EnglishEspañolPortuguês

Conheça a história de Sudan: o último rinoceronte-branco do norte

15 de junho de 2015
5 min. de leitura
A-
A+

Foto: Revista Galileu
Foto: Revista Galileu

Aos 42 anos, Sudan não consegue dar uma volta no parque sem ter em sua cola a companhia de três guarda-costas armados com escopetas e rifles semiautomáticos. Equipados também com GPS, óculos de visão noturna e roupas camufladas, os seguranças não lhe dão sossego: ficam ao seu lado 24 horas por dia, sete dias por semana. Engana-se quem pensa que Sudan é um bilionário com medo de sequestro ou uma pessoa que vive num programa de proteção a testemunhas. Trata-se do último macho conhecido do rinoceronte-branco do norte.
Ele vive no Ol Pejeta Conservancy, área de proteção no Quênia, em companhia de duas fêmeas da mesma espécie, também protegidas por homens armados (além delas, só há mais duas fêmeas vivas, e ambas estão em zoológicos). Os seguranças têm como missão garantir que Sudan não seja morto por caçadores em busca de seu chifre, vendido em países como o Vietnã por até US$ 100 mil o quilo — mais valioso que ouro, por ter fama de curar doenças como o câncer. Caso os seguranças fracassem, o rinoceronte-branco do norte vai entrar para a infame lista de animais extintos.
A tentativa desesperada de salvar a vida de Sudan é apenas o mais recente capítulo do drama dos rinocerontes na África. No ano passado, o governo sul-africano informou que 1.215 animais (incluindo os rinocerontes-negros) foram mortos no Kruger, o maior parque nacional do continente, que encobre uma área de 20 mil quilômetros quadrados — quase o tamanho do País de Gales. É um aumento de 9.000% em apenas sete anos.
A situação é ainda mais dramática quando comparada ao passado. No início do século 20 existiam 500 mil rinocerontes na África e na Ásia. Na década de 1970 esse número caiu para pouco mais de um décimo disso e chegou a 29 mil rinocerontes este ano. No Vietnã, eles foram considerados extintos em 2010. “Dependendo da relação caça e nascimento, o número de mortes deve ultrapassar o de filhotes em algum momento entre 2015 e 2021, o que vai fazer a população diminuir”, disse Katherine Ellis, gerente do departamento de comunicações da ONG Save The Rhino, que tenta proteger a espécie. “Os rinocerontes podem ser extintos da natureza até 2026.”
Foto: Revista Galileu
Foto: Revista Galileu

O rinoceronte é considerado um dos cinco grandes animais da África, ao lado do leão, do elefante, do búfalo e do leopardo. Além das espécies rinoceronte-branco e rinoceronte-negro, existem também os rinocerontes-das-índias, rinocerontes-de-sumatra e rinocerontes-de-java. Eles vivem em média 40 anos, em pradarias ou savanas, e chegam a pesar 1,5 tonelada.
Uma de suas características mais marcantes é o que os transforma em presa fácil dos caçadores. Para demarcar território, os rinocerontes pisam nas próprias fezes — uma pessoa treinada consegue segui-los facilmente por causa do rastro que deixam.
Os caçadores, normalmente jovens pobres sem muita perspectiva de vida, atuam à noite, de preferência sem arma de fogo, para não chamar a atenção das autoridades. Usam tranquilizantes para deixar os animais apagados e machados e serrotes para arrancar o chifre, que pode pesar até quatro quilos. Os rinocerontes não morrem na hora, mas há relatos (e até um vídeo que circula na internet) de turistas que cruzaram em parques nacionais com um rinoceronte com o rosto totalmente desfigurado. Se não morrem mesmo depois de perder muito sangue ou de inanição, os animais são mortos pelos rangers, porque ao tirar o chifre os caçadores cortam nervos ligados à mandíbula e os rinocerontes não conseguem mais se alimentar. Quando finalmente sucumbem, sua carcaça vira alimento para urubus.
A atual onda de matança dos rinocerontes teve origem em 2010, quando um político vietnamita disse que havia se curado de um câncer com o pó do chifre desse animal. De lá para cá, o preço do produto no mercado negro disparou. Mas o uso do pó de chifre de rinoceronte para tratar doenças não é recente. Há pelo menos 2 mil anos a medicina tradicional asiática diz que ele é capaz de tratar uma miríade de enfermidades, entre elas febre, doença cardiovascular, impotência e até ressaca. Em geral, o pó do chifre é raspado, misturado com água e bebido pela pessoa. Dizem que não tem gosto muito marcante.
Apesar de a ciência nunca ter comprovado essas propriedades todas, até hoje é possível encontrar em livros de medicina asiáticos referências ao seu poder de cura. O que poucos sabem é que o chifre de rinoceronte é feito de queratina, uma proteína fibrosa encontrada na unha e no cabelo humanos. Ou seja, supostamente comer cabelos ou unhas teria o mesmo efeito terapêutico de usar o pó do chifre de rinoceronte. Ou seja, nenhum.
Para tentar coibir a ação dos caçadores, os países estão testando alternativas. O governo da África do Sul contratou um ex-general para comandar as ações no Kruger, que incluem 400 rangers, 150 voluntários, dois helicópteros, aviões de pequeno porte e um contingente da política. “Uma estimativa conservadora diz que a qualquer hora do dia existem até 40 caçadores atuando no parque”, disse o general Johan Jooste.
Além da força militar, outras táticas têm sido usadas para tentar coibir a ação dos criminosos. Uma delas é colocar veneno no chifre, que não prejudica o animal, mas pode ser mortal para quem ingerir. Outra, mais radical, e que já aconteceu com Sudan, é arrancar o chifre para desestimular a matança. E há cientistas testando modelos de chifres produzidos em impressoras 3D para substituir os originais. Tudo isso é paliativo. “O problema tem apenas uma solução: acabar com a demanda”, diz o consultor de vida selvagem Daniel Stiles. “É preciso convencer os consumidores de que o chifre do rinoceronte não tem qualquer poder de cura.” Isso foi feito com sucesso no passado com o marfim do chifre de elefante, que já foi popular entre os japoneses. Espera-se que o mesmo aconteça com relação aos rinocerontes.
Fonte: Revista Galileu

Você viu?

Ir para o topo