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Laudato si' para os animais

A Carta Encíclica do Papa Francisco denominada Laudato si’: sobre o cuidado da Casa Comum, com seus seis capítulos e 246 tópicos, foi divulgada oficialmente no dia 18 de junho de 2015, com grande repercussão na imprensa. Todos queriam conhecer a posição e recomendações do Papa Francisco em relação ao cenário preocupante do aquecimento global.

A Encíclica não traz novos dados para além daqueles que já vêm sendo anunciado e denunciado desde a década de 70. Nestas discussões a inserção do tema na esfera ética e moral, também não é algo novo, assim como já está na pauta, a um bom tempo, a ideia que “tudo está conectado”. O que então há de novo? Considero que a grande contribuição e força da encíclica é autoridade moral e ética de Francisco. Sua voz e seus atos são acolhidos entre pessoas de todos os cantos do mundo e de todas as religiões. Ele é, sem dúvida, uma grande liderança mundial. Demonstra com o seu exemplo de vida que é possível inventar outras formas de ser e de se relacionar com as pessoas, com a natureza e, principalmente, com o poder.

Este texto é um recorte de um estudo maior que realizamos sobre a encíclica e a educação e que em breve será publicado. Por ora vamos levantar alguns elementos que o Papa Francisco, a partir desse lugar que oupa, traz e que ajudam na composição de um olhar ético e moral para com os animais.

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Francisco desautoriza aqueles que utilizam a bíblia para justificar o antropocentrismo despótico que se desinteressa das outras criaturas e assume de forma explicita a sua valorização à parte de sua utilidade para os seres humanos. (LS n. 68; 115; 118; 138). Utiliza-se, inclusive a expressão esquizofrenia permanente para designar a exaltação tecnocrática, que não reconhece aos outros seres um valor próprio. Nos chama ao longo do tópico 69 a reconhecer que “os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus e, pelo simples fato de existirem, eles O bendizem e lhe dão glória”. Também que “cada criatura possui a sua bondade e perfeição próprias. As diferentes criaturas, queridas pelo seu próprio ser, refletem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus”. No tópico 84 e 85, Francisco irá dizer que “cada criatura tem uma função e nenhuma é supérflua” e que “nenhuma criatura fica fora desta manifestação de Deus”.

Se levarmos estas afirmações ao pé da letra, temos que considerar que toda a criatura, sem exceção, tem o seu propósito: papagaio, jacaré, avestruz, galinha, cavalo, pato, marreco, elefante, borboleta e porco, etc. Entendemos também que este proposito não é de servir o homem, ser um recurso natural renovável e muito menos ser objeto de consumo.

Francisco, neste sentido, considera simplista a ideia de que as outras criaturas estão totalmente subordinadas ao bem do ser humano, “como se não tivessem um valor em si mesmas e fosse possível dispor delas à nossa vontade”. Sua importância não está em sua utilidade, mas na sua existência singular. Situa a criação à ordem do amor. “Até a vida efêmera do ser mais insignificante é objeto do seu amor e, naqueles poucos segundos de existência” (LS76 e 76).

Interessante a análise de André Wénin, biblista exegeta, teólogo e doutor em Ciências Bíblicas, em sua entrevista à Revista Unisinos (IHU – N.469 – Ano XV de 03/08/2015). Ele faz uma análise interessante quando parte do princípio que o Criador dá aos viventes seu alimento (Genesis 29-30). Aos humanos os cereais e os frutos; aos animais, os vegetais. Segundo ele, “ isso pode parecer anedótico, mas, ao contrário, é essencial”. Na íntegra ele diz: “Porque, se os humanos devem dominar os animais, mas não se alimentarem da carne destes significa que podem dominá-los sem matá-los, sem violentá-los. E, uma vez que os humanos e os animais não têm a mesma alimentação, não deverão lutar entre eles para poderem comer. Tem-se aí a imagem de uma relação “suave” com a criação, uma forma de exercer o domínio sobre o mundo que respeita profundamente o mundo e seus habitantes” (p.75). Nessa direção a historiadora Chiara Frugoni, analisa que Deus havia previsto uma alimentação só vegetariana, tanto para os homens como para os animais (Gen1,29-30). Logo após esta descrição das relações no paraíso, temos a entrada do pecado (Gênesis 3), que seria, segundo Francisco, uma ruptura das três relações vitais: com Deus, com o próximo e com a Terra. “O pecado representa a nossa pretensão de ocupar o lugar de Deus, recusando reconhecer-nos como criaturas limitadas” (LS66). De exclusivamente vegetarianos, tornaram-se carnívoros, obrigados também eles, para sobreviver, a matar, considera Frugoni. Entendemos que não se tornaram, obrigatoriamente, carnívoros. Somos onívoros e temos, portanto, a possibilidade de fazer escolhas.

