Evely Libanori

Literatura em defesa dos direitos animais

Evely Libanori é professora do departamento de Teorias Linguísticas e Literária da Universidade Estadual de Maringá (UEM), e nessa entrevista a ANDA explica as relações da literatura com a defesa...

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28/10/2015 às 15:00
Por Redação

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Foto: Arquivo pessoal.Evely V. Libanori – é professora do departamento de Teorias Linguísticas e Literária da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Mestre e doutora em Teoria da literatura e Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista (Assis-SP). Na graduação, leciona a disciplina “Literatura brasileira: narrativa” e, na pós-graduação, a disciplina “Identidade existencial no romance latino-americano”. Lidera o grupo de atividades interdisciplinares sobre os animais (GAIA), grupo de pesquisa cadastrado no CNPq. É autora da obra de crônicas animalistas, “Nós, Animais”, publicado em 2015.

ANDA: Como foi seu contato com a teoria dos direitos animais e com o veganismo?

Evely: Meu primeiro contato com a ideia dos direitos animais e com o veganismo aconteceu na infância, quando fiz o catecismo e estudei a biografia de São Francisco de Assis. O que era exceção em São Francisco, eu, criança, entendia que deveria ser a regra de comportamento de todo mundo para com os animais. Claro que à época, a ideia de direitos animais e de veganos não existia, nem essas palavras existiam. Mas foi Francisco, o monge cristão, a autoridade em quem me amparei para legitimar a importância que os animais tinham para mim. Adulta, vegana, professora universitária de Ciências Humanas, a pesquisa sobre os símbolos animais na Literatura me levou a encontrar, num primeiro momento, o trabalho de Peter Singer e, depois, dos abolicionistas ligados a ele ou posteriores a ele. O contato com a teoria dos direitos anos veio quando li as ideias de Tom Regan e de Gary Francione.

ANDA: Como surgiu a ideia de trabalhar identidade animal e ética animal através da literatura?

Evely: No ensino médio, fiz um curso profissionalizante em saúde animal, queria cursar veterinária, mas desisti quando entendi que o curso explorava os animais e como era cruel o método de matar, que eu vi pessoalmente no frigorífico. Não quis fazer parte do processo e fui para o campo da Literatura. No doutorado, comecei a estudar identidade animal porque já havia, no campo da antropologia e da filosofia, um conjunto de estudos aproximando os animais e os seres humanos no que diz respeito às emoções, às sensações, ao tratamento ético. Foi por essa via que encontrei os estudiosos da ética animal e me envolvi mais diretamente na causa.

ANDA: O seu trabalho tem um direcionamento maior à produção literária de Clarice Lispector. O que ela tem a nos ensinar sobre os animais ou mesmo sobre nós como animais?

Evely: Clarice é dos meus mais queridos temas de estudo.Na produção da autora os animais estão em primeiro plano na cena. Os animais são vistos como seres sensíveis, emotivos, que, como nós, têm um destino a seguir. Entre as personagens e os animais acontece a comunicação por meio do olhar. Também são frequentes os conflitos éticos das personagens em relação ao hábito de comer carne. À década de 60 e 70, quando Clarice escrevia, não havia a sistematização das ideias ligadas à ética animal. Nem Clarice nem as suas personagens foram veganas. O que existe é o forte incômodo moral com os hábitos especistas. A Literatura de Clarice nos ensina, por exemplo, que os animais são seres inteligentes e sensíveis, como em O mistério do coelho pensante, livro para crianças (e adultos). Também ensina que o abandono de um cachorro é, moralmente, um crime, num momento em que, na Lei, tal prática ainda não era punida como crime. Nas obras dela, o pássaro simboliza a leveza existencial, o cavalo, a passagem para o mundo da transcendência. O animal é admirado porque ele é a plenitude existencial, uma vez que não sabe que se nasce para morrer, não se inquieta com questões metafísicas e nem com o tempo futuro. O animal é o ser com quem temos que aprender. É isso que a obra da autora tem para ensinar para quem tem olhos e coração para aprender.

ANDA: Como a sra. avalia romances declaradamente defensores dos animais como “A vida dos animais” de J. M. Coetzee, e “Humana Festa” de Regina Rheda?

Evely: Esses dois romances trabalham com o tema dos direitos animais, da ética animal. As personagens são defensoras do modo de vida vegano. Esses romances indicam que começou, na Literatura, uma produção cujo tema central é a defesa dos animais. Eu avalio como sendo romances necessários e muito bem-vindos nesse momento. Mostram que a Literatura tem, a exemplo de outras áreas, uma produção voltada para a disseminação dos ideais veganos e abolicionistas.

ANDA: A literatura também é uma forma de ativismo?

Evely: Sim, pois uma das funções sociais da literatura é a de humanizar, ou seja, a de confirmar os traços essenciais que compõem a identidade humana e que, segundo Antonio Candido, sociólogo e crítico literário, são o exercício da reflexão, o afinamento das emoções, a boa disposição para com o próximo. O animal não humano tem sido o próximo ignorado pelo ser humano e a literatura apresenta personagens e pensamentos que contestam a tradição cultural de exploração dos animais. Está surgindo um tipo de literatura que, à falta de denominação, chamo de abolicionista, porque se assemelha à literatura abolicionista do século XIX, época em que os escritores românticos fizeram do texto a defesa do direito à liberdade dos negros escravos. Então, a literatura que promove o direito à vida e à liberdade dos animais mostra, diretamente, o papel social e humanizador da literatura.

ANDA: Em 2014, publicou o livro de crônicas “Nós, Animais”. Como foi seu processo de escrita? Quais as fontes de inspiração?

Evely: Nós, animais são histórias entre animais humanos e não humanos. Muitas são experiências pessoais. Eu tinha um blog e ia escrevendo lá, apenas para dividir com os leitores.Com o passar do tempo, eu encontrei minha turma, os veganos abolicionistas e então me incentivaram a publicar o material. E esse foi o processo de escrita. As fontes de inspiração são os autores que eu leio mais: Clarice Lispector, Machado de Assis, Juan Rulfo, Cecília Meireles.

ANDA: Podemos esperar mais um volume de crônicas?

Evely: Sim, estou com ideias de lançar outro volume logo. Não sei precisar quando, mas logo.

ANDA: A sra. é líder do GAIA. O que é e qual a atuação do grupo?

Evely: O Grupo Gaia é um grupo de pesquisa acadêmico que está sob minha liderança. Gaia reúne professores e alunos que têm interesse em defesa animal, de diferentes cursos de graduação e pós-graduação. A atuação do grupo tem se dado de forma acadêmica e não acadêmica. De forma acadêmica, o grupo Gaia promoveu direta ou indiretamente, eventos e palestras cujo tema é a defesa animal. Alunos da graduação e da pós-graduação pesquisam direitos animais, ética animal, relação ser humano/animal ao longo do tempo, simbologia animal. Alunas do grupo levaram as ideias abolicionistas para no ensino fundamental quando fizeram estágio de regência em Literatura. Ano passado, o grupo promoveu o curso Ética animal e Literatura, que foi ministrado pela filósofa Sônia T. Felipe e por mim. Gaia ainda esteve envolvida na organização de I Seminário sobre representação animal na Literatura, em parceria com a professora Elda Firmo Braga, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Fora da Universidade, o grupo atua em ações de socorro a animais de rua, encontros para conversar sobre alimentação vegana, organização de feiras com vistas a angariar dinheiro para cuidar de animais de abrigos.

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