Direitos animais - bruno müller

Debates interseccionais e Veganismo – Parte III – Não há caminho para o Veganismo: O Veganismo é o caminho

Traçando novos limites

Certa vez escrevi um texto intitulado “Traçando o Limite”, dizendo que bem-estaristas não pertenciam ao movimento de direitos animais. Causou certo alarde. Muito tempo passou, e graças ao esforço de muitos, a infiltração bem-estarista está muito mais fraca no que hoje eu prefiro chamar de movimento abolicionista, movimento vegano ou simplesmente veganismo.

Agora chegou o tempo de traçar o limite com os interseccionais. Não me entendam mal. Naquela época, como hoje, uma afirmação tão ousada, e um texto tão contundente, poderá causar mal-estar e até a ira em muitos. Eu tenho uma trajetória de estudos de movimentos sociais e defesa de direitos humanos. Eu posso falar sem imodéstia que fui o primeiro a escrever sobre liberdade animal e política dentro do veganismo brasileiro, a chamar a atenção para que combater uma forma de opressão supõe rejeitar todas as outras. E continuo tão firme quanto antes na defesa da dignidade inerente de TODAS as pessoas (humanas e não humanas) – ao contrário de muitos “novos movimentos sociais” que são seletivos nas suas solidariedades e relativistas em tantas outras – um prisioneiro, um torturado ou uma criança violada podem ter mais valor que outros na mesma situação, se o Estado ou a ideologia que desrespeitam a dignidade dessas pessoas for opressora ou “libertária”, inimiga ou amiga¹. Meu compromisso político não mudou uma linha desde a juventude, nem deixou jamais de se guiar por uma consciência universalista – não acredito em bons tiranos nem em relativismos. Então, não admito aulas de libertarismo em face do que vem a seguir.

Pessoas de outros movimentos, a princípio, são bem-vindas. Elas têm uma grande contribuição para dar ao veganismo, se quiserem dialogar e não ditar. Se vierem desarmadas e despidas de preconceitos. Se entenderem ou quiserem entender a filosofia do nosso movimento. Se aceitarem nossas premissas – não por autoritarismo, mas por coerência. Pois adentrar o veganismo relativizando o abolicionismo é como adentrar o movimento de direitos humanos relativizando a tortura ou a pena de morte. Infelizmente não é isso que vejo acontecer. Os interseccionais chegam, com um senso de superioridade moral, de detenção da verdade absoluta, querendo ditar regras, impor visões que são apenas aparentemente radicais – no mais das vezes são senso comum politicamente correto. São juízes e preconceituosos. Xingam os oponentes de machistas, racistas, elitistas, fascistas. E pior: são especistas. Dizem-se abolicionistas, mas absolvem todos os oprimidos da responsabilidade pela escravidão animais. Eles sim estão muito mais próximos do fascismo do que pensam, e são decididamente elitistas na defesa de seus privilégios.

Traçando o limite: já é duro combater os especistas fora do movimento. Agora ainda temos de fazê-lo de dentro, com os ditos interseccionais, que são especistas infiltrados, pseudoveganos, pseudoabolicionistas, pseudolibertários. Pessoas que não pertencem ao movimento abolicionista – pois negam seus princípios básicos.

Conclusão

Eu nunca me furto ao combate. Aceito o desafio. E a despeito de qualquer patrulha, sigo dizendo:

Os animais são escravos, para eles é uma “Eterna Treblinka”; eles são a base da hierarquia criada pelos humanos para se diferenciarem entre si e dos demais animais; as vacas são sim, estupradas, sistematicamente, ao longo de suas curtas e infelizes existências, que acabam com um corte na garganta. E os bezerros e pintos machos prestam testemunho: a “política sexual da carne” diferencia os sexos, mas há formas de violência que, ainda que diferentes, são igualmente abjetas.

Eu me solidarizo com todas as pessoas que sofrem, com todas que sofrem abuso, violência, preconceito, exploração. E aquelas que mais sofrem abuso, violência, preconceito e exploração, são as PESSOAS NÃO HUMANAS.