Temos, portanto, uma longa discussão sobre o lugar das demais criaturas e também dos recursos naturais, que não deixa nenhuma dúvida que nossa relação com os demais entes da criação é predatória e desordenada. Nos tópicos 81 a 89, temos essa relação detalhada. Para Francisco, a visão que “consolida o arbítrio do mais forte” é que favoreceu imensas desigualdades, injustiças e violências para maior parte da humanidade. Ele é enfático ao dizer que devemos “rejeitar todo e qualquer domínio despótico e irresponsável do ser humano sobre as outras criaturas. “O fim último das restantes criaturas não somos nós”.

Caminhamos na contramão desse discurso. É muito interessante para o mercado nomear uma criatura, sujeito de uma vida, como arroba, peça, quilo, commodities, pois assim, deixamos de enxerga-los como “alguém”. Esta fragmentação do saber não é neutra, mas “realiza a sua função no momento de se obter aplicações concretas, mas frequentemente leva a perder o sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas, do horizonte alargado: um sentido, que se torna irrelevante” (LS 110). Tamanha é a nossa cegueira! E também nossa “esquizofrenia permanente”, que se estende da exaltação tecnocrática, que não reconhece aos outros seres um valor próprio (LS 118). Francisco nos alerta dizendo: “é verdade também que a indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos. O coração é um só, e a própria miséria que leva a maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com as outras pessoas. Todo o encarniçamento contra qualquer criatura é contrário à dignidade humana” (LS92). O encarniçamento, significa, dentre outras coisas a crueldade e a insistência em prosseguir, em manter alguma coisa. Não é mais possível dizer que não sabíamos.

Por fim, há que se considerar que não existe “abate humanitário”. Quem lê, estuda e conhece a realidade das grandes indústrias que exploram os animais, sabe que o que menos existe em seus processos é algo humano, amoroso, de compaixão ou de respeito. Ao contrário, perdura a escravidão, crueldade, violação da natureza inscrita em seus corpos, mutilação, inseminação artificial e separação de organizações familiares. Que a voz de Francisco nos ajude!

1 COMENTÁRIO

  1. Só devemos agradecer a Deus a misericórdia de estar permitindo a nós, vivermos nessa época da grande mudança do planeta. Quando imaginaríamos que a maior autoridade católica iria se manifestar a favor da classe mais torturada e esquecida pelo homem.
    Fiquemos em vigília pois a tarefa de construção de um mundo que será finalmente bom e justo depende unicamente da colaboração de todos, sem exceção.
    O momento que estamos vivendo é maravilhosamente glorioso, mas é também extremamente grave, pois será pelo nosso livre arbítrio como humanidade, que iremos escolher entre a porta larga, ou a estreita. Deus não impõe nada, cabe a nós decidirmos. Enquanto uma gota de sangue (humano e não humano) for derramada pelo homem, o mundo não terá paz.

  2. A igreja católica tem 1600 anos de imensas atrocidades e, qdo se vê forçada a mudar, muda para não mudar. O tal Francisco ajudou ativamente a ditadura militar argentina (máquina de assassinar gente). Hoje, o banco do vaticano é o maior acionista da maior indústria de armas do planeta (Pietro Beretta Ltda). Sem contar os casos inúmeros de pedofilia. Etc., etc.,etc. Então, como ainda acreditar nessa gente fantasiada de santo? E se há alguma mudança pq não orientar o catolicismo todo ao vegetarianismo? São apenas palavras, que podem ser distorcidas como bem queiram… a única coisa que podemos desejar da igreja católica é seu fim, para o bem do planeta!

