Reconhecendo o “se” da sustentabilidade


Por Lisa Kemmerer (Tradução: Elis Tanajura – da Redação)

“Todas as opressões criam um estado de guerra.” – Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo

“Sustentabilidade” faz referência a “qualidade de se sustentar ao longo do tempo.” No movimento ambientalista, declarações de “sustentabilidade” implicam sempre em um não declarado “se”. Neste contexto, uma ação em particular é considerada insustentável, se nós valorizarmos e desejarmos proteger e preservar certo aspecto do ambiente natural. Certas ações/opções de consumo são consideradas sustentáveis, ​​se não causam problemas ambientais preocupantes.

Ambientalistas que percebem que o nosso hábito de comer carne é insustentável estão, em fato, dizendo que o nosso hábito de se alimentar de carne não pode ser sustentado se quisermos preservar as florestas tropicais e as águas, se quisermos deter o crescimento de zonas mortas e todo o peso da mudança climática. Nestes casos, é facilmente perceptível que “sustentabilidade” repousa sobre um compromisso moral comum compartilhado para proteger o meio ambiente do qual dependemos. Neste contexto, se tivéssemos de fazer uma declaração detalhada e plena no que diz respeito à sustentabilidade, poderíamos dizer:

  • Comer atum-rabilho é insustentável, se temos a intenção de proteger as espécies ameaçadas de extinção.
  • Comer queijo é insustentável, se esperamos deter a propagação de zonas mortas.
  • Comer camarão é insustentável se nós valorizamos os ecossistemas oceânicos.

Em cada um dos casos acima o “se” é raramente mencionado. O que estamos propensos a ouvir ou ler apareceria dessa forma:

  • O atum rabilho é insustentável.
  • O queijo é insustentável.
  • Camarão é insustentável.

Quando terminamos a frase, afirmando claramente o não dito, mas essencial o “se” e a ação “comer”, nos damos conta de que as declarações de sustentabilidade ambiental se baseiam em um compromisso moral de agir de tal forma que diminua, em vez de aumentar, a degradação ambiental. Em suma, passamos a ver que as declarações de sustentabilidade baseiam-se nos valores morais comumente defendidos. Nós também percebemos que a nossa responsabilidade como consumidores é frequentemente omitida – que o ato de comer é o problema central. Em vez disso, o produto em si é rotulado como “insustentável”.

O mais interessante sobre o “se” que desaparece no contexto ambiental é que a reinserção desta conjunção nos permite ver que a sustentabilidade é a chave não apenas da justiça ambiental, mas também, de forma mais ampla, da justiça social. Sustentabilidade pode proveitosamente ser empregada em qualquer contexto de justiça social. Considere estas diversas aplicações do termo:

  • É insustentável que a polícia racista brutalize civis negros, se esperamos deter a propagação do ódio e da violência.
  • Forçar uma mulher a transportar um feto é insustentável, se valorizamos a auto-determinação e a auto-realização.
  • Permitir que apenas os heterossexuais desfrutem dos benefícios financeiros e sociais do casamento legal é insustentável de nós temos a intenção de proteger os direitos humanos.
  • Se estamos comprometidos com uma ética em que valoriza a justiça e protege os vulneráveis ​​da exploração dos poderosos, comer galinhas é insustentável.
  • Sustentabilidade não é apenas sobre ciclismo e reciclagem, é também sobre a redistribuição da riqueza, a produção de energia para os marginalizados e a proteção de todos os que são vulneráveis ​​das misérias da exploração e da opressão. Comportamentos insustentáveis – racistas, sexistas, homofóbicos, especistas, capacitistas, de discriminação por idade e de consumo – devem ser evitados, não apenas se nós valorizamos a água potável e as florestas, mas também se valorizamos a justiça e a paz.

    No final do dia, estas condutas insustentáveis estão interligadas. Por exemplo, a pesca industrial é insustentável, não só porque prejudica os ecossistemas do oceano, mas também porque prejudica comunidades indígenas dependentes dos ecossistemas esgotados para a sobrevivência e a subsistência. A pesca industrial é insustentável, se quisermos proteger os oprimidos, incluindo os ecossistemas oceânicos, os povos indígenas e os próprios peixes, de interesses corporativos poderosos e consumidores indiferentes/desinformados.

    Da mesma forma, a pecuária industrial é insustentável se valorizamos as florestas, as reservas de água doce e o clima atual da Terra, e também se valorizamos os direitos dos trabalhadores, a proteção dos animais indefesos e a saúde dos consumidores desavisados ​​que sofrem de ataques cardíacos, derrames, diabetes e obesidade por causa dos produtos de origem animal que consomem. Estas práticas são insustentáveis ​​se, mas não só se, pretendemos proteger o meio ambiente de uma terrível degradação ambiental. Essas também são insustentáveis, se temos a intenção de trazer a justiça e a paz, se nós queremos proteger os vulneráveis, os que são marginalizados e oprimidos, incluindo as minorias, as mulheres, os pobres e os animais não-humanos.


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