Eu não defendo um veganismo palatável aos especistas. Eu defendo um veganismo que diga a verdade, por mais dura que seja. A mentira e a covardia não são boas estratégias. Mas o que vejo, na maioria dos “veganos” interseccionais, é ainda pior: é capitulação. Eles abdicam da defesa irrestrita das pessoas não humanas – se é que um dia se orientaram por esse princípio – para compactuar com o especismo de outras causas “progressistas” – como se fosse possível um especismo libertário.

Não nos cabe fazer concessões. Não nos cabe ser submissos. Cabe-nos lembrar aos movimentos de direitos humanos as palavras de Simone de Beauvoir, filósofa feminista e existencialista: que a liberdade de um só se realiza com a liberdade de todos; que ser omisso é ser conivente; que não há meio termo: ou se combate a opressão ou se é um opressor. Com um correção: no nosso caso, veganos abolicionistas, trata-se da liberdade de TODAS as pessoas, não apenas as pessoas humanas.

Dialogar, sim. Solidarizar-se, sempre. Colocar as pessoas de outras espécies em segundo plano – JAMAIS!

O veganismo não é uma dentre muitas causas. Ele é o primeiro passo para quem se quer libertário. O primeiro passo para realizar a liberdade para todas as pessoas do planeta².

Resumo

Parte I – Tese central: O Especismo está à porta do movimento vegano abolicionista, na medida em que pessoas e grupos que se dizem veganos adotam, nos fóruns, posturas especistas, que privilegiam os interesses de certos humanos de explorar animais, geralmente usando como justificativa a condição oprimida dos mesmos.

Parte II – Teses Centrais:

1. Interseccionais acusam os veganos de elitistas. Reconheço que o movimento pode adquirir essa característica, mas o rejeito por ora, constatando sua diversidade e abertura. E, por meio de argumentos, tentei demonstrar como os interseccionais são os verdadeiros elitistas, ao defender privilégios de humanos, ao propagar a hierarquia através do especismo e ao se considerar no direito de ditar o que o movimento deve ser.

2. Interseccionais também acusam os veganos que discordam deles – ou parte – de fascistas. Fiz uma exposição detalhada do que significa este conceito, apoiado num dos poucos acadêmicos que discorda do senso comum de que foi histeria coletiva e obscurantismo anti-iluministas que teve o poder de provocar uma guerra mundial, um genocídio e milhões de mortes. Eu não acusei os interseccionais de fascismo, pois incorreria na mesma falácia que eles se o fizesse, mas digo sem medo de errar que certos traços ideológicos (holismo, culto à identidade e naturalização das mesmas, a eterna busca por um “outro” inimigo) e táticos (mentiras, difamação, intimidação, manipulação) dos interseccionais são semelhantes ao fascismo, e que antes de apontarem o dedo acusador talvez devessem fazer um exame de consciência e também de suas ideologias.

Parte III – Tese Central: Os interseccionais como aqui apresentados não pertencem ao movimento, como eu disse na parte II, não por fascismo, elitismo ou autoritarismo, mas porque suas ideias e táticas são tão estranhas ao movimento quando as ideias e práticas de um pecuarista ou vivissector. Isso não quer dizer que eles não sejam bem vindos para o debate e para integrar o o próprio movimento: conquanto que mudem sua atitude e aceitem nossas premissas básicas, abolicionistas, individualistas e universalistas, sempre dando prioridade às pessoas animais, sem negar, porém, a solidariedade com as pessoas humanas – TODAS! – que também são vítimas de opressão e violência.

Notas
¹ Vou dar dois exemplos simples para clarificar: os prisioneiros políticos e a perseguição de dissidentes, a morte de um deles por greve de fome, em Cuba, nos idos de 2011, em nada incomodou os movimentos sociais. Mas bastou cinco cubanos serem presos por espionagem nos EUA, na mesma época, para que ocorresse uma comoção geral. Tal caso eu testemunhei in loco, no meio das minhas pesquisas de doutorado, através de mailing lists e buscas nos sites dos movimentos. Mas se você acha que Cuba é o “paraíso socialista”, lide com isso: Daniel Ortega, presidente da Nicarágua e pedófilo comprovado (diferente de Woody Allen, contra quem tudo que se tem são alegações inverossímeis ou impossíveis de provar) foi recebido em festa no Fórum Social Mundial, quando este decidiu de vez abandonar sua hipócrita (pois nunca houve de fato) proibição da participação de chefes de Estado. Apenas algumas feministas protestaram.