    • Me lembro de Dumas, em o Conde de Monte Cristo, alertar para que não praticarmos o crime pelo qual cumprimos sentença. Noutras palavras: não nos tornar réus do próprio juízo.
      Atacar o Papa e a Igreja (mesmo com seus inegáveis erros), chamando-os de atrozes e violentos, usando de atrocidade e violência é o caminho menos sensato a meu ver.
      Negar os avanços (mesmo que ainda tímidos) da Igreja, por meio das exortações do atual pontífice é caminhar contra a oportunidade de mudança e postular o fim de uma instituição que lida com algo tão caro às pessoas, que é a fé, é no mínimo, desrespeito antropológico… é miopia histórica…. é não reconhecer processos em suas asas e compressões.
      Acho que a exortação “Laudato-si” caminha ao encontro de possibilidades de novas reflexões e formação de consciências complexas.

      • Maicon, que as pessoas tenham fé como algo caro a elas não discuto, mas, para isso precisam de instituições facínoras? Miopia histórica minha ou vc quem tá tentando tampar o sol com a peneira? Desrespeito antropológico? Diga isso aos índios e africanos, todos vítimas da igreja… sem contar os animais não humanos que a igreja, com sua ideologia, ajudou a matar e mal tratar. E outra coisa: você achou minhas palavras atrozes e violentas, mas não achou toda a história da igreja, incluindo os dias de hoje, atroz e violenta? Não é um pouquinho desigual, não? Nunca assassinei um padre sequer. Isso só tem um nome: hipocrisia.

    • Eis uma questão relativamente controversa. Digo relativamente, pois pouco se sabia da participação ou não do bispo Bergoglio em atos da ditadura argentina. Com sua eleição a papa, contudo, fatos documentados vieram ao conhecimento público. Essa história da relação dele com a ditadura apareceu em alguns jornais no mesmo dia de sua eleição. Acusavam-no de ter delatado 2 padres com atuação política na Argentina e que, por isso, foram presos e torturados. Acontece que um jornalista italiano, com acesso a documentos historiográficos da Argentina, meses depois fez um amplo levantamento e demonstrou exatamente o contrário: o bispo Bergoglio não somente NÃO delatou ninguém, como ajudou muitos presos políticos a serem libertados ou a fugirem do país sãos e salvos. Vale a pena ler: “A lista de Bergoglio”. 9

      • Jean Carlos, livro publicado pela Paulinas? Ok, digamos que homem não tenha ajudado a ditadura, que seja só mentira dos opositores… e todo o resto aqui citado? P q insistir nessa figura que é il capo dessa instituição tenebrosa? Leio as pessoas aqui tentando salvar algo que faz muito deveria ter deixado de existir… Ignorando solenemente tudo isso… Não consigo entender…

    • Só um pensamento: seja você a mudança que quer ver no mundo, independente de religião, inclusive o fato do veganismo não ser religião, temos nossa escolha pessoal e não coloquemos culpa na sociedade, na história, nos outros , na igreja, faça a sua parte .
      Vivemos uma profunda mundança da sociedade que começa a discutir mais abertamente nossas relações com o meio ambiente. O papa como autoridade abre um espaço para reflexão, devemos aproveitar nossa inteligência para o bem.

  3. Por Aleluia Heringer. Belíssima, necessária. pungente e urgente reflexão. Que não se cale nossa voz diante da injustiça e da violência cotidiana naturalizada pela nossa indiferença e desprezo pela vida. Em tempos de humanidades naufragantes, temos tanto a prender com nossos companheiros de jornada neste planeta. Que não se cale nossa voz, mas que se cale de vez o suplicante lamento dos inocentes em nossas mãos.

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