos e religiosos discursaram a respeito de todas as espécies animais estarem na Terra para “servirem ao homem”. Tomás de Aquino, por exemplo, divulgou sua postura antropocêntrica dizendo que “não há como pecar contra um animal. Peca-se contra Deus e contra outros homens. O mandamento não matarás não vale para os animais”.

Os frades contestam: “Milhões de anos antes dos homens habitarem a Terra outros animais já estavam aqui. Foram milhões de anos de inutilidade ou de preparação para o aparecimento do ser humano?”. No campo científico, Descartes, que viveu entre 1596 e 1650, conseguiu dar uma grande baixa no respeito aos animais procurando demonstrar, por meio de dolorosos experimentos, que os animais são apenas máquinas agindo automaticamente.

Não há limites para a maldade humana, especialmente a executada em nome da ciência. Descrição: Imagem de gato amarelo, vivo mas imobilizado por diversos aparelhos nele conectados, inclusive, um enfiado em seu cérebro. Foto: Internet

Não há limites para a maldade humana, especialmente a executada em nome da ciência. Descrição: Imagem de gato amarelo, vivo mas imobilizado por diversos aparelhos nele conectados, inclusive, um enfiado em seu cérebro. Foto: Internet

Jesus foi vegetariano?

“A resposta mais plausível é não. Ele comia peixe e celebrou a Páscoa com carne de carneiro. Isso porque ele viveu como um judeu de seu tempo”, diz no livro. Vale lembrar que a Páscoa já era comemorada pelos judeus antes de Jesus e, nessa ocasião, normalmente, comia-se cordeiro. Segundo os frades “não se podia imaginar a indústria da carne e como seria a reação de Jesus diante disso, mas a Bíblia é perpassada pela intuição e pela indicação de que o melhor é ir se afastando do hábito de comer carne, como a obra busca demonstrar por meio de diversas narrativas”.

Nós e os Outros

Os frades são tutores de dois cachorros, Turbo e Mick. “Eles são muito diferentes, na vida mental e sentimental. Cada um com sua vida pessoal irredutível e única. Aprendemos a nos relacionar respeitando as diferenças e interesses. Só quem tem animais domésticos pode de fato perceber o que se diz em tese”, contam.

Um frei já falecido, que morava com Gilmar e Luiz Carlos, costumava chamar os cachorros de “os outros”. Dizia: “escutem os outros latindo” ou “deram comida para os outros”?. “Ele não imaginava que por trás dessa forma de tratamento estava escondido um grande potencial de reflexão ética e teológica. De fato, os animais são os `outros`. E os outros sempre inspiram as melhores reflexões éticas e teológicas, porque a ética e a teologia acontecem, verdadeiramente, lá onde há inclusão do outro”, conta Gilmar.

Com sentimento de superioridade, a civilização humana escraviza toda e qualquer espécie animal. Descrição: Foto foca apenas a pata de um elefante acorrentada. Foto: Internet

Com sentimento de superioridade, a civilização humana escraviza toda e qualquer espécie animal. Descrição: Foto foca apenas a pata de um elefante acorrentada. Foto: Internet

E continua: “No âmbito humano, costumamos dizer que os outros são os diferentes, os não-eu, os de fora do círculo do eu, os mais distantes, os além da margem, os pobres etc. E se diz que um ser humano é tanto mais ético e religioso, quanto mais for capaz de respeitar e se sacrificar pelo outro. Mais além do outro humano está o outro animal não humano. Ser capaz de incluir o outro não humano no círculo da moralidade – eis o desafio ético e religioso que nos parece de alta densidade teórica e prática”.

A maior ignorância humana

“A produção industrial da carne é ineficaz na produção de alimento na medida em que os animais para consumo se alimentam de grãos e outros alimentos que poderíamos comer diretamente”, dizem os autores. De fato, existe uma indústria alimentando outra para que finalmente possamos ser alimentados. Além de toda a cultura de exploração animal, a indústria de carne não é nada inteligente.
“Por que ao invés de criarmos uma superpopulação de gado sob condições infernais não comemos diariamente os grãos destinados a eles – que podem chegar a 70% do grão produzido como no caso do milho e soja? Diminuiria os desmatamentos, desertificação e aquecimento global. E com alimentação mais saudável. Pode-se inventar e espalhar felicidade, que é o que todos querem. Os animais inclusive”, finalizam.

Refletir sobre como o mundo pode se tornar mais ético e justo é o objetivo do livro "A Vida dos Outros". Descrição: Ilustração de chimpanzé e homem, sentados de costas um para o outro, e em posição de reflexão com cotovelo apoiado no joelho e mão sob o queixo. Foto: Internet

Refletir sobre como o mundo pode se tornar mais ético e justo é o objetivo do livro “A Vida dos Outros”. Descrição: Ilustração de chimpanzé e homem, sentados de costas um para o outro, e em posição de reflexão com cotovelo apoiado no joelho e mão sob o queixo. Foto: Internet

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