² E para quem achou as frases de abertura e encerramento “fascistas” ou “autoritárias”, saiba que a primeira é uma paráfrase de Mohandas Gandhi, e a segundo é inspirada no ensaio de Leon Tolstoy, O Primeiro Degrau – de 1891! – em que, diz o autor, o vegetarianismo é o primeiro degrau para a evolução moral da humanidade.

PS: Conforme esperado, essa série de textos deu muita repercussão negativa. O que me entristece é que as pessoas que o criticaram não tiveram coragem de aparecer publicamente. Mas eu tenho meus informantes… risos. Enfim, tal atitude inviabiliza o debate construtivo de ideias e o crescimento intelectual de todos. Não sei se terei tempo ou paciência para refutar, uma a uma, as objeções que me levantaram, algumas bem abaixo da crítica. E muitas outras, como que eu digo que todos os interseccionais não são abolicionistas e são fascistas, já estão refutadas para o leitor atento. De qualquer forma, agradeço a todos que se deram o trabalho de ler este longo ensaio, e espero que seu efeito seja profícuo, a longo prazo, para a causa da liberdade animal. Obrigado.

1 COMENTÁRIO

  1. Nossa, Bruno, quanto mede seu ego? Não tem nenhuma válvula para regular quando começa a crescer demais? Acompanhei seus três textos e os debates e, até aqui, tinha ficado quietinha…
    Mas: “Eu posso falar sem imodéstia que fui o primeiro a escrever sobre liberdade animal e política dentro do veganismo brasileiro, a chamar a atenção para que combater uma forma de opressão supõe rejeitar todas as outras”. Cara, você acha mesmo que foi o primeiro a escrever sobre o tema no Brasil? Diz seu texto de apresentação que você surge na cena vegana em 2007… para alguns, nesse movimento, você é um bebê e, além do mais, você leu tudo o que se publicou para dizer algo assim? Se contar que esse país é imenso…
    E quase todos os seus argumentos são apenas argumentos de autoridade, ou seja, você cita alguém que você e outras pessoas acham importante e supõe ser isso algo grandioso… sua nota 2 e seu PS são lamentáveis. Se não está a fim de debate por qual motivo se expor publicamente? E, se debate, que tal ser mais leal e tranquilo em suas respostas?
    Caras como você, no veganismo, às vezes, atrapalham mais que ajudam, com sua arrogância.

    • Alessandra, vc não entendeu meu ponto. Dizer que fui pioneiro em discussões políticas (vá nos sites mais antigos, tipo Pensa tá, e mesmo nos primeiros artigos da Anda) é algo que está dito apenas para evitar que pessoas maliciosas tentem fugir do debate manchando a minha reputação. E falar que sou ativista desde 2007 é só um ponto de referência, não me faz melhor nem pior do que quem chegou antes ou depois. Agora, vc vai dizer que é o meu ego, mas pq em vez de pinça duas afirmações acessórias, vc não comenta as ideias centrais do texto? Não vi ninguém até agora fazer isso, e é isso que me deixa desiludido com o dito movimento vegano: a indisposição e despreparo para o debate. Desculpe-me se soo arrogante. O problema, na verdade, é que eu sou sincero. Por favor não tome como pessoal, falo do movimento como um todo. Abraço.

      • Bruno, o que parece é que você não pode ser contrariado e que perguntas só são aceitas, se forem as que você deseja. Você está sempre se protegendo e seu jogo é acusar o/a outro/a, acabam por ser acusações de falta do/a outro/a, não se atém às ideias . Eu falei que li todos os seus 3 textos e você me diz que pincei apenas duas informações acessórias? Veja, a parte III foi escrita quase toda em autodefesa… Além do que, para quem prega nenhuma violência, você foi bastante agressivo (simbolicamente violento) com as pessoas que não aplaudiram você. Olha, estou cansada de ver o surgimento de estrelas no meio vegano – e em outros – , repito, essas pessoas não ajudam e se isolam em suas torres de marfim. O veganismo não pode nem deve se tornar um exercício acadêmico. As pessoas têm o direito de opinar, rechaçar, debater, mesmo quando não têm a escolarização que você tem. As pessoas podem e devem pensar sem os filósofos e cientistas que você parece admirar tanto. Caso contrário, citando essa gente como verdade, em que você é diferente dos papa-bíblias que acham sempre que estão ao lado da Verdade e que todos/as os/as outros/as queimarão no inferno? abraço
        PS: por favor, não se defenda me acusando

        • Muitos.veganos interseccionais dizem que se alguém é pobre ela pode consumir produtos de origem animal sem ser criticada por isso. Essa é a ideia central do texto. Pena que as pessoas não comentam sobre isso e apenas acusam o autor de elitista.

          • Marcel, primeiro, o autor apenas recebeu de volta toda sua arrogância, sem mais.
            O veganismo ainda é um fenômeno urbano e, principalmente, de classe média e alta. Toda a sensibilidade ou não dos pobres, frequentemente, está no seu bolso. Imagine a cena comum nas grandes cidades: um cachorro quente + suco artificial, R$1,50, me diz onde você acha um cachorro quente vegano por esse preço? Mais coisas: um instituto internacional divulgou pesquisa dos últimos 20 anos no Brasil: nesse período, os alimentos saudáveis, como frutas e verduras, subiram mais de 90% em seus preços e, nesse mesmo período, produtos industrializados de baixíssimo conteúdo nutricional, como bolachas recheadas, caíram 20%. Então, para mim, a questão não é pode ou não pode, a questão, não poucas vezes, é dá ou não dá. O problema do veganismo e a questão animal que implica é que não são um fato isolado de toda a complexidade social e suas injustiças… Sabemos que todas as opressões estão engatilhadas pelo mesmo modelo de existência… infelizmente. Talvez, seja de olho nisso que quem vocês chamam de interseccionais façam vistas grossas…

  2. Cachorro quente com suco por 1.5? Gente , nunca vi mentir tanto para isentar pobre de ser vegano.
    A maioria dos pobres fazem mais churrasco que um classe media. So dao essas desculpas quem ao conhece pobre, quem tokeniza pobre para pagar de defensor ,raça hipócrita.
    Alfredo que mentira deslavada.

    • Mel, obrigado pela sua violência, por me chamar de hipócrita e mentiroso. Você parece conhecer bem os pobres, então, a pobreza que eu conheci e conheço deve ser miséria… Seu comportamento está em profunda ressonância com o veganismo (ironia).

  3. O Alfredo aqui argumenta que alimentos veganos são inacessíveis aos pobres, e que o veganismo é movimento originado no seio da elite branca classe média e urbana. Supondo que ambas as afirmações sejam verdadeiras: a solução é descaracterizar e destruir o próprio veganismo, que é o que na verdade querem os “veganos” interseccionais? Isso não seria o equivalente a varrer o lixo para debaixo do tapete? Ele diz que “O problema do veganismo e a questão animal que implica é que não são um fato isolado de toda a complexidade social e suas injustiças… Sabemos que todas as opressões estão engatilhadas pelo mesmo modelo de existência…”, no que está coberto de razão. Tanto o veganismo não é um fato isolado, que sua eclosão repercute evidenciando essas próprias injustiças sociais. E tanto todas as opressões estão engatilhadas pelo mesmo modelo de existência, que o veganismo propõe alargar as considerações morais indistintamente a todos os oprimidos, propõe abolir a própria licença de coisificação de seres sencientes que é a base do capitalismo. Isso é indesejável? Melhor seria amaciar o veganismo até que ele se torne uma mera abstração, e assim não acirre mais nenhum desconforto social? Só queria entender…

    • Llege, vc exagerou um pouco, não? Apenas quis dizer que a miséria/pobreza são sim, em grande parte, um empecilho para uma adesão ao veganismo. O veganismo, ao menos no Brasil, está passando por uma gourmetização, sendo cooptado pelas formas lucrativas do capital, tornando-se quase estritamente uma dieta. Dizer isso não é querer tornar o veganismo uma abstração, mas mudar essa sua orientação do momento. Essa é a complexidade: não dá para lutar apenas por um mundo vegano, é preciso lutar por uma sociedade sem classes, não-sexista, não-racista, etc, etc. Me parece que é isso que muitos veganos não entendem. Ah, segundo o autor do texto, eu nem sequer sou vegano, já que sou um interseccionista, nas palavras dele… e, por considerar outras questões tb, um especista. Apenas ele em toda sua sapiência é que é um vegano havaianas, isto é, legítimo.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui